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Full text of "A cidade maravilhosa [microform]"

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LIBRARY OF THE 

UNIVERSITY OF ILLINOIS 

AT URBANA-CHAMPAIGN 



869.9 
Còõci 




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COELHO NETTO 



lADE MARAVILHOSA 



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EDITORA - PROPRIETÁRIA 

COMP. MELHORAMENTOS DE S. PAULO 

(WEISZFLOG IRMÃOS INCORPORADA) 
SÃO PAULO — CAVEIRAS - RIO 




COELHO NETTO 



A CIDADE MARAVILHDSA 




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EDITORA -PROPRIETÁRIA 

COMPANHIA MELHORAMENIOS DE S. PAULO 
(Wdizfloa Irmãos Incorporada) 
S. PAULO . CAVEIRAS - RIO 



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3) 
Fernando ^/izeoedo 



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A CIDADE MARAVILHOSA 



I 

Terminada a aula, no reboliço gárrulo da pe- 
quenada — uns, procurando atabalhoadamente os ta- 
mancos, pretexto para empurrões e cotovelladas ; ou- 
tros batendo nos joelhos os velhos chapéus empoei- 
rados, ou embrulhando, a trôche-môche, os livros e a 
ardósia- e já combinando, aos cochichos, travessu- 
ras lá fora, Adriana deixou a mesa para fiscalisar a 
sabida, como sempre fazia, com uma palavra meiga, 
um conselho, uma recommendação a cada um: 
-'- — Direitinhos, hein?! Barnabé, seu pimpão, nada 
de inticar com os bois por ahi. Olha seu Manoel An- 
tónio, que está de cama até hoje da chifrada daquelle 
zebú. Crissiuma, se eu souber que você anda a ma- 
tar passarinhos com atiradeira, conto a seu pai. Seu 
Bernardino não te perdoa a vidraça que lhe quebraste 
com uma das taes pelotas. Tu, em quanto não apa- 
nhares por ahi uma tunda, não endireitas mesmo... 
E, em tom manso, pausado: Camillo fica ainda um 
bocado fazendo-me companhia. Temos uma conver- 
sinha. 



COELHO NETTO 



O nomeado era um cabocliiiho casmurro, feio, 
entroncado, typo de gnomo, quasi sem pescoço, com 
uma enorme cabeça atarracada aos bombros quadra- 
dos, abanando orelhas acabanadas, que nem a^as. A 
cara larga, ossuda, de boca rasgada, com um nariz 
chato, esparrimado, olhos oblíquos, tinha uma expres- 
são de ferocidade cynica. Rixento e mau, se, na aula, 
vibrava um grito, já se sabia — era alguma maldade 
do caboclinho: beliscão á sorrelfa ou espetadella de 
penna. Aos que o denunciavam esperava nas voltas 
dos caminhos, cahia-lhes, de surpresa, em cima ea- 
murrando-os, rolando-os na lama; a um mesmo fe- 
rira com uma canivetada, ameaçando-o de morte se 
(lesse parte á professora: 

Adriana retinha-o sempre á sabida para dar tem- 
po aos outros de distanciarem-se. E afagando a este, 
passando a mão pela cabeça daquelle, uma palma- 
dinha á face de outro, corrigindo-lhes as roupas, sem- 
pre mal amanhadas, acompanhava-os á porta, sabia 
á estrada para os ver partir, acenando-Ihes adeuses 
até os perder de vista. Então, dirigindo-se ao cabo- 
clinho, sempre sorumbático, amuado, amimava-o, acon- 
selhando-o : 

— • Agora vai. Mas olha lá: juizinho nessa ca- 
beça grande! Nada de maldades. Gente má não se 
salva: vai direitinho para o inferno, assim: e com o 
indicador apontado ao chão fazia menção de fincar. 
Vai. O valentão sabia de cabeça baixa e ia rastejando 
o caminho com os pés chatos, levantando poeira ou 
chutando pedras. Volta e meia, porém, voltava-se para 
ver Adriana. Ella lá estava, a segui-lo com o olhar 
e ameaçava-o com o dedo, recommendando ainda: 

— Direitinho, hein! Mal, porém, dobrava a es- 
quina « aquillo era que nem um veado por ali fora », 
como dizia o boticário, e sempre estrepolias: pedra- 
das aqui, nome feio adiante. Os próprios cães ros- 



A CIDADE MARAVILHOSA 



liavam quando o viam, embarafustando pelos mattos 
de onde se punham a ladrar. 

«Esse!... Esse mesmo não acaba bem!» mur- 
ir.uravam todos no povoado. 

Adriana estimava os seus garotos, o mais ve- 
lho dos quaes teria quatorze annos: pépé, andando 
aos saltinhos, arrimado á muleta. Um apenas fazia 
excepção — taludo, já de buço, grave, com ares de 
homem. Pouco assiduo na escola, não por v^adio, 
porque até, coitado! era o mais attento ás lições, 
com vivo desejo de aprender, mas porque trabalhava. 
«Volta e meia tinha de ir a Barretes, a recados 
do pai, quando o não mandavam longe, com outros, 
para trazer boiadas », dizia elle com acanhamento para 
justincar as faltas. 

Os pequenos adoravam Adriana, cumulavam-na 
de presentes — flores, frutas, doces, ovos frescos*. E ' 
ella tinha sempre chromos, santinhos, quinquilharias 
de mascates para corresponder a taes gentilezas. 

Apezar de amizades tão meigas e do carinho 
com que todos a tratavam na povoação, vivia triste- 
mente, muito retrahida. Se a convidavam para festas 
escusava-se com pretextos delicados. Uma vez, ape- 
nas, por occasião da visita de uns estrangeiros á Ca- 
choeira do Maribondo, fora na comitiva para apro- 
veitar o ensejo de ver tão falada maravilha. 

A escola era uma velha casa, de paredes de 
sopapo, com mais buracos do que um crivo. Quando 
chovia as goteiras eram o pagode da garotada. Para 
não viver só naquella espécie de rancho que, nos 
dias de vento, oscillava rangendo, em ameaça de des- 
mantello, Adriana tomara um quarto e pensão em 
casa de um casal vizinho. 

Finda a aula uma cabrocha fazia a limpeza da 
sala, arranjava os bancos, fechava a casa e lá ia a pro- 
fessora para o seu quartinho pobre, de paredes ca- 



COELHO NETTO 



leadas, mobilado com mna caimia, um lavatório e uma 
estante de ferro, commoda, mesinha de estudo e a 
mala de roupa. 

Ali passava o tempo lendo, bordando. Uma vez 
por outra ia a passeio ao sitiosinho de uns italianos, 
cuja filha, Sandra, robusta e alegre morena, era a 
única e verdadeira amiga que ali tinha. 

A gente do lugar lastimava-a : « Tão bonita moça 
e tão instruída, falando que nem um doutor, diziam 
recordando-se de um discurso que ella pronunciara, 
quando da visita do inspector escolar, e mettida na- 
quelle fundão». 

A povoação era triste — uma rua única, de casas 
esparsas. E todos os dias a mesma vida — bandos 
de enormes zebús pachorrentos levantando a poeira 
da estrada. Raro em raro um cavalleiro indo ou 
vindo de Barretos. Não se animava a sahir, e para 
que? Que havia ali que a pudesse distrahir? Na ven- 
da, durante o dia, eram caipiras lerdos e tropeiros 
remancheando, bebericando; á noite, jogatina, vio- 
las e sanfonas. E, cedo, desappareciam as luzes, ces- 
sava de todo o movimento; de ruidos só o monótono 
coaxar dos sapos, o trillar dos grillos; de longe em 
longe um mugido, o uivo ou latir de um cão ou uma 
voz guaiando cantiga sertaneja. 

Quantos sonhos desfeitos! E para aquillo estu- 
dara tanto, sempre mettida em casa quando as ou- 
tras se divertiam em bailes e espectáculos. Ali es- 
tava e ali ficaria, por falta de quem por ella se interes- 
sasse. E passavam-lhe pela mente certas figuras: ra- 
pazes com quem conversara. De um até, filho de fa- 
zendeiro, recebera versos, lindos versos, cheios delia. 
Quanta esperança morta! 

Diplomada pela Escola Normal de S. Carlos, sua 
terra, fizera um curso brilhante, pensando em obter 
collocação logo que se formasse, tendo até promessa 



A CIDADE MARAVILHOSA 9 



de um lugar de adjunta em uma das escolas do Mu- 
nicípio, foi um desapontamento para todos quando 
correu a noticia da sua nomeação para tão longe. 

Os pais, italianos, viviam de um pequeno arma- 
zém. O homem, um brutamontes, sempre arreman- 
gado, tresandando a sarro e álcool, de cachimbo á bo- 
ca fumegando nas barbas ásperas, nunca tomara a bem 
aquillo de estudos: «Luxos! Que aprendesse a ler 
e a escrever e se empregasse». A mulher, porém, 
contrariava-o docemente, repetindo-lhe os elogios que 
faziam á filha, até nos jornaes. Mas todos os annos, 
com as despezas de uniformes e livros, reaccendia- 
se o furor do homem e eram protestos e exprobra- 
ções : « Que estava velho, cançado e aquillo de Es- 
cola era para gente rica. O que ella devia era pensar 
na vida a serio, empregar-se como outras, que já 
ajudavam os pais ». 

Apezar das rusgas e rebentinas, sempre com a de- 
fesa materna, Adriana conseguiu completar o curso, 
sendo unanimemente eleita oradora da turma. No 
mesmo dia, porém, em que sahiu da Escola laureada 
e abraçada por todos os professores e condiscípu- 
las, como o pai, que não fora á festa por causa do 
armazém e porque não era homem de barafundas, lhe 
perguntasse pela nomeação, e ella lhe respondesse 
« que dependia ainda do governo », elle explodiu com 
um murro no balcão: 

— Ah! depende do governo?! Então espera por 
ella. Has de te-ia quando eu fôr papa. E, remordendo 
o cachimbo, com as barbas fumegantes, embezerrou 
•sombrio. E foi para isto que, durante annos, andei a 
gastar o que tinha e o que não tinha, encalacrando-me 
até os olhos. Depende do governo... Então para que 
diabo estudou você? 

Desde esse dia não teve Adriana um só minuto 
de paz. Linda, que era, as picardias, as insinuações, 



10 COELHO NETTO 



olhares de travez, risinhos entre dentes foram-na con- 
sumindo. Esbateram-se-lhe em pailidez as cores vi- 
vas do rosto, o brilho dos grandes olhos verdes apa- 
garam-no as lagrimas, a boca, pequenina e fresca, 
tão graciosa quando sorria, contrahiu-se em commis- 
suras dolorosas. Tornou-se outra em tudo, emmagre- 
cendo a olhos vistos. 

Para evitar os dichotes do pai, ora enfurecido, 
ora zombeteiro, segundo a monção alcoólica, encer- 
rava-se no quarftr a costurar ou a ler. A própria mãi, 
sobre quem recahia o azedume do homem, cada vez 
mais amiudado ao copo, começava a retrahir-se, re- 
conhecendo-lhe razão. 

As horas de comida eram as de maior soffrlmen- 
to e vexame para Adriana. Calada, de olhos baixos, 
recebia os pratos como por esmola, sempre a ouvir 
allusões: «Isto não é mesa para sabichonas... mas é 
o que ha. » Um dia, porém, por um par de sapatos que 
pedira, por estarem cambados e rotos os que trazia, 
desabou a tempestade e uma phrase dura e vil foi 
como um raio que a feriu: 

«Sapatos, sapatos... Arranje-os! Vá buscá-los á 
Escola ou onde quizer. Quem sabe se eu hei de es- 
tar aqui a matar-me para sustentar vadias?! Arran- 
je-se. Fruta madura não falta quem queira». A insi- 
nuação brutal attingiu-lhe o pudor. Lagrimas subi- 
ram-lhe aos olhos, mas não chegaram a cahir, sumin- 
do-se como gotas d'agua em placa esbrasida. 

Nesse dia resolveu tomar rumo, arranjar qual- 
quer coisa, fosse o que fosse e, enchendo-se de cora- 
gem, procurou uma das suas ex-collegas, filha de 
um deputado, expoz-lhe a sua situação, pedindo -lhe 
intercedesse por ella ao pai. Quinze dias depois ap- 
parecia a nomeação para a escola de Icen, em Barre- 
tes, quasi sertão. 



A CIDADE MARAVILHOSA 11 



II 



Os dias succediam-se em monotonia banzeira. 
De manhan, antes mesmo de levantar a vidraça de 
guilhotina do seu quarto, como que via antecipadamen- 
te, tanto os tinha nos olhos, o ceu muito azul, o cam- 
po raso, de hervagem fina, tremulando ao vento, 
dando impressão de correr como as aguas de um 
rio, as arvores mirradas que lhe ficavam em frente. 
Ainda com o sol sempre se distrahia: — eram pás- 
saros aos revôos, crianças em correrias, tropeiros, 
boiadas. Mas no tempo das aguas, semanas a fio 
de chuva, enlameando os caminhos, onde os carros 
rinchavam atoladamente, cavando sulcos molles, e as 
patas morosas dos bois espapavam-se, isso era de 
morrer. As arvores vergavam-se gotejando, como se 
chorassem; as boiadas passavam em silencio, vaga- 
rosamente, as vozes soavam abafadas, e a impres- 
são era de derròta, aggravada pela melancolia do vôo 
dos urubus e pelos enxames enfesantes de moscas 
que invadiam as casas buscando abrigo. 

E ali ficava ella prisioneira naquelle quarto, ou- 
vindo a voz esganiçada da mulher repetindo sem- 
pre a mesma cantiga e os passos lerdos do homem 
no corredor. Nada que lhe recordasse a vida — miia 
terra chan, Ihanura de areal até o horizonte, gente 
rude, mazomba e a pasmaceira de tapera, tudo á na- 
tureza: matto bravio, bois soltos, porcos fossando 
lameiros, gallinhas cacarejando pelos caminhos. 

Nem jornaes, ao menos. De tempos a tempos 
uma carta em gatafunhos — letras saudosas com que 
a mãi lhe pedia noticias e dizia-lhe da vida amargu- 
rada que levava com o pai cada vez mais rabugento 
e grosseiro, acarrando-se em muafas que o atiravam 



12 COELHO NETTO 



de borco, a roncar, obrigando-a a ir para o balcão, 
numa traballieira que a arrasava. 

Das collegas, nem uma linha. Jazia ali esqueci- 
da, como morta e ali ficaria embrutecendo-se, in- 
vadida pela selvageria da natureza, na ignorância 
lorpa d'aquella gente, adquirindo-lhe os hábitos, as 
superstições, até os dizeres e a própria inflexão das 
vozes, acaipirando-se no falar, nas maneiras, em tudo. 
E lembrava-se das ruinas de uma igreja que vira 
afogada em matto, com arvores enormes dentro da 
nave, rompendo o telhado com as frondes, e os al- 
tares esboroados, o púlpito apenas assignalado pelo 
baldaquino e uma aresta do piso, lages deslocadas e, 
aqui, ali restos de esculpturas e entalhes, escassilhos 
de azulejos, vestígios truncados do tempo em que 
ali houvera culto, se dissera missa e resoaram cân- 
ticos devotos. 

Depois das aulas, trancando-se no quarto, re- 
fugiava-se nos livros, a ler, a ver estampas, scenas 
antigas da historia ou vistas de grandes cidades com 
edifícios enormes, multidões nas ruas, festas, jogos, 
recreios em praias tortulhadas de barracas. Deitava- 
se cedo, sem somno, a pensar em tanta coisa, em to- 
das as suas esperanças perdidas e, lá fora, o silencio 
pesado do deserto, a tristeza do grande ermo com os 
ruidos mysteriosos. De quando em quando uma voz 
longínqua, soturna resoava em lamento — eram os 
bois errantes, os grandes zebús selvagens que dor- 
miam soltos nos campos, ou ruminavam melancolica- 
mente deitados nas macegas mornas. 

Uma manhan, ao levar-lhe o café com leite ao 
quarto, como de costume, a dona da casa perguntou-lhe 
se conhecia um moço alto, moreno, de cabellos muito 
pretos, que andava a pintar por ali, de fazenda em 
fazenda? 

— Não. Não conhecia. Por que? 



A CIDADE MARAVILHOSA 13 

— Elle falou na senhora. Conheceu-a naquelle 
passeio á Cachoeira do Maribondo. Vai agora pin- 
tar a derrubada lá de baixo. Vem ficar aqui uns dias, 
no quarto lá de fora. A senhora não se importa, não é? 

— Eu? Eu, não. Por que? De onde é elle? 

— Do Rio. De vez em quando apparece, met- 
te-se por esses mattos, pintando, e vai-se embora. 
Bonito moço ! Engraçado como elle só. Toca violão e 
canta que dá gosto. 

Tal noticia alvoroçou o coração da professora 
adormecido naquelle ermo e, desde logo, ainda deita- 
da, poz-se a imaginar o pintor, criando-lhe o typo 
segundo retratos de artistas de cinemas que tinha 
em velhas revistas, já attrahida por elle, desejando-o 
como se o esperasse na sua tristeza. Levantou-se es- 
touvadamente, com. alegria, tratando de arranjar-se 
com mais alinho e arrebiques, mirando-se, remirando- 
se ao espelho, compondo o rosto, polindo as unhas. 
Sentia, de quando em quando, estos, bafagem de 
calor nas faces, o peito enchia-se-lhe em respiração 
mais larga. Nunca um dia lhe parecera tão lindo como 
aquelle. 

Na aula, preoccupada, sorria á toa e os pequenos 
como se lhe sentissem a distracção riam, chalravam, 
inticavam uns com outros, forçando-a a chama-los 
á ordem. 

Despachando os alumnos deixou-se ficar na es- 
cola com a cabrocha a ver uma coisa e outra, mas 
o que, em verdade, a retinha, era o vexame de encon- 
trar-se com aquelle estranho, ter de falar-lhe. 

Era Agosto, mez das queimadas. G ar cálido, 
fumarento, abafado dava sensação de febre. O vento 
que soprava, momo, trazia um cheiro acre de res- 
caldo e fonas que esvoaçavam. Rolos negros do fumo 
subiam ao ceu cor de chumbo, accumulando-se como 

2 Coelho Netto — A Cidade Maravilhofia, 



14 COELHO NETTO 



em nuvens cie tempestade, e o sol amarello, coalhado, 
sem brilho, parecia miia brasa, a morrer. 

Começava a declinar o dia com o melancólico 
gemer das rolas, quando ella se decidiu a fechar a 
escola e recolher-se á casa. Logo ao entrar deu de 
frente com o hospede. 

Era um rapagão alto, espadaúdo, typo de athle- 
ta. Estava em mangas de camisa, botas de couro cru. 
Debruçado sobre uma caixa, que arranjava, com os 
cabellos em anneis á fronte, cantarolava baixinho. 
Sentindo-a voltou-se e, ao vê-la, sorriu com lindos 
dentes á flor dos lábios, desculpando-se do trajo de 
trabalho. « Estava como chegara do campo ». Esten- 
deu-lhe a mão com intimidade, lembrando-lhe o pas- 
seio á Cachoeira. Adriana observava-o procurando 
recordar-se e, de mãos presas, olhavam-se encarada- 
mente. 

— Então não se lembra? Estivemos juntos á 
beira do Fervedouro. Creio até que possuo uma pho- 
tographia em que nos achamos: eu, a senhora e 
um senhor, que não sei quem é. 

— Ah! sim... 

— Pois então? 

D'ahi entraram por lembranças d'aquelle dia ale- 
gre, cheio de peripécias: a desfilada em automóveis 
pelos campos seccos, esturricados do sol; o almo- 
ço opiparo na fazenda de um criador de gado in- 
diano, com os grandes zebús rondando a casa; a che- 
gada tumultuaria á margem do rio largo; a travessia 
em canoas; a caminhada estafante, difficil, trambe- 
cando no mattagal que o fogo arrasara, alastrando de 
cinzas o solo pardacento e fofo, estrepado de tocos 
carbonisados, até o lapedo escuro, amontoado de ca- 
Iháos e lascas que rolavam ao piso; por fim, o pene- 
dio negro, talhado em alcantis a pique sobre a tor- 
rente, que rolava em reboleira férvida acachoada 



A CIDADE MARAVILHOSA 15 



em vortilhões coléricos de espuma, de onde se levan- 
. tava nm nevoeiro iriado. 

E as aguas barrentas, estendidas espraiadamen- 
te, ora em estirões calmos, alagoados, ora aperta- 
dos entre rampas graníticas, reboleando-se em cor- 
redeiras precipitosas. Penhascos redondos surgiam em 
meio de remoinhos, semelhando monstros que atra- 
vessassem o rio arrebanhados. 

Longe, as « Andorinhas », outra cachoeira esti- 
rada em socalco, branca como um altar. E o pique- 
nique na gruta; correrias arriscadas nos pedrouços 
lisos e orvalhados; saltos temerários do cimo de pe- 
nhas ao fundo de algares, em pedregulho; e tudo a 
risos e pilhérias, cada qual mais afoito em estroinices. 

Um a cantar aqui; outro, além, em ousio fan- 
farrão ameaçando chegar á ponta extrema de um la- 
gêdo, a cavalleiro do abysmo, bradando para domi- 
nar, com vozeiro, o marulho do fervedouro; photo- 
graphos guindando-se a píncaros, equilibrando a tri- 
peça em chanfras de rochedos para apanhar aspectos 
inéditos. Em tudo a alegria, com um sol maravilhoso 
a illuminar incendidamente a paizagem, scintillando 
nas aguas revolucionarias. 

E deixaram-se ficar á mesa recordando episódios 
do passeio, typos, pontos pittorescos e accidentes 
cómicos. 

Os dois velhos da casa, habituados a recolhe- 
rem-se cedo, remancheavam, lerdos, bocejando e, fos- 
se sinceramente ou astucioso pretexto para pôr ter- 
mo á conversa, a mulher, que andara a aferrolhar 
portas e janellas, rompeu na sala exclamando, ex- 
tasiada : 

— Não imaginam o que estão perdendo! O luar 
parece dia. O pintor poz-se de pé, dizendo: 

— E' uma das coisas que*eu mais aprecio na roça, 
o luar. Na cidade, com a illuminação, ninguém dá por 



16 COELHO NETTO 



elle. Na roça, não. Na roça o luar apparece em todo 
o seu esplendor: é a noite de Deus, simples e pura, 
sem artificio. Lá, tudo são enfeites, jóias falsas, coUa- 
res de luzes, broches de lampadários. Pechisbeques. 

— O senhor gosta mais da roça do que da ci- 
dade...? 

— Conforme... O olhar com que elle a envolveu 
perturbou-a. Afoguearam-se-lhe as faces e uma sensa- 
ção languida, como desHse macio de uma pluma ao 
longo da espinha, fê-la vibrar estremecidamente. Le- 
vantou-se atarantada, como a fugir, dizendo: «Vou 
ver... » Chegando á porta suffocada, sem fôlego, ex- 
clamou commovida: 

— Que bonito! 

— O luar? perguntou o pintor com interesse. 

— Não. A queimada. 

— Oh! Preciso ver isso. Abalou pelo corredor 
e, á porta, onde se postara Adriana, impou o busto 
altivo, volteando a cabeça para abarcar todo o hori- 
zonte em chammas, murmurando em arroubo: 

— Bello espectáculo! Realmente! E vá um ho- 
mem pintar uma scena destas. Cahem-lhe logo em 
cima os críticos — que é fantasia, absurdo. 

O horizonte ardia. Um cairel de fogo barrava a 
extrema da planície, acima da qual, com a refulgen- 
cia do incêndio, o ceu dourava-se em clarões de al- 
vorada. As labaredas affectavam formas as mais bi- 
zarras — zimbórios, minaretes, obeliscos. O aspecto era 
o de uma cidade fantástica, toda de ouro, obra mirí- 
fica de génios ou de fadas, cheia de templos e palá- 
cios sumptuosos. Deslumbrava. 

Por vezes uma columna de fumo subia revol- 
vendo-se em espiraes ou um clarão mais fulgido ex- 
plodia no lumareu. O perfil das arvores mais próxi- 
mas, esbatendo-se naquelle fundo byzantíno, destaca- 
va-se em negrume- e, por entre as chammas, dir-se-ia 



A. CIDADE MARAVILHOSA 17. 



mover-se um grande povo — eram pontos negros que 
esmaltavam iterativamente o relume. 

De repente todas as labaredas baixavam como 
os capinzaes ao vento, e ficava uma orla direita, sem 
a menor aresta, logo, porém, levantavam- se, espicha- 
vam-se de novo em aspas flamme jantes e a visão 
recompunha-se. 

O pintor aproximou-se de Adriana sem uma pala- 
vra, chegando-se-lhe muito ao perto, corpo a corpo. 
Sentindo-lhe o contacto ella relançou-lhe um olhar 
de espanto, sem ousar, todavia, repelli-lo. Elle tomou- 
Ihe o braço, apertou-a a si, buscando-lhe carinho- 
samente a mão. Ella tremia com medo e feliz de sen- 
tir-se assim afagada. 

— Vamos para a estrada, intimou baixinho. D 'ali 
vê-se melhor. Que noite! E a lua, hein? Caminharam 
vagarosamente, de olhos no astro solitário. De repen- 
te, voltando-se como a um chamado, o pintor olhou 
em volta. Ninguém! Então, alludindo ao fogaréu lon- 
gínquo, exclamou: 

— Linda cidade! 

— Onde? perguntou Adriana. E elle, apontan- 
do o horizonte. 

— Ali, pois então? Cidade maravilhosa! Cidade 
do sonho, cidade do amor. 

Na solidão em que se achavam, sem viv'alma 
que a soccorresse, aquella palavra aterrou-a. Era a 
primeira vez que a ouvia de lábios do homem e foi 
como se um bandido a assaltasse cravando-lhe um 
punhal no peito. Estacou de golpe, a pé firme, force- 
jando por arrancar-se do braço que a prendia. Sen- 
tindo-lhe a resistência mais se lhe aferrou o pintor. 

A estrada colleiava, branca e deserta, cortando 
o campo e longe, cada vez mais fulgura, a queimadJa 
flammejava estendendo-se em galão de fogo na linha 



18 COELHO NETTO 

do horizonte raso. Docemente, em voz de segredo, o 
pintor falou-lhe, inclinando-se-lhe ao rosto: 

— Mas diga-me: Como é que uma menina lin- 
da, intelligente e instruida como a senhora pôde con- 
formar-se com isto? Aqui ha segredo, maliciou, sor- 
rindo. 

— Segredo? Que segredo pode haver? 

— Se não fez voto de penitencia, para ganhar 
o ceu... tem aqui alguém que a prende pelo coração. 

— Eu? Coitada de mim! 

— Só o amor consegue abnegações como esta, 
o amor ou a fé. Caminharam ainda em silencio. Na 
quietude do campo era perenne o guiseiro dos grillos. 
Um caboré arrulhou lúgubre. 

— Vamos voltar! Implorou Adriana. E' muito tarde. 

— Tarde! Nem nove horas ainda. E' tarde aqui, 
neste ermo, cemitério de vivos. E, de repente: Co- 
nhece o Rio? 

— Não, senhor. Elle voltou-se e, estendendo o 
braço para o fogaréu, disse com emphase theatral: 

— E' aquillo! Um esplendor, não de fogo, a quei- 
mar, mas de luzes illuminando a vida. Ali, sim! Ali é 
que a senhora deve viver. Isto é bruteza crassa, ter- 
ra bovina. Justamente um zebú atravessava a estra- 
da lento, pesado, meneando a cabeça, com a bada- 
na do pescoço em flácido balouço. Olhe! E' isso. 
E por ahi tudo é o que se vê: bois. Deixou-lhe o bra- 
ço e, tomando-lhe as mãos ambas, frente á frente: 
Ouça-me... Sentindo-a tremer, gelada, tranquillisou-a : 
Não tenha medo. Está diante de um cavalheiro. Ouça- 
me, e a voz parecia ir-se-lhe, aos poucos, extinguin- 
do na garganta. A senhora acredita que eu me tenha 
abalado do Rio, deixando os meus interesses, para 
vir a este sertão pintar quadros, que nem sequer 
podem interessar pela paizagem mesquinha e triste, 
porque tudo aqui é chato, mortiço, como vê? Acredita? 



A CIDADE MARAVILHOSA 19 

EUa murmurou dolhos baixos: 

— Não sei... 

- Se vim, Adriana, foi para vè-la, abrir-me com a 
senhora, dizer-lhe o que sinto desde aquelle passeio 
á Cachoeira. A' medida que falava ia-a attrahindo a 
si e já os corpos se tocavam, apezar da opposição de 
Adriana, que relutava para evitá-lo. Venha! implo- 
rou, meigo. Venha commigo. Não sou rico, mas a 
minha arte dá-me bastante para faze-la feliz. Terá 
o conforto que merece e o ambiente intellectuai 
que o seu espirito reclama. Venha! Será a minha com- 
panheira, a minha inspiradora, participante das mi- 
nhas glorias, minha... Súbito, abarcando-a num abra- 
ço em que a prendeu violentamente, vergando-lhe o 
busto, procurou beija-la. Adriana fugia com a cabeça 
cerrando os lábios; elle, porém, em desvairo, brutali- 
sando-a, venceu-a e as bocas collaram-se em um beijo 
longo, esmagador, sorvido em resmungos de volú- 
pia. De repente, porém, num impeto de desespero, re- 
pellindo-o, ella escapou-se-lhe das mãos, deitando a 
correr espavoridamente. Entrou pela casa esbafori- 
da, foi direita ao quarto, mal atinando com a chave. 
Parecendo-lhe ouvir passos já se dispunha a gritar 
pelos velhos quando a porta cedeu. Entrou, trancou- 
se, desafogando-se em um suspiro largo, de allivio. 

Então, de pé, enclavinhando as mãos, sentiu o 
horror de que se salvara, a grande, irreparável des- 
graça de que fugira. 

Mas, afinal, porque fora? Como se deixara le- 
var por aquelle homem, conhecido de horas? Que 
prestigio teria elle para arrastá-la até quasi á des- 
honra, valendo-se daquellas chammas que ardiam além, 
dentro da noite clara? Pensou no diabo. Bem podia ser. 

O coração enchia-se-lhe de remorsos, sim, re- 
morsos do que fizera, ella, tão recatada, sacrifican- 



20 COELHO NETTO 



dose, como se sacrificava para manter-se pura. Que 
diriam depois — seu pai, sua mãi, toda a cidade ! 

Lagrimas subiam-lhe aos olhos com a vergonha 
do que acontecera, vergonha e ódio daquelle beijo 
que a envenenara, correndo-lhe pelas veias como um 
fogo vivo. Atirou-se á cama abafando os soluços no 
travesseiro. Mas no horror da lembrança trágica pas- 
sava-lhe pela mente aquelle beijo, que persistia numa 
sensação em que todo o seu ser vibrava; e remordia 
o travesseiro, ora em revolta, ora em espasmos, os- 
cillando entre ódio e amor, num duello em que se 
encontravam a carne e o espirito. 

Passou a noite em claro. Antes de romper o 
dia, com a lua a adormecer na alvorada, pé ante 
pé, deixou o quarto, abriu devagarinho a porta da 
rua, encostou-a de leve e foi-se pelo campo orvalhado, 
atravez dos mattos, a caminho do sitio dos italianos. 

No horizonte, onde ardera a queimada, o ceu 
estava tisnado de fumo. 



0O 



/L CIDADE MARAVILHOSA 21 



III 

Ao ladrar dos cães, que investiam furiosamente á 
cancella do jardim, Sandra, que acabava de ordenhar 
as vaccas, no tendal, acudiu ao alarma, logo, porém, 
reconhecendo Adriana, deitou a correr, atirando ale- 
gremente os braços, 

A propósito do ac(>lhimento hostil com que a can- 
zoada a recebera recriminou-a : 

— Estás vendo em que dá a ingratidão? Nem os 
bichos te conhecem mais, até o « Jagunço », que tu 
criaste... E' bem feito! E, refugindo, em negaça, ao 
abraço com que Adriana lhe acenava: 

— Não! Não! Olha como estou... Curvou-se, ri- 
sonha, e, avançando a cabeça, com os braços para 
traz, beijou-a nas faces, Estranhando-lhe, porém, a vi- 
sita áquella hora, perguntou, a rir: 

— Vieste fugida? 

— Não. Vim cedo por causa do sol. Seu Gomes 
foi hontem a Barretos, no troly e, como não ha ou- 
tro... Que fazer? Vim por ahi devagarinho, com a 
fresca. 

— E ficas commigo? 

— Dois ou três dias. " ^ 

— Só!? 

— Mais é impossível. Tenho a escola. Sandra, 
muito corada, com os cabellos enrodilhados á nuca, 
os braços nús, as saias arregaç|idas até os joelhos, 
descobrindo-lhe as pernas robustas, de um moreno 
queimado, levou-a por entre as vaccas e os bezer- 
ros, que mamavam a marradas sôfregas. Um criou- 
linho soltava a criação de pennas e era uma barafunda 
de aves em ânsia de libei-dade — gallinhas a corre- 
rem de azas abertas ; gallos a cantarem em irium- 



22 COELHO NETTO 



pho; patos muito rebolidos, gansos arrogantes, gras- 
nando, de pescoço espichado, a olharem d'alto, como 
em vigilância; perus pantafaçudos, encachiando roda, 
aos bufos. Pombos voavam com estalos de azas e, 
ás correrias, latindo aos bois, os cães arrebanhavam o 
gado para o levar ao pasto. Em volta da casa, toda 
cercada de trepadeiras floridas, com uma latada de 
maracujás á frente, era um continuo bezoar de abelhas. 

— Não repares, desculpou-se Sandra, correndo 
um olhar vergonhoso pelo corpo — de manhan é as- 
sim. Sou eu que faço tudo aqui fora. Mamai, é lá de 
dentro. Papai, cedinho já está na roça com os camara- 
das. Eu, é aqui com os bichos. Debruçou-se a um 
tanque, lavou os braços, enxugando-os ao avental. E 
então, abraçando Adriana pela cintura, levantou-a no 
ar com força de homem: 

— Sua ingrata d'uma figa! Quasi dois mezes 
sem vir ver-me. 

— Trabalho... 

— Trabalho, hein? Pois sim! E, ameaçando-a com 
o indicador. Ando, ha muito, desconfiada desses teus 
modos commigo. 

— Desconfias de mim, Sandra...? 

— De ti, não: de certo sujeitinho de Collina, 
que anda agora muito por aqui. 

— Eu?! Não penso nisso. 

— Pois olha — o meu dedo mindinho nunca me 
enganou. Emfim... Entraram. E Sandra foi logo pre- 
venir a mãi para que fizesse uma macarronada. 

Apezar da confiança que lhe merecia Sandra, 
Adriana não lhe disse toda a verdade, calando, por 
vexame, a scena brutal da estrada. Falou do pintor, 
do seu ar atrevido, das suas maneiras estouvadas, 
das suas phrases, das suas attitudes: 

— Um typo sem modos. Aquella gente não o de- 
via ter recebido, não achas? Fala-se de tudo... Um 



A CIDADE MARAVILHOSA 28 



homem que ninguém sabe quem é, nem de onde vem. 
Não quero, Elle está lá por dias; emquanto não 
se fôr has de ter paciência de aturar-me. 
Sandra fez-se séria e concordou: 

— Tens razão. Quanto a ficares conmosco bem 
sabes que só nos dás com isso prazer. 

— Demais, preciso descançar um pouco. 

A vida era serena naquelle lar simples, A mu- 
lher — typo accentuado de romana, forte, com a bel- 
leza ainda viçosa, era de uma alegria infantil, sempre 
a rir, com duas filas de dentes admiráveis, destacan- 
do-se, muito alvos, na frescura dos lábios vermelhos, 
A sua preoccupação era a casa, trazia-a muito alinha- 
da, desde a sala até a cozinha, que ella mesma diri- 
gia, tendo apenas uma velha negra para cuidar do 
fogo, O homem, um gigante, franco e brincalhão, 
sempre disposto a pilhérias, vivia para dois amores 
— a sua gente e a terra. Falava da sua lavoura com 
orgulho, e do pomar e do jardim, arvore por arvore, 
planta por planta. 

— Isto, com mais dois annos de trabalho, vale- 
rá uma fortuna. Mas não vendo. Era matto quando 
comprei e hoje...? Diziam-me que não fizesse nego- 
cio, porque as formigas não deixariam vingar uma 
planta, e quanto a café, que eu tirasse tal idéa da 
cabeça. Pois ahi a tem, Dá-me de um tudo. Estou 
vendo que, mais dia, menos dia, entra-me pela casa 
dentro um dos meus homens com uma cesta de moe- 
das colhidas na arvore das patacas, que, se não me 
engano, cresce ahi por esses mattos. Terra má... mau 
é o homem, isso sim! 

A' noite reuniam-se na varanda, diante do ceu 
estrellado, sentindo o cheiro das flores e da seiva 
das arvores. Os vagalumes passeavam centelhas. Na 
quietude a voz mansa do gado valia por um canto bu- 
cólico e, ouvindo-o, docemente espichado em uma ca- 



24 COELHO NETTO 



deira de lona, d'ollios semi-cerrados, o homem can- 
tarolava baixinho canções da pátria, nas quaes, ás 
vezes, a mulher e a filha intervinham em coro nos- 
tálgico, muito afinado e brando. 

Nessa mesma noite, na varanda, ao luar, a pro- 
pósito do cheiro de coivara trazido pelo vento, Adriana 
falou da queimada: 

— Que belleza! De longe parecia uma cidade de 
ouro, como as dos contos de fadas. 

O homem resmungou apenas, com intenção: 

— De longe! E, depois de um silencio. Foi todo o 
capoeirão do Bricio e muito ainda de campo. Eu vi 
daqui. E quer saber? Para mim aquillo foi maldade. 
Bricio anda sempre mettido em questões com meio 
mundo. A terra é que paga. Não imagina a pena que 
me faz vê-la assim causticada. E depois como fica. 
E, de repente: Olhe, eu tenho de ir amanhan para 
aquellas bandas. Quer vir commigo? 

— Quero! aceitou Adriana com alegria e San- 
dra logo propoz-se: 

— Eu também! 

— Pois está dito. Cá a patroa fica a cuidar da 
polenta. E a minha amiguinha verá o que resta da 
cidade de ouro, a tal cidade maravilhosa que avistou 
lá de longe. 

De manhanzinha, ainda com a neblina, já o troly 
estacionava junto á cancella e o homem, emquanto 
esperava as moças, que se apromptavam, poz-se a 
andar pelo jardim examinando as roseiras, quebrando : 
aqui, um ramúsculo secco; fincando mais fundo, além, 
um espeque. Quando ellas appareceram, com enormes 
chaperões de palha contra a soalheira no descampa- 
do, o homem subiu á boléa, tomou as rédeas, atitou ás 
bestas, que arrancaram folgadas. 

Que frescor nos caminhos do sitio, com o seu 
arvoredo muito verde, denunciando trato, e o mi- 



' A CIDADE MARAVILHOSA 25 

lho em larga seara loura, e as carmas ondulando 
mollemente; e, mais longe, escuro, o cafesal novo, 
arruado a capricho. Aqui, ali, entre o verdor das 
arvores, uma casa alvejando. Pancadas monótonas 
martellavam o silencio e no ar fino, azulado, era 
uma gorgeada de pássaros revoantes. 

— Até aqui é nosso! disse o homem com or- 
gulho. E entraram no terreno sáfaro. 

Era um solo duro, pétreo, de macéga rispida, 
averrugado de cupins. Arvoretas rachiticas, de raras 
folhas amarellentas, subiam dentre os capins pennu- 
gentos e o troly, apezar da cautela com que era con- 
duzido, volta e meia topava em um socalco ou batia 
fundo em caldeirões occultos sob a hervaçal. 

Cortes profundos entre barrancas esfoladas, tri- 
lhados em sulcos parallelos — vincos de carros de 
bois no tempo das aguas — corcoveavam em acclives 
e declives. O homem ora estugava a parelha, ora a re- 
tinha, sem, todavia, evitar os trancos em certos pon- 
tos mais escavados, onde o troly inclinava-se, ora a 
um lado, ora a outro, em risco de virar. O ar es- 
tava toldado de cinzas que voavam ao vento apegando- 
se ás roupas. 

— Fecha os olhos ! recommendava Sandra a Adri- 
ana, obrigando-a a baixar a cabeça, puxando a aba 
do chapéu á fronte. E o cheiro momo da terra 
adusta tornava-se mais activo e a poeirada mais 
densa. Pássaros voejavam estonteados, e abelhas, e 
maribondos. Grandes besouros zuniam como balas. 

— Cá estamos na sua cidade de ouro, a sua ci- 
dade maravilhosa, disse o homem a rir, voltando-se 
d'esguelha na boléa. E está serio isto... Temos de 
andar com cuidado, porque o fogo ainda lavra. E olhe 
que começou ante-hontem, á noitinha. Quem deu por 
elle fui eu, lá da varanda. Ainda pensei que fosse 
clarão do luar, mas depois... O vento tocou-o. A' 



26 COELHO NETTO 



meia noite ardia tudo. Temos obra ainda para alguns 
dias. Isso agora vai devagarinho, como digestão de 
giboia. 

O troly deslisava vagaroso, macio, como se fosse 
por uma alfombra. Mas que desolação! Era um im- 
menso cemitério, onde os tocos carbonisados seme- 
lhavam as placas que numeram as covas. Troncos 
negros mantinham-se de pé, hirtos que nem postes; 
outros ainda fumegavam á maneira de tições; e pelo 
solo cinereo, balofo, eram galhos encarvoados, alguns 
ainda com folhas encoscoradas. Dir-se-ia uma flores- 
ta mumificada. 

Urubus voavam em circulo na altura á espia de 
carniça e pássaros atarantados piavam em reclamo 
triste, pousando nos galhos fuliginosos, á procura, 
talvez, dos ninhos. 

Em certos pontos a terra árida fumegava e havia 
brasas, estrallejo de chammas. Era a rimainação do 
incêndio. A terra estuava em calor de fornalha. E o 
troly avançava a passo e passo das bestas, evitando 
troncos, toros, coivaraes que ardiam. Uma arvore, que 
tombara sobre as raizes, chiava como em estertor. 

— Aqui a tem, a sua cidade maravilhosa. Viu-a 
de longe, era linda. Veja agora. lUusões, fanciulla. 
Illusões... Adriana olhava estarrecida. Mas não era 
a destruição das arvores, não eram aquellas cin- 
zas pardacentas, ainda mornas, não eram aquelles 
troncos denegridos, aquelles ramos que rechinavam 
amojados de seiva que a commoviam, mas a lem- 
brança da scena da estrada, a seducção do homem 
sinistro a mostrar-lhe, ao longe, no fogaréu rutilante, 
a cidade maravilhosa, cidade do sonho, cidade do 
amor. 

E, na imaginação, poz-se a comparar o seu des- 
tino ao daquellas arvores, ao de toda aquella terra 
calcinada e em miséria depois de umas horas breves 



A CIDADE MARAVILHOSA 27 



de esplendor. Não a houvesse Deus protegido contra a 
seducção e... ai, delia! 

Tremia. lam-lhe os olhos desvairadamente da ter- 
ra em cinzas ás arvores carbonisadas, ao ceu ennubla- 
do e via-se como aquella desolação: perdida, rondada 
de abutres, com as suas virtudes como aquellas aves 
tontas que procuravam, a chorar, os ninhos incen- 
diados. 

A commoção travou-lhe a garganta. De repente, 
descahindo ao hombro de Sandra, desatou em pranto. 

— Que é, Adriana? Que tens? perguntou-lhe a 
amiga afflicta, sem comprehender aquellas lagrimas. 
Oue é? Fala! 

o homem reteve os animaes e, voltando-se pre- 
occupado, indagou : 

— Que, foi? 

Ella sacudiu a cabeça, deu d'hombros limpandio 
os olhos: 

— Nada. Pena. Tenho pena das arvores, dos 
pássaros, de tudo. Corta o coração ver isto. Tão lin- 
do, de longe..! 

— Ah! menina, é assim. A distancia engana. 
De longe é uma coisa, chegue-se a gente perto e verá. 
Pena também tenho eu. Para mim as arvores sen- 
tem, como nós. Sentem! Oh! se sentem! Tem razão. 
Mas não chore. A terra refaz-se... 

— A terra...! suspirou Adriana. 

— Basta uma chuva para tudo rebentar de novo. 

— Mas as lagrimas, por mais que as choremos, 
não fazem o milagre das aguas do ceu. 

Percebendo que a crise voltava a Adriana San- 
dra intimou: 

— Olhe, papai, quer saber de uma coisa? o me- 
lhor é voltarmos, E' até um perigo mettermo-nos por 
ahi, com esses troncos que ameaçam cahir. Depois os 



28 COELHO NETTO 



animaes estão soffrendo com os pés nas cinzas quen- 
tes. Vamos voltar. 

— Pois sim! concordou o homem, pachorrento. 
E, subindo para a boléa, tocou em rumo ao sitio. 
Adriana voltou-se para a desolação e, muito tempo, es- 
teve a olhar, a ver, não aquella tristeza da terra de- 
vastada, mas a queimada da véspera, o deslumbra- 
mento que a fascinara, a cidade maravilhosa, toda de 
ouro dentro da noite, sentindo na boca o sabor da- 
quelle beijo infernal, que a queimava por dentro, como 
o fogo ainda lavrava naquelle páramo reduzido a 
cinzas. 



oK> 



A CIDADE MARAVILHOSA 29 



APROXIMAÇÕES 

— Pau que nasce torto, meu amigo... E" o meu 
caso. As minhas atrapalhações começaram com o meu 
nascimento. Eu não sei de que freguezia sou, quero 
dizer — não sei, ao certo, se sou deste século ou 
do outro. 

— Como? 

— E' verdade. Ha duvidas sobre a data do meu 
nascimento. Querem uns que eu seja de 31 de De- 
zembro de 1899; affirmam outros que sou de 1.° de 
Janeiro de 1900 e de taes duvidas resultou o nome 
complicado que tantos vexames me tem trazido: Sil- 
vestre da Circumcisão Brochado. 

— Da Circumcisão...!? 

— E' como lhe digo. Um nome a talho de foi- 
ce, não é verdade? 

— Mas porque isso? 

— Por causa dos relógios. O relógio de parede 
da minha casa, um cuco, marcava 11 e 47 minutos 
quando surgi aos berros, e no relógio de meu pai, 
um chronometro suisso, passavam cinco minutos da 
meia noite, dia seguinte, portanto e eu fiquei engas- 
gado entre as duas datas e com um nome de Dezembro 
e outro de Janeiro e mais o Brochado, que é o ap- 
pellido de familia. 

í> Coelho Netto — -4. Cidade yiarai^illwfa. 



30 COELHO NETTO 



Todos os annos havia tremendas discussões em 
minha casa a propósito do meu nascimento. Mamai 
era pelo relógio de parede; papai batia-se pelo chro- 
nometro suisso e estiveram quasi a divorciar-se por 
não chegarem a accordo nessa questão de tempo. 
Cresci em tal embrulho, a ouvir o bate boca desde 
1.0 de Dezembro a 1." de Janeiro. E, até hoje, a minha 
vida tem sido mua atrapalhação, ou encrenca, como 
agora se diz. 

Por mais que faça nunca sei a quantas ando. Pen- 
so em uma coisa, sahe-me outra. Todas as vagas 
que me apparecem são, para mim, como as de Co- 
pacabana para os banhistas: em vez de me salvarem, 
afogam-me. Na Loteria, por exemplo. Compro um 
bilhete — não sei se é porque fui sempre um tre- 
mendo abolicionista... 

— Mas quando o senhor nasceu já não havia 
escravos... 

— Não havia, tem razão, não havia porque nasci 
atrazado. Sempre a questão de tempo, mas o pensa- 
mento, o amigo comprehende, o pensamento que eu 
teria trazido se houvesse nascido a tempo, esse seria 
tremendamente abolicionista! Pois foi, ou antes, é por 
isso que só compro bilhetes brancos, mas sempre 
em aproximação com um premio. Ha dias comprei 
um inteiro: 13,518. Lindo numero, não é veMade? 
Sabe o que aconteceu? os contíguos: 13.517 e 13.519 
foram premiados — o primeiro com cinco contos ; o 
segundo com duzentos mil réis. O meu, branco. E 
em tudo é assim. Casei-me. Minha mulher era um. 
modelo de esposa, senhora de excellentes virtudes, 
religiosa como um cathecismo. Adora va-me! Éramos 
até citados como exemplo de amor conjugal. Pois bem, 
quando rebentou a guerra, um primo d'ella, que vivia 
em Paris, appareceu-nos em casa. Hospedámo-lo. O 
typo era dos taes que dançam em cabarets e tocam 



A CIDADE MARAVILHOSA 31 



guitarra, E mais uma vez fui victima da aproximação. 
O pelintra contou taes lerias á minha virtuosa mu- 
lher que eu... fiquei a ver navios e de casado conser- 
vei apenas o titulo, titulo que vale tanto como outros 
de emprezas fallidas que me entulham as gavetas. 

Agora ando com uma questão de terras em Ja- 
carépaguá. Sempre as aproximações. Certo vizinho, 
homem de maus bofes, entendeu de invadir-me a roça 
com os aniroaes — bois, porcos e os filhos, que são 
umas feras. Pois, meu caro, tenho gasto rios de di- 
nheiro para ser dono do que me pertence e estou 
vendo que o homem acaba tomando conta de tudo. 
Que hei de fazer? E' sina. O senhor, garanto, não tem 
duvidas sobre a data do seu nascimento, sabe em 
que dia veiu ao mundo, pôde dize-lo alto, de cabeça 
erguida. Eu, não. Eu dependo da pêndula do relógio 
de parede, da inteira confiança de minha mãi, e do 
chronometro suisso, tido por infallivel por meu pai. 
Acho-me entre dois tempos, sempre na incerteza, apro- 
ximado, nunca, porém, em justo, nem aqui, nem ali. 

— No meio. 

— Isso, no meio, como fiambre em sandwich. 
Sou victima do jogo d'empurra. Quero uma coisa, 
vou direito a quem m'a pôde dar e, quando penso 
sahir servido, saio com uma carta para outro, que, 
por sua vez, me remette a terceiro e assim ando 
eu aos empurrões. Agora tenho a attenção voltada 
para o divorcio, que será a minha taboa de salva- 
ção, porque a verdade é que eu sou casado, mas não 
estou, tenho mulher, mas em poder de outro, e como 
não são permittidas as accumulações... 

— Remuneradas. 

— Sim, tem o senhor razão, mas o governo até 
que tire isso a limpo, sei lá! 

— Mas se a Lei não permitte as accumulações 
remuneradas não se oppõe aos biscates. 



r í^ 



32 COELHO NETTO 



— E'... é... mas eu não quero posições duvido- 
sas. Para duvida basta-me a da data do meu nasci- 
mento. Já agora espero o divorcio. Pode ser que, 
desta vez, consiga alguma coisa, não por sorte mi- 
nha, mas porque ha muita gente interessada no caso. 
Será um bilhete de sociedade e, como é possível 
que no grupo haja algum felizardo, aproveitarei a 
monção e irei por ella. Por mim, só por mim, pôde 
estar certo de que tal lei encalha na Camará, talvez 
chegue ao Senado. Aproximação... sempre as apro- 
ximações. E querem ainda que um homem como eu 
ame o próximo, como a si mesmo. Pois sim...! 



o|o 



A CIDADE MARAVILHOSA 33 



NOTAS RECOLHIDAS 

— Ribot extrahiria do meu caso um livro. Co- 
nheces a obra de Le Dantec Les fronUères ãe la 
maladie ? 

— Conheço-a de vista. Folheei-a na bibliotheca 
do Gusmão, esse cabotino que adoptou a divisa de 
Pico de la Miraiidola: De omni re scibili... 

— Pois, meu amigo, por mais que os médicos 
tentem tranquillisar-me dissuadindo-me do que elles 
chamam « as minhas scismas », sinto que estou mui- 
to perto de uma de taes fronteiras. Com o que ella 
extrema não sei, está-me, porém, a parecer que a 
regiã,o limitrophe é deserta, sombria, voejada de som- 
bras, como aquelle pallido paiz cimmerio onde Ulys- 
ses penetrou levado por Homero. 

— Mas por que dizes isto? 

— Porque sinto. O meu maior orgulho outr'ora, 
se te recordas, era a minha memoria. Mnemosyne não 
a tinha mais fiel. Prompta, infallivel, attendia ás 
minhas solicitações frequentes como o telephonio at- 
tende ao chamado. 

— E's injusto com a tua memoria, porque nada 
conheço mais remisso na obediência do que esse ap- 
parelho. Mas deixemos o telephonio e vamos ao teu 
caso, que me interessa. 




f^ 



-.^(^ZS. 



34 COELHO NETTO 



— Eu tinha os meus estudos, as minhas leitu- 
ras em ordenado registo. Livro que eu lesse ficava-me 
gravado indelevelmente na memoria e assim factos, 
dos mais recentes aos mais remotos, datas, nomes, 
endereços, tudo ! Reproduzia, sem falhas, paginas e pa- 
ginas de autores, poesias longas; não recorria jamais ao 
catalogo para verificar o numero do telephonio dos 
meus amigos e dos meus fornecedores e, ouvindo um 
discurso — como succedeu com o do Ruy pronunciado 
no Polytheama — repetia-o quasi integralmente. Tal 
poder, feito de attenção, faculdade apprehensora, e 
de memoria, registo de fixação, foi, pouco a pouco, 
enfraquecendo. Hoje tudo confundo, baralho. Distraio- 
me, esqueço-me... Não sei. 

Antigamente não me preoccupava com annota- 
ções. Se me occorria um assumpto ou uma imagem, 
dormia sem preoccupação, certo de que, na manhan 
seguinte, ao primeiro appello que fizesse ao cérebro, 
elle me responderia com o que eu lhe confiara. Hoje, 
antes de deitar-me, verifico se tenho á mesa de cabe- 
ceira o meu caderno e o lápis para fixar o que, por 
acaso, me venha á mente e que possa ser aproveitado 
em algum trabalho. 

A minha memoria tornou-se um verdadeiro cri- 
vo, atravez do qual tudo passa e se perde. 

O meu antigo methodo degenerou em desordem. 
Perco objectos, começo uma leitura e passo paginas 
e paginas inteiras tão alheado do texto como um ho- 
mem que atravessa uma rua conhecida sem atten- 
tar nas casas, indifferente a tudo, andando a esmo, 
de olhos no chão. Nos salões — e por isto evito 
frequenta-los — não imaginas como me atrapalho. Pes- 
soas que me sorriem, que me falam e que eu conhe- 
ço, mas de cujos nomes não me lembro... isso é com- 
mum. E sinto, sinto que alguma coisa estranha se 
passa dentro de mim. Sabes esse ruido de guiseiro 




A CIDADE MARAVILHOSA 35 



que ha no interior das grandes florestas, riiido fei- 
to de vozes de insectos, de bulicio de folhas, de mur- 
múrio dagua, de voos leves entre a folhagem, ruido 
do silencio como já alguém lhe chamou? Pois bem, 
esse ruido resôa perenne dentro de mim, como se o 
meu craneo fosse uma concha, entendes? E' horri- 
vel! Enfesa. E'.a tal coisa. 

Sahi do mundo normal, entrei no deserto e mar- 
cho em direcção á uma fronteira desconhecida. Remi- 
niscências acod,em-me de vez em vez, miragens, espe- 
ctros do passado. 

As opiniões dos médicos variam: uns attribuem 
taes phenomenos á fadiga; outros á vida solitária 
que levo. Já até um d'elles me comparou a Santo 
Antão com as allucinações demoníacas, as visuali- 
dades, os delírios sensuaes que obsidiavam o ere- 
mita. Litteratura. 

Quanto á vida solitária... não sei. Em verdade, 
meu amigo, eu vivi demais na mocidade, gosei e sof- 
fri como poucos, accumulei impressões e sensações 
do meu tempo e casei-me muito Jovem, tornando-me 
um homem da familia, um prisioneiro do lar e, cá 
f(3ra, a vida continuou progredindo. A cidade desen- 
volveu-se, os costumes modificaram-se, tudo se trans- 
formou e eu... pai de familia. 

Conheces a historia d'aqTielle colono que se ins- 
tallou em um lote de terra fértil e, trabalhando de 
sol a sol, vivendo com a mais apertada economia, todo 
o lucro que trazia da feira, ^trocado em notas, met- 
tia em uma lata, que enterrara na roça? 

Accumulando annos e annos, quando julgou a 
fortuna bastante para realisar o sonho de toda a sua 
vida trabalhosa, que era adquirir uma quinta na 
terra natal e nella assentar-se para gosar na velhice 
o repouso que jamais tivera na mocidade, desenterrou 
o thesouro e foi-se com elle ao banco. Ao despejar a 



c^ 



36 COELHO NETTO 

papelada, velha de mais de quinze annos, o recebe- 
dor encarou-o espantado e, repellindo as notas, dis- 
se-1'he escarninho: 

— Isto não vale nada. O que aqui ha são notas 
recolhidas. De onde vem você, homem de Deus! Es- 
tás a ver que o desgraçado não teve forças para re- 
sistir ao choque e, em vez de sahir d'ali com o di- 
nheiro para a quinta do sonho, sahiu em carro de 
força para uma cella do Hospicio. 

Eu estou nas mesmas condições d'esse homem 
e receio ter o fim trágico que elle teve. 

Com a morte de minha mulher fui forçado a 
reentrar no mundo, do qual me havia apartado. E 
como entrei? Entrei com as idéas antigas, com os 
costumes antigos, com os hábitos e a moral do meu 
tempo: notas recolhidas, como as do colono. Se me 
não tivesse encerrado, como me encerrei, te-las-ia 
trocado, á medida que fossem sendo chamadas á 
Amortisação, mas... que queres? Com os ciúmes da 
fallecida, que me não deixava por pé em ramo verde, 
exilado na fazenda, entrar assim, de repente, em vida 
nova, com tudo isso que por ahi se vê... e com as mi- 
nhas idéas recolhidas, comprehendes... Acho que to- 
dos os males que me acabrunham, essa desordem 
cerebral, desequilíbrio, arvoamento, emfim... Pôde 
ser que tudo corra por conta do meu atordoamento, 
porque, em verdade, passar um homem a melhor 
parte da vida a accumular para, em dado momento, 
na hora em que se decide a empregar as economias, 
saber que toda a sua fortuna é um monte de notas 
recolhidas, não é só para atordoar e fazer perder 
a memoria, é para fazer perder de todo a cabeça. 
Ainda assim sou mais forte do que o colono, porque, 
como vês, não visto ainda a camisola de força. 

— Mas, pelos modos, estás com vontade de ex- 
perimentar a de onze varas. Se é por isso não te in- 



A CIDADE MARAVILHOSA 37 

commodes. Tenho meios de trocar as tuas notas re- 
colhidas e sem desconto, talvez, até, c-om ágio. 

— Em que Caixar'de Amortisação? 

— Ha tantas por ahi...! principahnente para um 
homem nas tuas condições: viuvo, ainda forte e cin- 
co vezes millionario. Se quizeres poderemos começar 
o resgate hoje á noite, num club e, trocando, por exem- 
plo, a valsa do teu tempo de solteiro, pelo Cliarleston, 
nota da ultima emissão. 

— Homem... logo o Charleston. Começas pelas 
notas grandes... Vamos devagarinho. Onde poderei 
eu trocar a polka pelo fox-trot...'? 

— Ora... isso em qualquer parle, é dinheiro miú- 
do. Acho que deves começar pelo Charlesto7i. 

— Uhm! Depois do regimen do meu tempo de 
casado, um abuso assim... Tenho medo que me dê 
na fraqueza. 

— O Charleston ? Não ha fraqueza que lhe resis- 
ta. Tenho visto milagres, palavra! verdadeiras re- 
surreições. 



olo 



o8 COELHO NKTTO 



O MONUMENTO 

Foi uma das primeiras a chegar á praça, em meio 
da qual avultava a mole do monumento ainda enco- 
berta. A um lado, como coreto em festa de arraial, 
trapejando bambinellas de metim, erguia-se o palan- 
que destinado ao elemento official e pessoas gradas, 
e, delimitando o audito reservado para a cerimonia, 
um circulo de mastros empavesados, ligados por uma 
corda de flammulas e galhardetes. 

Subindo ao grammado, onde havia um banco, 
sentou-se com um susoiro de allivio. Ardiam-lhe si-- 
napisadamente os pés, doiam-lhe as curvas das per- 
nas da caminhada longa que fizera, ella que vivia 
mettida em casa, rebolando o corpo pesado de um a 
outro canto do quarto, ou na rede, onde passava a 
maior parte do tempo, com uma moxinifada de mo- 
lambos, fuchicando um, fuchicando outro, a passear 
com a memoria pelo remoto passado. Quantos annos 
vividos! Como iam longe, Deus do ceu! 

Era uma mulheraça morena, de um moreno de 
sândalo, gorda, collo e quadris anchos, braços roli- 
ços, de pelle fina, com duas covinhas de amor nos 
cotovellos. Devia ter sido bonita e ardente no sangue 
de mestiça. Os olhos, grandes e negros, ainda rebri- 
lhavam; a boca, pequena, de lábios carnudos, entre- 
abria-se, como em fadiga, mostrando os dentes muito 



\ 



A CIDADE MARAVILHOSA 



39 



brancos; fronte breve, finamente riscada a estrias: 
cabellos fartos na pretidão dos quaes appareciam fios 
brancos como fitas de luar no escuro d'um balsedo. 
Não fosse o rbeumatismo que a tolhia 1... 

Quando a dona da casa (na qual ella occupava o 
melhor quarto, com jcm.ella sobre o quintal), lhe deu 
noticia da inauguração do monumento, no domingo 
próximo, o coração bateu-lhe forte, a Ímpetos estuan- 
tes. Tirou precipitadamente os óculos e, encarando a 
senhoria com ar pasmado, como se duvidasse do que 
lhe ouvia, poz-se a repuxar o grosso lábio, como 
distrahida, o olhar perdido ao longe. Por fim indagou: 

— Monumento? Mas que é? 

— Estatua, D. Leocadia. 

— Estatua!? Ora essa! Mas estatua, por que? A 
senhoria deu d'hombros. Mostrando, porém, o jornal 
com' o retrato e a biographia do grande homem, disse : 
— Olhe. Está aqui. A velha repoz os óculos e, che- 
gando muito aos olhos o jornal, examinou attentamente 
a gravura, com franzidos da fronte. 

— Não está muito parecido, não; mas é elle. E 
que é que diz? A senhora pôde ler para mim? 

— Pois não. E a senhoria poz-se a ler. Era um 
louvor de principio ao fim, desde a infância estu- 
diosa e exemplar até a culminância ascensional — 
deputado, senador, ministro d'Estado, intimo do Im- 
perador, condecorado por vários monarchas. Citava- 
se a sua dedicação á coroa quando, constando que 
um batalhão se revoltara, enfermo, com febre, elle 
se levantara da cama e, com febre, affrontando a 
noite tempestuosa, mandara tocar para S. Christo- 
vam, indo collocar-se ao lado do Imperador. 

— Isso é verdade, eu me lembro, confirmou a 
mulata. E, até o final do artigo, foi esse o seu único 
commentario. Tivesse-a, porém, a senhoria observado 
em certos passos da apologia referentes ás virtudes 






40 COELHO NETTO 



do grande brasileiro, « cuja vida, pela austeridade, po- 
dia ser inscripta entre as dos varões de Plutarcho», 
e teria surprendido meneios de cabeça, caramunhas, 
momos, olhares muito abertos de espanto. Em certo 
ponto em que o articulista, tratando da vida intima 
desse que fora um modelo de sisudez, «um verda- 
deiro sacerdote no templo da familia », a mulata não 
se conteve e irrompeu estabanadamente : 

— Pois sim...! Venha com essas p'ra cá! A se- 
nhoria indagou: 

— Que é? 

— Historias! P'ra que essa lenga-lenga toda? Men- 
tira! Remexeu-se freneticamente na rede como remor- 
dicada nas enxúndias. 

— Olhe, eu não sou mulher de falar dos outros, 
mas ha certas coisas que enfesam. Como eu já contei 
á senhora, e todo: o mundo sabe, eu fui cria d'aquella 
casa. Ali nasci, ali me fiz moça e... Aboquinhou os 
beiços em amuo e espocou um muchôcho. Criamo- 
nos juntos. Elle era mais velho do que eu uns seis 
ou sete annos. Menino levado, a senhora não imagina. 
Um capeta! 

Fez uma pausa arquejante e o collo encheu-se-lhe 
como em affluencia de saudades que lhe subissem do 
coração. Poz-se a brincar com os óculos. Um sorriso 
malicioso rondava-lhe os lábios, abria-se-lhe no rosto 
cheio e, de olhos baixos, pudicamente, murmurou: 

— Mau, não era; isso não era, mas repetir o que 
está ahi no jornal, não, que eu não minto. Homem de 
respeito! Atirou o busto para traz: Qual! Homem de 
respeito... Casquinou um risinho canalha. O que elle 
fazia na politica, isso não sei. Ouvia dizer que era 
deputado, depois passou a senador, a ministro e não 
sei que mais. Tinha carro, ordenança e a casa an- 
dava sempre numa barafunda que punha a gente 
tonta. Trabalhava até as tantas da noite, não sei se 



A CIDADE MARAVILHOSA 41 



por que tinha mesmo que fazer ou se era esperteza 
para ficar acordado e andar pela casa como assom- 
bração. 

Olhe, Rosinha está ahi com dois filhos delle. Co- 
ralia, uma mulatinha quasi branca, linda que fazia 
gosto, teve de desmanchar o casamento com um mo- 
ço estabelecido por causa delle. Eu mesma, que é 
que a senhora pensa? eu mesma, se nãxD fosse quem 
sou e se não dormisse perto do quarto do casal, 
fechada por dentro, não sei! Quanta vez ouvi baru- 
lho na porta: era elle empurrando, chamando por mim, 
baixinho. Nem sei como Sinhá não ouvia. E não ha- 
via criada com que elle não bulisse. 

Uma espanhola, moça séria, casada com um con- 
ductor de bonde, essa, se não fosse a gente, teria 
feito uma agua suja dos diabos. Pois o homem não 
se emendou. 

Quando Sinhá subia para Petrópolis e elle, fi- 
cava cá em baixo, por causa da politica (politica 
era a desculpa) não lhe conto nada! Depois ciumadas, 
brigas na cozinha e na copa; falava-se delle em toda 
a vizinhança. Era uma pouca vergonha. Nem sei como 
Sinhá não dava pela coisa. 

E' que essa gente não se importa muito com a 
casa, só quer saber de costureiras, de cabelleireiros, 
de bailes, de theatros. Agora está ahi esse homem 
contando balelas no jornal. Eu só digo que se elle 
foi tão grande na politica como foi virtuoso em casa... 
pôde a senhora acreditar que não valeu nada. Em- 
fim, como depois de morto todo o mundo é santo... 
deixá-lo. A senhora nunca comeu carne de boi por- 
que no açougue tudo é vacca. Pois é assim. Eu, em- 
fim, vou até lá. Sempre quero ver a tal estatua. 

Foi uma das primeiras a chegar, acompanhou de 
longe toda a solemnidade, com pena de não ouvir os 
discursos, de não poder ver bem a ostatua. Mas quan- 



42 COELHO NETTO 



do a tropa desfilou, quando se retiraram as auctorida- 
des e o povo foi-se dispersando, ella adiantou-se ta- 
garosamente, postou-se diante do monumento e, exa- 
minando a figura culminante, de fardão de ministro, 
braços cruzados, voltada para o mar, em attitude al- 
tiva, meneou com a cabeça desconsoladamente, mur- 
murando : 

— Qual! 'Este mundo, este mundo!... Olhem que 
a gente vê cada coisa!... O engraçado é que parece 
que o homem que fez a estatua foi o mesmo que 
escreveu no jornal, porque isso que está ahi tanto 
pôde ser elle como não sei que... Não vê que elle era 
assim!... E poz-se a notar defeitos no corpo, nas fei- 
ções, na attitude. 

De repente, apertando os olhos, teve um frouxo de 
riso. E' que se lhe afigurara o grande homem, não 
como ali se achava rigido no bronze, mas em camisola 
de dormir, pisando em pontas de pés, descalço, sorra- 
teiro, avançando na penumbra do quarto, apalpando-a 
no leito, a chamá-la baixinho, em voz abafada e tre- 
mula: «Leocadia!... Cádinha»... Ouvia-lhe os esta- 
lidos dos artelhos, sentia-lhe o hálito quente. 

Uma onda de sangue subiu-lhe ao rosto, o cora- 
ção encheu-se-lhe de saudades, todo o seu corpo vi- 
iDrou num arripio sensual. 

Então, fitando a figura imponente, pareceu-lhe 
vê-la transfigurar-se — e era aquelle mesmo cujos 
cabellos macios seus dedos anediavam carinhosamente. 

Suspirou e foi-se, devagarinho, passo a passo, 
como para não ser sentida, com receio do homem 
que ella conhecera tão bem, cuja voz, tremula de 
volúpia, ainda lhe resoava no coração, como reboa 
nos búzios o marulho do mar, lembrança de tempos 
idos evocada por aquella figura que se impunha no 
pedestal, hirta, de bronze, brilhando com lampejos de 
ouro ao sol. 



A CIDADE MARAVILHOSA 43 



OS SENTIDOS 

Assim como não vemos o nosso rosto, ainda que 
nelle tenhdimos os olhos, também não apreciamos, com 
julgamento seguro, as nossas qualidades boas e más, ou 
sejam: os nossos vicios e virtudes. Ninguém se conhece. 
Inscreveram muito alto, no frontão, o que devia jazer 
em baixo, no limiar do templo, para que todos vissem 
e praticassem o dictame delphico: Nosce te ipsum. 

Miramo-nos todos em um espelho e esse espelho 
é a opinião publica. Por ella é que nos conhecemos. 

— Mau espelho, meu amigo, sempre embaciado. 

— Por que? 

— Ora porque... Se o rosto fòr de um humilde, 
ainda que formoso, como o de Antinous, ficará em- 
pannado; se fôr de um patife de prestigio, mascara de 
hediondez como o doairo de Polyphemo, a feiura se 
esbaterá no baço da lisonja. A opinião publica será, 
se quizeres, uma sombra, o delineamento do perfil, 
sem o mais leve traço da physionomia. Os olhos es- 
tão mal coUocados. Deus deveria te-los posto um em 
cada mão, na palma, e a§sim, não só olhariamos o 
mundo, como nos veríamos completamente, da cabe- 
ça aos pés e até pelas costas. 

— Seria horrível! Teríamos de andar com as 
mãos adiante do corpo, como fazem os cegos quan- 
do tacteam. 



"W^ 



44 COELHO NETTO 



— A propósito dos cegos, pergunto-te. Já leste 
« O meu universo » de Helen Iveller ? 

— Não. 

— Pois lê. Não é obra de uma vidente, mas de 
uma cega e surda muda. E' o canto heróico de uma 
domado ra, ou melhor: de luna civilisadora. 

— Civilisadora... Porque? 

— Porque fez com os sentidos, que nós outros 
relegamos por inferiores, ou inúteis, o que os explo- 
radores de sertões bravios fazem com os selvagens: 
educou-os aproveitanda-lhes as qualidades e utili- 
sou-os como nós nunca imaginamos que elles pudes- 
sem ser aproveitados. Nós, em verdade, só nos servi- 
mos da vista e só a ella prestamos attenção, tanto que 
para os olhos apenas inventamos instrumentos de 
apuro, como sã.o as varias lentes de que nos servi- 
mos; com os demais sentidos pouco nos preoccu- 
pamos, ou delles até nos desinteressamos: o tacto, 
sentido das mãos; o gosto, sentido do paladar; o ol- 
facto, sentido nasal; a audição, sentido do ouvido 
nada valem e se os applicamos é com indifferença 
ou por voluptuosidade. Ha, sem duvida, quem se 
sirva de algum delles com certo carinho ou malicia. 
— Do ouvido, por exemplo, vale-se a curiosidade, que 
escuta ás portas ou o dilettaute que se delicia com a 
musica; do paladar vale-se o degustador, ou gourmet, 
que demora o bocado na ])oca para que as papillas 
lhe absorvam todo o saibo; ou o sy barita que aspira 
uma rosa, a essência de um frasco ou accende um 
pivete de sândalo para embalsamar o ambiente. São 
como senhores que se servem de escravos. Nós con- 
sideramos inferiores esses quatro sentidos, tudo para 
nós é a visão, o mais constitue um pequeno coro de 
acompanhamento. Helen Keller. cega e surda, tra- 
tou de aproveitar os sentidos que lhe restavam c tão 



A CIDADE MARAVILHOSA 45 



bem os educou que^ na treva e no silencio, não se 
deu por infeliz. São palavras da grande civilisadora: 

« Não me cabe dizer se é com os olhos ou com 
as mãos que se vê melhor, o que sei é que o mundo 
que eu vejo com os meus dedos é animado, brilhante 
e satisiaz-me. O tacto dá aos cegos innumeras cer- 
tezas agradáveis que, por não ser tal sentido nelles 
educado, não são percebidas dos videntes. Quando 
elles olham as coisas fazem-no de mãos nos bolsos 
e isso certamente concorre para que as suas observa- 
ções sejam sempre vagas, superficiaes. inexactas e, 
as mais das vezes, inúteis. » 

Os sentidos, pacientemente disciplinados pela ex- 
traordinária americana, serviam-na com a maior so- 
licitude. Assim, não era simplesmente o aroma das 
flores que lhe chegava na travessia do jardim ou du- 
rante um passeio á matta — mas todo o olor das 
plantas e da própria terra, o cheiro dos troncos resi- 
nosos, das raizes recumantes, do limo das pedras hú- 
midas, do húmus do solo, dagua e até do ar no qual 
se dif fundem todas as exhalações. 

Ao paladar não era apenas o saibo do fruto que 
lhe dava prazer, como o aroma em tudo se impregna- 
va e, assim, ella o sentia, não só no que lhe ia di- 
rectamente á boca, como por suggestão, digamos, nas 
menores coisas que apalpava, na própria respiração, 
no calor do sol, na fluência dagua : e o tacto dava-lhe 
impressões de tal modo precisas que ella tinha nos 
dedos tentaculos que a serviam como ao polvo e co- 
mo as antennas servem a certos insectos. 

E não era simplesmente a visão que ella suppria 
com o leve roçar macio dos dedos intelligentes, mas 
também a audição e de que modo? pela hyper-sensi- 
bilidade que lhe fazia de todo o corpo um órgão sub- 
tilissimo de receptividade, susceptível á mais ligeira 
vibração, como esses registradores sísmicos que ac- 

■1 Coelho Netto — A Cidade Maravilhosa. 



46 COELHO NETTO 

cusam o mais leve arripio da crosta do planeta, an- 
nunciando terremotos que abalam a terra a milhares 
de léguas. Tal era o grau de apreço em que essa des- 
herdada tinha o tacto que o maior louvor de tal 
sentido, que nós ingratamente desprezamos, foi por 
ella feito nestas palavras: 

« Se me fosse proposto por uma fada escolher 
entre o sentido do tacto e o da vista eu não consen- 
tiria em privar-me do primeiro pelo prazer que elle 
me dá com o contacto tépido e carinhoso das mãos 
humanas, as riquezas de formas, a nobreza, a pleni- 
tude que se offerecem, múltiplas, ás palmas das mi- 
nhas mãos. » 

Nós somos mono-cultores como os fazendeiros 
de café — contentamo-nos com a vista, esquecendo 
os demais sentidos, como elles deixam em abandono 
o pomar, a horta, o pascigo e a pequena lavoura tão 
necessária á vida. 

— Tudo que dizes é interessante, não ha duvida, 
mas se Helen Keller, por um milagre, recobrasse a 
luz dos olhos e visse o esplendor magnificente de 
uma alvorada no ceu e na terra, estou certo de que 
esqueceria todos os sentidos educados para pôr a 
alma nos olhos, como em janella, e gosar o espectá- 
culo maravilhoso do romper do dia. Quem não tem 
cão, caça com gato, e educar um gato para todas as 
caçadas, deixem lá! não ha de ser fácil. 

Eu também, se não visse, havia de arranjar meios 
e modos de andar pela vida catando sensações aqui 
e ali, como os cegos procuram objectos ás apalpa- 
dellas. Mas a vista, meu amigo — louvemo-la como 
a louvou S. Francisco de Assis, louvemo-la, nós que 
a possuímos, porque é mais do que um sentido, é a 
liberdade. Helen Keller falou do fundo de um cárcere 
onde, assim como Sylvio Pellico domesticou uma ara- 
nha para o acompanhar, ella domesticou sentidos. 



A CIDADE MARAVILHOSA 47 



principalmente o tacto, para communicar-se com o 
mimdo das sensações. 

— E conseguiu. 

— De longe, como se sente o mar pelo rumor 
da quebrança das ondas; como se sente a floresta 
pelo sussurro das arvores, como se beija a boca da 
mulher amada... ao telephonio. 

Mas, afinal, perdemo-nos. Sobre que falávamos 
nós quando a Senhorita Helen Keller nos veiu inter- 
romper ? 

— Sei lá! Coisa sem importância. Não me lem- 
bro. Passemos adiante. 



oio 



48 COELHO NETTO 



O POTRO E O SENDEIRO 

Sinto que começais a aborrecei-vos com os casos 
que vos conto. Um poeta meu conhecido, dizia: « Quan- 
do vires alguém bocejar, cala-te para não falares em 
vão, porque o que abre a boca diante de um narrador 
está a dar sabida á attenção ». 

Em verdade, que ha nos meus casos de interes- 
sante? nada. São factos reaes e a realidade é come- 
sinha e triste. A própria alegria, que lhe sobrenada, é 
como a espuma que ferve no rebojo da onda, ou me- 
lhor — como essas flores ephemeras que desabro- 
cham á tona dos paúes, cujas raizes se embebem em 
lodo. 

Vamos sahir para o largo, ou remontar em voo. 
Ha um mundo melhor que o nosso, igual ao Paraiso, 
ao qual nos leva aquella mesma que criou a Fé: 
a Imaginação. Vamos a elle e divertidamente. Os 
que me quizerem acompanhar, interessando-se no con- 
to, devem pôr a credulidade nos quadros da fantasia, 
como o enxadrista dispõe as pedras nos escaques do 
taboleiro. Será um jogo. Vamos, pois, á partida. E 
o velho narrador começou : 

Era uma vez mn feiticeiro que vivia em uma 
caverna fazendo o Bem para conseguir o Mal. Se fa- 
zia o Bem não era com intenção generosa de bene- 
ficiar a Humanidade, senão como meio de a attrahir 



A CIDADE MARAVILHOSA 49 

ao peccado para entregá-la, rendida, ao seu senhor, 
o Diabo. Também o pescador isca o anzol, não para 
alimentar o peixe, mas para o prender pela gula. 
O que o feiticeiro espalhava era como confeitos que, 
sob a capa de assucar, escondem a amêndoa amarga 
e, por vezes, venenosa. Assim compunha tinturas, un- 
guentos e cosméticos, com que as mulheres se al- 
ienam, untam e dão frescura e cor á cútis, rosam 
as unhas, carminam os lábios, denigrem cilios e su- 
percilios e, fomentando -ihes a vaidade, tornava-as mais 
seductoras e mais ardilosas para perderem os homens. 
O ouro sahia-lhe em barras da covanca profunda e 
tenebrosa para que os homens, cunhando-o em moe- 
das, espalhassem á rebatinha motivos de discórdia. 
A pretexto de consolação soltava de seu antro a Men- 
tira e Gom ella todos os seus sequazes, desde a líy- 
pocrisia, sempre rebuçada, até a Calumnia e, quando 
enriquecia alguém com esse só fazia centenas de 
invejosos, que eram outras tantas victimas que elle 
entregava ao Inferno. 

Ora, uma noite, achava-se o feiticeiro ás voltas 
com os seus abracalans, quando foi procurado por 
dois estrangeiros: um, velho, alquebrado e quasi cego, 
caminhando apoiado ao hombro de outro que era um 
robusto e garboso mancebo. 

Chegando-se á presença do bruxo, interrogou-os 
elle sobre o que ali os levava, e o velho disse em 
palavras tremulas: 

— Senhor, somos dois descontentes è quizera- 
mos merecer cio vosso prestigio um favor fácil, que 
outros maiores sabemos haverdes feito. E o feiticeiro, 
acocorado á beira do fogo, a mexer, com uma tibia, 
o caldeirão sortílego, que fervia borbulhantemente, or- 
denou em voz rouca: 

— Fala! E o velho falou: 

— Somos, como vedes, eu quasi um centenário 



50 COELHO NETTO 

e o meu companheiro mancebo de pouco mais de 
vinte annos. Nada do que ha na vida me é estranho 
— conheço todos os bens e todos os males, todos os 
gosos e todos os pesares, o avesso e o direito do 
que chamamos sina. Sahi da pobreza, que foi o meu 
berço, e, unicamente á custa do meu engenho, e es- 
forço, alcancei as maiores posses e puz o meu nome 
tão alto que se media quasi com o do rei. O muito 
querer, porém, perdeu-me: quiz com ambiçãx> e aven- 
turei-me ousadamente aos mais arriscados commet- 
timentos e aconteceu-me o que se dá com os alpinis- 
tas que tentam chegar aos cimos encobertos das cor- 
dilheiras: pisei em falso e o que me parecia um de- 
grau para a grandeza não era mais do que uma 
lage frágil, de gelo, a esconder o abysmo onde me 
precipitei. 

De tudo que adquiri em tempo tão prolongado 
resta-me apenas a experiência. Pudesse eu pô-la 
agora em pratica e não só restauraria toda a riqueza 
perdida como ensinaria aos homens segredos que lhes 
haviam de ser de grande utilidade. Infelizmente, po- 
rem, o corpo não me ajuda, vergado para o tumulo, 
como está, sempre a ensaiar-se em somnos para a 
Morte. 

O mancebo, robusto, como o vedes, nada produz 
de útil, porque a alma que lhe governa o corpo só 
o guia para divertimentos e prazeres mofinos. Em 
vez de aproveitar o vigor em trabalhos esbanja-o, 
desperdiça-o, estraga-o em estouvanices e, assim, tan- 
to perde em energia physica como se lhe vai desmo- 
ralisando o que de divino nelle existe. 

Se trocásseis as nossas almas (o que vos não 
será difficil, porque prodígios maiores tendes reali- 
sado), tudo ficaria bem e ajustado convenientemente. 

Minh'alma, com o que adquiriu em sciencia e 
pratica, posta em corpo novo, realisaria verdadeiros 



A CIDADE MARAVILHOSA ' 51 

milagres que me tornariam tanto como um deus entre 
os homens e a alma trefega do mancebo, encerrada 
em um corpo como o que lhe offereço, de meu, farto 
de gosos e atido á prudência, produziria como o sábio 
que foge do tumulto mundano fechando -se, para estudo 
tranquillo, entre as paredes brancas de uma cella. 

Todo o mal ou desequilíbrio da Vida resulta da 
má gerência do Destino. Quando o espirito amadu- 
rece em reflexão e sabedoria não acha forças no cor- 
po para applicar o que sabe. Assim também é raro 
que alguém consiga fazer fortuna na mocidade, sem- 
pre a riqueza chega a horas tardas, quando o favore- 
cido já se não sente capaz de aventuras e o corpo só 
lhe pede calor de lume e conforto de leito. 

Trocai as nossas almas de corpos, fazendo com 
que a minha se installe no do jovem e que a delle 
venha ficar no meu e assim equilibrareis sensata- 
mente as duas vidas, dando a cada qual aquillo de 
que carece: a uma, prudência; a outra, energia. 

Sorriu o feiticeiro e, anediando, de leve, a im- 
mensa e derramada barba, disse: 

— Pois seja como pedes. Para isso, porem, ò 
necessário que eu vos adormeça, aos dois, porque 
a operação exige tempo e vagar. Ao despertardes te- 
reis o que a ambos vos parece de bom conselho. 
Accederam os dois na proposta do feiticeiro e este 
ainda lhes disse, antes de iniciar o trabalho: 

— Ficai, porém, avisados de que o que fòr fei- 
to, como sahir ficará até a morte. Ainda que vos ar- 
rependais não me será possível desfazer a troca, 
restabelecendo as vidas como m'as confiais. 

— Não nos arrependeremos! disseram os dois, 
contentes. 

A alma do octogenário, logo que se sentiu no 
corpo do mancebo, foi tratander\de lhe experimentar 
o vigor. O corpo, porém, com o estuo do sangue, em 



-^1 



52 COELHO NETTO 



vez de attender ao que lhe impunha a experiência 
ancian, poz-se logo a caminho dos prazeres : bailes, 
banquetes, jogos e alegres noitadas de amor. E a 
pobre alma, fatigada de taes andares, desandou a 
brados, arrependida : 

— Senhor ! Senhor ! Por quem sois ! devolvei-me 
ao meu velho corpo. Não posso com o que me des- 
tes. E o feiticeiro, fazendo-se ouvir no vento: 

— Onde viste um velho domar potros? Assim 
({uizestes, ainda que avisado. Pois, meu caro, aguen- 
ta-te emquanto puderes. Pouco se aguentou que não 
cahisse nas profundas dos Infernos, onde era espe- 
rada em caldeira accesa. Por sua vez a alma trefega 
do moçx)... 

Mal se achou na carcassa do macrobio, com to- 
dos os ardores próprios da juventude, ainda que a 
encontrasse combalida, tanto lidou com ella, tanto a 
estimulou qtie a misera lá foi aos trancos, tropeçan- 
do, bamba. Pouco, porem, avançou e, horas depois 
da sabida, tombava inerte e, onde cahiu, ahi mesmo 
exhalou de si o ultimo suspiro: 

E eis a alma jovem a bradar: 

— Senhor! Senhor! o corpo que me destes tra- 
hiu-me, mal o puz em caminho logo arriou esfalfado, 
e assim como cahiu ficou. E a voz do feiticeiro pas- 
sou assoprada no vento : 

— Onde viste, mancebo, um sendeiro resistir ao 
peso de tamanha carga, como a que lhe puzeste em 
cima? Quizestes, tu e o velho tonto, tentar mna ex- 
periência e com ella só lucrou o inferno e lucrarão no 
mundo os que delia tiverem noticia, porque assim 
não haverá ridiculos de velhos a quererem figurar de 
moços nem hypocrisias de moços apparentando si- 
sudez de velhice. 

Tudo se deve fazer segundo o seu tempo e de 
accordo com elle. 



A CIDADE MARAVILHOSA 58 



HOMENS E RELÓGIOS 

Com a lente encravada na orbita o velho Borro- 
meu examinava attentamente o machinismo de um 
Patek, Filippe, quando Tibério irrompeu na officina 
bradando, desde a porta: 

— Bolas! E' demais! Tanta injustiça assim revol- 
ta, faz com que um homem perca a fé. E, com um 
gesto violento, arremessou alguma coisa ao chão, sen- 
tando-se estabanadamente em um tamborete de espar- 
to, onde, á noite, saboreava o café da amizade, com- 
mentando o noticiário dos jornaes da tarde. 

Era a sua cachacinha de noveleiro. Borromeu não 
tinha o direito de receber informações de outro e se, 
por distrahido, succedia-lhe, alguma vez, ao ouvir 
Tibério sobre qualquer novidade, affirmar com a sua 
voz pachorrenta: «Já sei» ou «Ouvi dizer», o velho- 
te encarava-o de má sombra, pallido, remordendo o 
beiço e, girando nos calcanhares, resmungava : « Se 
já sabes, melhor p'ra ti. Boa noite » ! E não havia con- 
te-lo. 

Borromeu, ainda que um caso se passasse diante 
dos seus olhos, guardava discreta reserva para não 
desgostar o amigo de tantos annos. 

Na revolta dos marinheiros, apezar de mna bala 
de fuzil lhe haver entrado em casa espatifando-lhe o 
mostrador de um dos relógios de parede, excellente 



54 COELHO NETTO 



regulador suisso, quando Tibério lhe appareceu na 
officina, esbaforido, communicando-lhe a mashorca e 
a disposição em que estava João Cândido de varrer 
a cidade a metralha, e as providencias que tomara 
o governo para dominar o rebellado, fez-se alheio a 
tudo, dando mostras de espanto ao ouvir a narração 
que, com exaggero, lhe fazia o amigo, descrevendo 
a mortandade eJo pânico em que a população aba- 
lava espavorida, acossada pelo tiroteio. 

Tibério, porém, comprehendeu que o relojoeiro 
fingia ignorância para agradá-lo, e avançando, em 
impillso de gratidão, estendeu-lhe commoviclamente a 
mão/ agradecendo a grande prova de estima que lhe 
dava, affectando ignorar o que o canhoneio propalava 
a estrondos, desde a orla das praias até os mais re- 
motos subúrbios. 

— Obrigado, meu velho. Agora convenço-me de 
qáe és verdadeiramente meu amigo. Olha que é pre- 
ciso mesmo que o sejas para dizeres que não sabes 
que estamos de baixo do fogo dos dreadnoughts. Dá 
cá um abraço. Dando, porém, com o relógio, cujo 
mostrador fora reduzido a escassilhos, perguntou: 

— ■ Que foi aquillo? O relojoeiro esteve por um 
tirte a dizer a verdade, mas conteve-se, respondendo: 

— Homem, Tibério, se queres que fale com fran- 
queza, acho que foi alguma bala que se perdeu aqui 
na officina. Eu estava a trabalhar quando ouvi um 
estardalhaço. Não dei importância ao caso e conti- 
nuei na minha tarefa. Agora, porém, com o que me 
dizes, quero crer que tenha sido alguma bala. Os 
olhos de Tibério encheram-se de lagrimas. Grande 
amigo! Nessa tarde, porem, com aquella entra.da de 
furacão, levantando a cabeça e desentalando a lente 
da orbita, Borromeu encarou o amigo com verdadeiro 
espanto : 

— Que é isso, homem? Que te aconteceu? 



A CIDADE MARAVILHOSA 55 

— Que me aconteceu?! Ainda perguntas...! Es- 
tou até aqui, e agadanhou o gasnete. E' demais! Ou- 
ve e dize-me se tentio ou não motivo de sobra para 
revoltar-me, até para mudar de religião. Tanta injus- 
tiça assim dóe! Não sei que má sorte me persegue. 
Sou um homem de bem, religioso, incapaz de pra- 
ticar um acto de que venha a ter remorso. Uma vez 
resolvi confessar-me... Pois, meu amigo, fui á igreja, 
ajoelhei-me diante do Padre e, para não fazer fi- 
gura triste, inventei uns peccados, porque no activo 
da minha consciência não achei coisa que valesse a 
pena referir. Pois, com tudo isso, sou o mais in- 
feliz dos infelizes. Tudo me sahe ás avessas, e pa- 
tifes que conheço, patifes rematados, réus de policia 
egressos da cadeia, assassinos, larápios, calumnia- 
dores, maus filhos, esposos infames, pais indignos es- 
tão ahi a subir como balões, enriquecendo não se 
sabe como, impando importância, falando grosso, gran- 
des senhores, e se tentam um negocio é contar na 
certa com o êxito e ainda com sobras para os parentes 
e jóias para as amantes. Eu estou á espera de uma 
vaga no quadro dos fiscaes do imposto de consumo 
desde a criação de taes cargos: comprei não sei quan- 
tos milhões de marcos e tu sabes em que deram os 
taes papeis; metti-me ahi em um negocio de cambio 
e perdi até o geito de andar; tentei o bicho e só acer- 
tei naquelle que apanhei no pé, no pique-nique que 
fizemos em Paquetá. Na loteria é o que se vê. Tens 
ali a prova. E mostrou, com desprezo, o papelucho 
que atirara amarfanhado ao chão. E' o 3941, sahiu 
branco. Pois o 1493 tirou os quinhentos contos. 

— Mas não comprehendo, Tibério. Que tem o 
3941 com o 1493? 

— Que tem? Pois não vês? E' o meu numero 
ás avessas. Que é isso? Se a coisa tivesse corrido 
direita a esta hora eu seria meio millionario e asso- 



56 COELHO NF.TTO 



ciar-me-ia comtigo, não nesta baiúca de cacaracá, 
mas em uma grande relojoaria na Avenida. Não es- 
tá certo. Deus não é justo, dando a uns tudo e dei- 
xando outros em petição de miséria. Não comprehen- 
do taes preferencias. 

— Não blasphemes, Tibério. Deus não tem culpa 
do que se passa cá embaixo. Elle cria os homens, o 
mais é com elles. Isso de sorte, meu amigo, é como 
machinismo de relógios. Olha ahi para essas paredes 
e aqui para o mostrador do balcão. Tens vários ty- 
pos de relógios, alguns de excellentes marcas, das 
mais reputadas fabricas que, entretanto, não valem 
um caracol. São muitos, eu acerto-os de manhan, pois 
ao meio dia já não estão de accordo: uns adiantam- 
se, outros atrazam-se; param alguns, emperram ás 
vezes, até desandam. E queres saber? o que melhor 
regula é um despertador vagabundo, um alcaide pelo 
qual ninguém dará cinco mil réis. E' assim, meu 
amigo. 

O relojoeiro não tem culpa do que se dá com os 
relógios. Os machinismos têm todos as mesmas pe- 
ças, montadas na mesma ordem, entretanto uns são 
excellentes, outros são pinoias, como este Patekque 
aqui vês, incrustado de brilhantes e rubis, que eu 
já desanimei de corrigir. E' uma jóia, mas não re- 
gula, e a minha cebola de latão é o que sabes. De 
quem a culpa? do relojoeiro? do machinismo? sa- 
be-se lá! de um mysterio qualquer que, se fosse em 
homem, chamariamos sorte, mas como é em relógio 
chamamos-lhe defeito. Eu, se fosse o marido da do- 
na deste Patek, que não me sahe da officina, já o 
teria vendido, apezar de todas as pedras preciosas e 
do lindo cinzelamerito que o adornam. E's um ho- 
mem virtuoso, mas... estás nas condições desta espi- 
ga, que eu não troco pela cebola de latão que achas 
ridícula. Os homens são como os relógios, Tibério: 



A CIDADE MARAVILHOSA 57 

todos da mesma fabrica, uns bons, outros maus; uns 
felizes, outros infelizes. A culpa não é do fabricante, 
é de não sei que... Mas isso que importa se o Tempo 
passa com a mesma indifferença tanto sobre o que 
se atraza como sobre o que se adianta. E's um ho- 
mem virtuoso, como esse Patek é uma jóia de preço, 
mas, como elle, não regulas. E' isso. Mas vamos a 
saber: Que ha de novo? Tibério, porem, que ainda 
não lera os jornaes da tarde, depois de passear os 
olhos pelos relógios de parede, todos em desaccordo, 
uns adiantados, outros em atrazo, e o maior mazor- 
ramente parado, respondeu resmungão: 

— Tudo velho, Borromeu. 

— Grande verdade, meu amigo. Tudo velho, co- 
mo nós, ou melhor, como a vida. 

— Como a vida, não, Borromeu. A vida, quanto 
mais envelhece, mais se renova. Nós passamos, ella 
f i ca . 

— E' o relógio, Tibério, e nós somos as horas. 

— Falas como relojoeiro. 

— E como queres que fale senão em linguagem 
do meu officio? Só entendo de relógios, e delles 
tiro o pão e a minha philosophia de algibeira. 



c^ 



58 COELHO NETTO 



CORAÇÃO DE OURO 

Ouvindo o suspirar plangente de Isolina, que re- 
colhia a roupa do coradouro de lapedo, na raiz da 
pedreira, ao fundo do cortiço, Dyonisia, que deixara 
o tanque e caminhava muito rebolida, raspando va- 
garosamente a espuma dos braços entroncados, re- 
prehendeu-a com a sua voz marimacha, sempre soan- 
do a mau humor: 

— Está a senhora alii a agourar o homem. Dei- 
xe-o lá, criatura! Isso de mais hora, menos hora não 
quer dizer nada. Elles, lá de vez em quando, tiram 
os seus dias forros. E' natural. Quem trabalha pre- 
cisa divertir-se. O meu — e é um homeiji de peso, 
graças a Deus ! — ás duas por três perde a medida e 
apparece-me em tal estado que eu até tenho vergonha 
do pequeno. Já uma vez andou por ahi a bater de 
casa em casa sem atinar com a porta. Foi preciso 
que eu o fosse buscar e quasi o trouxesse em bra- 
ços para não ficar ao tempo, estendido na lama, entre 
as carroças. Pensa que me zango com taes farras? 
Acho-lhes até graça, palavra. Rio-me de o ver baboso, 
a tropeçar nas cadeiras, muito delambido commigo. 
E' para o que lhe dá. Santo nenhum delles é. Cada 
qual tem lá o seu fraco — este é a pinga ; aquelle 
é a sota. Peior é quando elles dão para andar por ahi 
atraz de rabos de saia. Isso sim! Isso é que é des- 



A CIDADE MARAVILHOSA 59 



graça! A mim tanto se me dá como se me deu. Pinte 
á vontade, comtanto que não me falte com o neces- 
sário, a mim e ao pequeno, o mais... Quer que lhe 
diga? elles, quanto mais aperreados, peior. Então é 
que viram duma vez. Deixe-o. Não se esteja ahi a 
amofinar. Quando lhe apertar a saudade, que é como 
uma fome do coração, elle voltará, tão certo como 
estarmos aqui e Deus no ceu. 

— Mas a senhora pensa que é ciúme, s'a Dyo- 
nysia ? 

— E não é? Ora morda-me aqui, e estendeu- 
Ihe o indicador. Também eu já tive disso. Dor de 
canella, e da bôa! 

— Não é. Juro por Deus! 

— Então que é? 

— Medo, s'á Dionysia. E' medo. 

— Medo!? Medo de que, criatura? Está tudo so- 
cegado. Não se fala mais em prisões. Medo de que? 

— Ha tanta maldade neste mundo, s'a Dionysia... 
Tanta! Depois... a senhora não vê? são desastres to- 
dos os dias, uns atraz dos outros, crimes... Eu, ou- 
tro dia, já não gostei de achar a camisa delle man- 
chada de sangue. Perguntei se tinha se machucado, 
se havia brigado. Nada! E' um homem exquisito co- 
mo a senhora não imagina. Por mais que eu lide 
para lhe arrancar uma palavra, é escusado: não fala. 

— São burros. E' como o meu. Mette-se a um 
canto a pensar, a matutar e acabou-se. A's vezes 
nem janta. Burros! 

— Não. Em Manoelzinho é tristeza, tristeza á 
tôa, não sei. Porque, não é por falar, mas se a se- 
nhora quer ver uma criatura de bom coração é aquel- 
la. E' capaz de tirar a camisa do corpo para dar a 
mn pobre. Mas também génio. Nossa Senhora!... gé- 
nio é ali! Porque é que eu evito sahir com elle? 



60 COELHO NETTO 

Qneima-se com qualquer coisa. D'isso é que eu tenho 
medo. Uma vez, quando morávamos no Pedregulho, 
só porque, uma noite, num mafuâ, um moço boliu 
commigo... a senhora não imagina! Foi um tal tem- 
po quente que eu não sei mesmo como não fomos 
parar na Policia. E' uma fúria! Isso é que me dá 
que pensar, o mais, não. Ciúme de mulher... En- 
colheu os hombros esticando o beiço em gesto de 
desprezo. Depois o serviço delle sempre de noite, 
até as tantas... Sei lá! Só peço a Deus que tenha 
pena de mim. 

— Elle é da Policia, não? perguntou Dionysia 
com mysterio. 

— Olhe, s'a Dionysia, para falar verdade, eu mes- 
ma não sei. Acho que é. Mas como eu lhe disse — 
elle não fala. Chega sempre de madrugada, ás vezes 
já com o sol fora, cançado que faz pena; toma uma 
chicara de café, que elle mesmo faz na machina, dei- 
ta-se e é um somno de pedra. Quando acorda vai lo- 
go brincar com o filho. E' doido por elle. De dia sabe 
pouco. Aqui fora mesmo é raro apparecer. Não se 
dá com vizinhos, sempre mettido comsigo. Amigos... 
que eu conheça só um, Tito. Esse mesmo ha muito 
que não apparece. Acho que foi p'ra fora. 

— E para a senhora? 

— Para mim ? Olhe, eu lhe digo — eu não podia 
encontrar homem melhor. Nisso não tenho inveja de 
ninguém. Fui casada, como a senhora sabe, nunca 
tive razão de queixa de meu marido — homem serio, 
trabalhador, mas felicidade, felicidade eu vim conhe- 
cer na companhia de Manoelzinho. Nunca teve um 
mau modo, uma palavra pesada; não é homem de 
beijos nem de abraços, isso não é, mas é o que eu 
quero, custe o que custar. Se eu trabalho^ acredite, 
é contra a vontade delle. Mas eu não sei estar á tôa, 
com uma mão atraz, outra adiante. Hei de fazer sem- 



A CIDADE MARAVILHOSA 61 



pre alguma coisa. E' assim. Tão bom, pôde haver. 
Melhor, duvido. 

— Então porque ha de estar a senhora ahi ima- 
ginando coisas? Deixe lá o homem. 

— Se eu lhe contasse os sonhos que tenlio tido 
ultimamente... 

— Sonhos... e a senhora dá importância a so- 
nhos? Sonhos são brincadeiras do somno. Se eu me 
fiasse em sonhos estava arranjada. 

Escurecia. Rolos de nuvens cor de chumbo soto- 
punham-se no ceu como fumarada de incêndio que 
viesse vindo de traz do monte. Um calor de fornalha 
subia da terja secca. Começou a soprar uma bafa- 
gem morna. De repente foi um bater estrondoso de 
portas e janellas, fraldejar de roupas nas cordas, tor- 
velinhos de folhas seccas e papeis; a poeirada es- 
pessa. Palmas de coqueiros vinham pelos ares como 
pennas de aves gigantescas. Surdos, trove jantes ru- 
mores precediam a tempestade annunciada pelo ca- 
lor estuante do dia de uma luz amarella de fogueira. 

Carroças entravam aos tropellões solavancando 
na buraqueira do pateo, esbarrando' em calhaus ro- 
lados da pedreira escalavrada. Tendas de canteiros, 
soltando-se dos pegões que as prendiam ao solo, tra- 
pejavam estaladamente com a fúria da ventania. 

As lavadeiras corriam em alvoroço retirando as 
roupas das cordas, recolhendo-as do coradouro. Acu- 
diam crianças de todos os lados como aves acossadas 
demandando os ninhos. E entravam ambulantes ca- 
minhando a trote sacolejado — quitandeiros com os 
cestos averdurados, peixeiros e operários. Era con- 
tinuo o taroucar de tamancos e, com o grasinar do 
falario assustado, misturava-se o latido alegre da ca- 
inçalha que parecia divertir-se com a espavorida bal- 
búrdia. 

5 Coelho Netto — A Cidade Maravilhosa. 



02 COELHO NETTO 



Burros soltos espojavam-se na poeirada ou reu- 
niam -se em volta do bebedouro. Relâmpagos fremiam, 
lividos. Appareciam mulheres ás portas das casas an- 
siosas pelos maridos e os trovões aproximavam-se 
soturnos; coriscos laivavam o bruno do ceu. 

Isolina e Dionysia desciam juntas equilibrando 
á cabeça trouxas de roupa, quando um velho qui- 
tandeiro, que estivera á porta conversando muito 
afreimado, ao ver Isolina estacou surpreso. Tirou o 
cachimbo da boca e ficou-se a olhar franzindo, des- 
franzindo o rosto em esgares. De repente, como se 
respondesse a uma pergunta, curvando-se diante de 
Isolina, atirou-lhe como um escarro á face: 

— Foi preso... Eh! Preso! 

— Quem? perguntou Dionysia intrigada. O ve- 
lho sacudiu a cabeça arremettendo de queixo, como 
em esporada a Isolina. Então, arriando os cestos, 
afastou a tampa de um delles, desatafulhou um jor- 
nal amarfanhado e, abrindo-o, mostrou-lhe na pri- 
meira pagina, entre extensos dizeres em grandes le- 
tras negras, o retrato do amante e, em baixo, uma 
mulher de borco aos pés de uma cama revolta. 

Isolina estremeceu reconhecendo Manoelzinho e, 
no arrebatamento com que se precipitou, arrancando 
o jornal ás mãos do velho, a trouxa tombou-lhe da 
cabeça rolando em um lameiro. 

Chegando muito aos olhos a folha, tremia boqui- 
aberta encarada na gravura, no seu « homem » esgar- 
galado, de catadura feroz, como o vira na scena do 
mafm, tal qual. Súbito, levando ás mãos á cabeça, 
a apertá-la, a sacudi-la desesperadamente, rompeu em 
pranto e, dirigindo-se a Dionysia, que se estatelara 
em espanto, recordou-lhe : 

— Eu não lhe disse que estava com medo dos 
meus sonhos? Não disse? Está ahi! Mataram o meu 
pobre Manoel! Mataram Manoelzinho! Coitado! Um 



A CIDADE MARAVILHOSA 63 



homem tão bom, que não fazia mal a ninguém!... 
Sentindo a indignação de todo o cortiço, Dionysia 
afastou-se sorrateiramente, aprov€itando-se da angus- 
tia da companheira e, ganhando distancia, apressou o 
andar rebolido, a fugir, com as saias em revoluteio 
ás lufadas do vendaval. 

Ouvindo-a em taes exclamações o quitandeiro 
olhava em volta, airado, como á procura de alguém. 
Apezar da ameaça do tempo gente apinhava-se em 
grupos commentando o caso. Crianças corriam com 
a noticia, apontando Isolina que se lastimava, interro- 
gava o velho agarrando -se -lhe aos braços em frenesi. 

— Mas porque foi? Diga, pelo amor de Deus! 
Porque foi que o mataram? O velho, então, com um 
riso idiota no carão moreno, rilhado a traços que se 
vincavam a mais e mais, desabafou: 

— Não... E com o grosso dedo sujo, de unha ne- 
gra, mostrou os titulos, a figura trágica da mulher 
tombada numa poça de sangue, junto á cama. E 
disse: EUa, não. Foi elle que matou... e é o matador 
de mulheres. Não está vendo ahi? Elle está preso. 
Confessou tudo. Essa foi a terceira. Era russa, d'es- 
sas... Elle está preso. Isolina olhava estarrecida, sem 
comprehender o que ouvia: 

— Manoelzinho?... Matar? Não! Digam o que dis- 
serem. Não acredito. E logo uma mulher. Ainda se 
fosse em briga... Não! Manoelzinho, não. 

Grossas gotas apedrejaram o solo. Uma muralha 
baça avançava com um surdo rufo. O quitandeiro 
agachou-se, tomou aos hcímbros o pau de carrego e 
foi-se a trote, sacolejando as cestas. E a chuva des- 
abou torrencial, com estrondo. E dentro do ambiente 
fosco, esfusiado a relâmpagos, Isolina bradava des- 
norteada, sem sentir a tempestade que a zurzia a 
vergaUiadas dagua, cada vez mais rispida, trovejaria 
estrondosamente a detonações de raios. 



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•■ »*:#. 



64 COELHO NÉTTO 



CONSPIRAÇÃO 

— Não sei de conspiração mais ardilosamente 
urdida do que essa de que foi victima, e ainda o é, 
o pobre velho. Um novo Lear e mais assediado do 
que o outro, porque, se não tem os genros, tem' a mu- 
lher, a filha e um médium. 

— A mulher conheço eu: é uma espécie de wal- 
kiria com cabeça de Medusa. 

— Qual walkiria! Não injuries as amazonas aé- 
reas — é uma virago horrenda, bruxa de quimbandes, 
sempre com mandingueiros, frequentando candomblés 
suburbanos e pagelanças ahi por esses morros. De 
uns tempos a esta parte metteu-se a espirita e cele- 
bra sessões em casa, não por fé, mas com o fim 
único de dar cabo do que resta de juizo na cabeça 
do marido, se é que ainda ha vislumbre de razão 
naquella cachola avariada. Porque me olhas assim 
espantado ? 

— Pois tu! exclamou Viveiros cruzando os bra- 
ços e encarando Máximo com ar de assombro. Tu, 
falando contra o espiritismo! 

— Perdão, eu não falo contra o espiritismo. De 
resto, mais uma vez o digo, e não cessarei de o repe- 
tir: os que me tomam por espirita enganam-se. Eu 
sou o que sempre me inculquei — um curioso que 
ronda uma cidade mysteriosa, de altas muralhas, den- 



* ' A CIDADE MARAVILHOSA 65 



tro das quaes ha uma população como a do paiz cim- 
merio. E' uma Troya. 

— A' espera de um Ulysses com um cavallo 
de pau. 

— Não, á espera de um predestinado que des- 
cubra a chave do arcano para abrir a porta que 
nos separa da outra Vida. 

— E tu ainda não encontraste brecha ou fenda 
nas muralhas por onde, ao menos, espiasses o que 
se passa dentro de tal cidade? 

— Não, Sinto entretanto, que ha nella vida. 

— Vida ha em tudo, meu amigo. Os cadáveres, 
quando apodrecem, refervem em vermes: vidas que 
sahem da morte. A matéria reproduz-se por trans- 
formações successivas. O homem é larva. 

— Larva, dizes bem. A borboleta é a alma: Psv- 
ché. Mas deixemo-nos de philosophia de algibeira. 
Vamos ao caso do commendador Marcello. Viste-o? 

— Creio que sim. E' um jagodes achaparrado, 
calvo, com uma beicola trombuda que lhe dá o as- 
pecto de um botocudo, olhos de carneiro morto... 

— Imbecilisado. E' esse mesmo. Pois foi um ho- 
mem! digo-t'o eu; uma das figuras de maior realce 
do nosso commercio. A primeira firma em ferragens 
e tintas. Está reduzido ao que viste: um frangalho 
que trambolha pela casa, servindo de joguete á fa- 
mília e a um tal Fabiano, que se diz médium, refi- 
nadíssimo patife, que já devia estar numa cella cor- 
reccional. Anda por ahi a policia á caça dos vende- 
dores de cocaína, ópio, diamba, ether e outras drogas, 
e deixa livres esses envenenadores d'almas e profa- 
nadores de uma sciencia que começa a surgir e que 
será a grande Verdade em dias próximos, a « Bôa 
Nova» esperada pela Humanidade. Os que se inte- 
ressam sinceramente pela metapsychica não podem 



66 COELHO NETTO 



aceitar as praticas de que se servem os mystifica- 
dores, que são hoje legião. Fabiano é um dos taes 
que vivem á custa da ingenuidade dos simples, il- 
ludindo-os com passes e fantasmagorias, invocações 
de mortos, prodígios que só podem ser tomados a 
serio pelos papalvos que lhe frequentam a casa que, 
segundo affirmam, é uma verdadeira gruta de necro- 
mancia, como a caverna de Endor. Fabiano foi o ins- 
trumento de que se serviram as duas criminosas 
mulheres para reduzir o commendador ao estado em 
que o viste. E como? de um modo que seria cómi- 
co se não fosse horrivelmente trágico. Contou-me a 
lúgubre historia o Estevão, meu actual chauffeur, que 
foi criado do commendador. Despediram-no porque 
o rapaz, que estimava o velhote, um dia revoltou-se 
contra a tortura que lhe infligiam e, como o tal 
médium lhe sahisse com arrogâncias, respondeu-lhe 
com um par de taponas que o deixaram de cara á 
banda. Eis o caso tal como me foi contado. As duas 
mulheres, irritadas com a sovinice do velho, que 
trazia sempre o seu dinheiro bem contado, resolveram 
domá-lo e puzeram-se a estudar o melhor meio de o 
fazer até que lhe descobriram o fraco e entraram por 
elle a fundo. 

Arredado do negocio, mas com o habito da or- 
dem, o homemzinho ás seis da manhan já andava 
pela casa, a ver uma coisa e outra, a arrumar gave- 
tas, a arrolar papeis, pondo cada objecto em seu lu- 
gar e ninguém lhes tocasse, que isso o fazia dar por 
paus e por pedras. Se lhe desapparecia qualquer 
coisa vinha o mundo abaixo e, emquanto não davam 
com o objecto não havia descanço em casa — era a 
familia, eram os criados, tudo em alvoroço por uma 
tesoura de unhas, lun lápis, uma carta antiga, uma 
simples nota, fosse lá o que fosse. Pois foi por essa 
mania que entraram os conspiradores. 



A CIDADE MARAVILHOSA 67 

Começaram a sumir objectos — um hoje, outro 
amanhan... e o velho pelos cabellos. Um dia desap- 
pareceu-lhe uma espátula de tartaruga, espátula com 
que, momentos antes, elle abrira uma carta. Escusado 
é dizer que a casa foi revirada canto por canto, mo- 
vei por movei. O que houve não me disse o Estevão, 
mas é fácil adivinhar — suggestão das mulheres, pre- 
paro hábil da alma do pobre velho para a traça do 
intrujão. 

Na noite seguinte lá foi elle para a primeira 
sessão, a portas fechadas. E a espátula appareceu 
em um canteiro do jardim. Depois da espátula foi 
uma serie de coisas e o médium fez-se da casa, fi- 
cou como empregado, com obrigação de receber bons 
espíritos que indicavam os sitios onde os obses- 
sores occultavam os objectos. O que, com taes mano- 
bras, elle perdeu e nunca mais achou, nem achará, 
foi o juizo. Lá está como o viste — uma sombra a 
errar pela casa, enxotando espirites, seguido sempre 
do médium, que o defende dos taes obsessores. E 
lá anda elle a procurar coisas perdidas, e o médium 
a engordar, a encher-se de dinheiro, emquanto as 
duas mulheres, que compraram um layidaulet, vão a 
tudo ení grande luxo — a chás, a espectáculos, cor- 
ridas, jogos, gastando a mãos rotas o que o velho 
ajuntou em quarenta annos de trabalho pertinaz. E 
elle, o coitado, não come, não dorme, não pára, sem- 
pre pela casa resmungando, coscovilhando, a procurar 
coisas imaginarias que os taes obsessores (a mulher 
e a filha, já se vê) escondem e o que o médium, 
com os seus auxiliares do Além, logo descobre. 

Que merece tal sucia? E é assim que se mata 
uma sciencia no nascedouro, como se pisa e acalca- 
nha um rebento mal sabido do gérmen. 

Não me insurjo contra o espiritismo, ou meta- 
psychismo, que é uma pesquiza honesta, revolto-me. 



68 COELHO NETTO 



sim, € protesto contra os que o exploram, contra os 
profitentes, que os ha em todas as seitas, em todas 
as religiões como ha parasitas nas arvores mais fortes. 

— E são os únicos que lucram em tudo isso. 

— Os únicos, não! A melhor parte será sempre 
a dos honestos. Nem todos são da laia daquelle Fa- 
biano e daquellas mulheres. Phariseus ha-os em to- 
da a parte... Mas vamos ao nosso chá. São horas. 



o|o 



A CIDADE MARAVILHOSA 69 



A' HORA DO «RADIO » 

O que impressionava naquelle homem não eram 
propriamente as palavras, mas o tom, a serenidade 
com que elle as pronunciava vagarosamente, forman- 
do as phrases como um enxadrista meditado dispõe 
com segurança calculada as pedras no taboleiro. 

Quando elle começou a falar fez-se-lhe em vol- 
ta um silencio religioso. As próprias senhoras, que 
sempre cochicham e acham motivos para sorrir, aco- 
tovellar-se á socapa, trocar olhares críticos, ainda 
no discorrer dos mais graves assumptos, mantinham- 
se quietas, attentas como se ouvissem um oráculo. E 
elle dizia: 

— Duas causas concorrem para a desordem que, 
de uns tempos para cá, observamos no mundo e 
na vida — uma physica, outra espiritual. Estamos as- 
sistindo a um combate comparável ao que, segundo 
a mythologia, provocaram os titans, filhos da Terra, 
contra Zeus e o Olympo e os povos bíblicos com a 
desmedida mole com que pretenderam chegar ao ceu. 

Sabe-se o que aconteceu aos gigantes e aos ho- 
mens — uns foram fulminados a raios, ficando so- 
terrados sob as próprias montanhas que escalonavam; 
aos outros, confundiu o Senhor as linguas, de modo 
que, por se não entenderem, tiveram de suspender 



70 COELHO NETTO 



a obra de tanta arrogância. Como havemos nós de 
explicar essa serie continua de cataclysmos que amea- 
çam subverter o mundo — cyclones, terremotos, en- 
chentes de rios, erupções vulcânicas, descidas de ge- 
los polares, quedas de aludes, que sei eu! senão 
como represália dos poderes divinos contra o que 
o homem está realisando, cada vez com mais audá- 
cia? Os oceanos, dantes apenas aflorados na super- 
fície ou, quando muito, penetrados por mergulhadores 
em demanda de pérolas, são agora varejados nas 
suas profundidades obscuras por submarinos. O espaço 
tornou-se accessivel ao homem, que por elle anda 
como o pássaro e a nuvem. As forças occultas da 
natureza são hoje conquistas servis que executam 
docilmente tudo que delias se exige. A atmosphera 
presta-se a conduzir o som, as palavras. 

Hermes, o antigo, mensageiro dos deuses, com 
azas no galero e no calcaneo, faria tristíssima fi- 
gura, com o seu caduceu, se tentasse disputar velo- 
cidade com as antennas transmissoras. Os sons tran- 
sitam de um paiz a outro com a celeridade do pen- 
samento — os antípodas podem conversar ou fazer 
ouvir os seus cantares e musicas como o fazem, no 
campo, pastores em malhada, reunidos em volta de 
uma fogueira. 

Ora, meus amigos, a Natureza reage contra os 
que a violam. Isis não consente que se lhe arranque 
o veu da face e os que tentam tal profanação pagam 
caro o atrevimento. 

Se os mortos millenares se rebellam contra os 
que invadem os hypogeus, onde jazem, como vimos 
com os que trouxeram da escuridão ao sol a múmia 
de Tut-Ank-Amon, quanto mais as forças vivas, as 
forças eternas que nos cercam, servindo-nos, mas li- 
vremente, mysteriosamente e não escravisadas como 
as queremos ter. 



A CIDADE MARAVILHOSA 71 

Até onde pretende levar o homem a sua audácia? 
Pelas minas desce elle ás mais profundas entranhas 
tia terra, abysma-se nos mares, eleva-se em vôo ao 
ether e já cuida em traçar roteiro para communi- 
car-se com os planetas, seguramente com o plano 
interesseiro de os conquistar, senão como presa, ao 
menos para nelles criar mercados e implantar os 
seus costumes e hábitos, estragando-os de uma vez. 
Pois essas catastrophes, que abalam o nosso velho 
mundo, para mim não são outra coisa senão re- 
voltas da Natureza que reproduz vingança, como as 
tomaram Zeus e lahvé, nos tempos primitivos, con- 
tra os hecatonchiroiS' e os filhos de Cain. 

O homem não se contenta com o que teve, por- 
que não consta que Deus lhe houvesse dado direito 
sobre toda a creação, limitando o dote ao Paraiso e 
ao que no mesmo se continha. O homem está que- 
rendo mais do que deve e, para obter o que a ambi- 
ção lhe suggere, furta a Deus, como pretendia fazer 
com o fogo o que foi agrilhoado no monte, deixando, 
todavia, o exemplo da sua insubordinação temerária 
para que os homens o imitassem, como o estão imi- 
tando. 

A terra, o ar, as aguas estão impregnados de 
fluidos, fluidos que foram attrahidos ao nosso habitat 
e que, dentro em pouco, tornarão o mundo inhabi- 
tavel. 

Não ha muito revoltamo-nos contra a cadeira 
eléctrica, na qual a Justiça yankee assentou três con- 
demnados, e estamos preparando um ambiente ele- 
ctrisado para viver até que um curto circuito, ou 
outro destempero qualquer, dê com tudo isto em pan- 
tána. E será a victoria da Natureza. 

— Acha o senhor, então, que estamos arriscados 
a desapparecer? 



72 COELHO NETTO 



— Tão certo como nos acharmos aqui no mais 
elegante e civilisado salão do Rio, atordoados pela 
vitrola do vizinho, emquanto o Sallustio prepara o 
radio para ouvirmos o concerto que hoje realisa, em 
Nova York, a nossa Guiomar Novaes. 

Houve um instante de silencio em que todos pa- 
receram recolher-se meditando as trágicas palavras 
do homem impassível. A vitrola do vizinho atroava 
tá noite com a voz posthuma de Caruso. 

Por fim uma das senhoras perguntou: 

— E a outra causa, a espiritual, que concorre 
para a desordem da vida? 

— Ah! sim... a grande guerra. Li, não sei onde, 
um commentario que me impressionou profundamen- 
te. E eu não sou dos que se impressionam com qual- 
quer coisa. 

Como sabem, contam-se por alguns milhões os 
combatentes que pereceram na guerra. Os espíritos, 
ou almas de taes heroes, espalharam-se no espaço 
como se dispersam, attonitas, as abelhas quando lhes 
crestam o cortiço. E esses enxames d'almas, partidas 
antes de haverem completado o seu destino na vi- 
da, almas violentadas pela morte, erram, vagueam 
atordoadas, procurando pouso onde assentem para 
cumprir a genitura que traziam. Que resulta de ta- 
manho desbarato, de tamanha confusão? resulta o 
que vemos: a desordem moral no mundo. 

Como pôde haver calma onde esvoaça toda uma 
v^espeira? Como pôde haver tranquillidade em um 
ambiente alvoroçado de espirites? 

E até que todos assentem, reentrando em novos 
corpos, resurgindo em novas vidas, reencarnando-so, 
digamos, o mundo ha de resentir-se da tumultuosa 
confusão e sô repousará com o Renascimento ou 
volta á vida dos que delia partiram de surpresa, 



A CIDADE MARAVILHOSA 73 



expulsos antes de haverem realisado a missão em 
que haviam baixado. 

Assim se explica o que vemos, o que soffremos, 
o torvelinho em que nos atordoamos, o cháos em que 
nos debatemos, as crises que deflagram aqui, ali, alhu- 
res atormentando o Homem com os males da fome, 
do frio, das enfermidades, da desharmonia e com o 
desvairo. 

— E não lhe parece que também concorrem para 
esses males a cocaina, a morphina...? 

— O cinema, resmungou uma matrona enfe- 
sada... 

Felizmente Sallustio interrompeu a palestra an- 
nunciando que o radio estava prompto e em com- 
municação com o Metropolitano de Nova York, onde 
Guiomar Novaes realisava o seu primeiro concerto 
(la estacão. 



o|o 



\ 



74 COELHO NETTO 



O príncipe leproso 

Dos soberanos da terra, o mais feliz entre os fe- 
lizes, era, sem duvida, o do reino dos Arómatas, paiz 
de tão ameno clima e de tanta fertilidade que todas 
as producções, desde as que pedem ardência de sol, 
e só medram nos trópicos, até as que exigem o rigor 
mais áspero das neves eternas, nelle eram em tal 
abundância que os seus portos estavam sempre atra- 
vancados de navios, carregando para todas as partes 
do mundo cereaes e ouro, frutos e rebanhos, le- 
rilios de aroma, essências e ainda pérolas que mer- 
gulhadores traziam do fundo do mar, gemmas ex- 
trahidas das rochas ou tomadas nas areias dos rios e 
sedas e tapeçarias em que eram eximios os seus ar- 
tistas. 

A numerosa esquadra e o exercito de dois mi- 
lhões de guerreiros garantiam a paz do reino, man- 
tendo á distancia os que o olhavam cubiçosamente. 
Não havia esse, ainda o mais humilde, que se quei- 
xasse de penúria, porque, na abundância, as obras 
eram tantas que o dá-las de mão a mão era tão 
natural como o transbordo dos rios nas cheias do 
inverno. 

Não eram, porém, taes riquezas que attrahiam 
para o reino a attenção do mundo, senão o que se 
dizia da belleza do príncipe herdeiro. 



A CIDADE MARAVILHOSA <0 



Aos seis aiinos taes eram nelle os encantos, que 
vinham forasteiros de além mar, affrontando perigos 
(!e escolhos e tormentas, para terem o prazer de o 
ver e admirar quando, de manhan e á tarde, para 
alegria do povo, elle apparecia entre alas e pagens, 
no alto terraço do palácio. 

E tamanha era a impressão que de tal vista leva- 
vam que iam pelo mundo espalhando louvores á bel- 
leza do príncipe maravilhoso. 

Um dia, porem, ao entrar na camará em que 
elle dormia, e ao tomá-lo nos braços para beijá-lo, 
a rainha descobriu-lhe nas faces estranhas manchas 
vermelhas, como duas rosas que nellas houvessem 
nascido. 

Duas rosas!... Os deuses ciumentos, sentindo que 
o príncipe lhes prejudicava o culto, porque o povo, 
em vez de ir aos templos, accorria ás immediações 
do palácio, resolveram destruir a obra perfeita, em 
que tanto se haviam esmerado para premiar a vir- 
tude dos reis, que eram justos e generosos. E o prín- 
cipe, de um dia para outro, todo se cobriu de uma 
crosta asquerosa, tornando-se quasi negro e inchado, 
ficando-lhe o corpo como o de um afogado que se 
retira dentre os luridos juncaes de um lago: roxo, 
túmido e picado dos peixes. Era a lepra. 

Desde então a alegria desertou o palácio, em volta 
do qual foram as patrulhas redobradas, afim de que 
ninguém nelle entrasse nem sahisse, e o lúgubre 
acontecimento jazesse em segredo. 

O povo, porem, não vendo apparecer o prín- 
cipe, entrou a desconfiar do resguardo e logo, por 
toda a parte, foram murmurações, murmurações que 
subiram de ponto no dia em que um palanquim 
fechado atravessou apressadamente a cidade, em di- 
recção ao palácio, entre cavalleiros armados de lan- 
ças e de alfanges. 



76 COELHO NETTO 

Quem seria? As conjecturas succediam-se, nem 
uma, porem, acertada. Fossem lá adivinhar que o 
occulto do palanquim era um astrólogo, que lia na 
luz das estrellas e que fora chamado para consul- 
tá-las sobre a doença do príncipe. 

— Ficará curado e com toda a belleza, disse o 
mago, depois de quatro noites de vigilia na torre 
mais alta, se o banharem em lagrimas nascidas num 
coração. 

Tresentas embaixadas foram expedidas em de- 
manda de tão difficil remédio, com promessas de 
honras e riquezas e carta branca para praticarem 
tudo quanto fosse necessário para acquisição da mys- 
teriosa medicina. 

E os emissários partiram, caíla qual a seu rumo. 

A ânsia em que ficaram os reis fazia que os dias 
lhes parecessem mais longos e revoltavam-se contra 
a morosidade do sol, que tanto custava a esconder-se 
atraz das montanhas. E as noites pervigilas, como se 
arrastavam nas horas! 

Uma manhan, porém, atalaias que vigiavam nas 
muralhas da cidade, annunciaram a chegada de três 
apenas dos enviados, que, do restante, nmica mais 
houve noticia. 

O prúneiro introduzido em palácio, prostrando- 
se reverentemente ante o throno, falou em palavras 
confiantes : 

— Majestades, com as ordens de que me ar- 
mastes, abri milhares de peitos arrancando de todos 
o coração palpitante. A dizer verdade, por mais que 
esvurmasse, em nenhum achei lagrimas. Trouxe, po- 
rem, as que recolhi dos olhos dos que choravam pe- 
los martyrios de que eram testemunhas — lagrimas 
de mais, de esposos; lagrimas de irmãos e de filhos. 
Com ellas, tantas foram I enchi cem odres. Experi- 
mentai-as no príncipe e praza aos deuses que o sarem. 



A CIDADE MARAVILHOSA 77 

Não faria tanto o pez fervente como fizeram as 
lagrimas trazidas pelo primeiro enviado. As feridas 
do principe abriram-se-lhe sangrando e a pelle des- 
collou-se-lhe do corpo, deixando-o em carne viva^ 
como fica a rez esfolada pelo magarefe. 

E a um aceno do rei a cabeça do enviado rolou 
no tapete a um golpe cerce do alfange do carrasco. 

E o segundo emissário adiantou-se sobre o san- 
gue, ainda quente, do primeiro e, prostrando-se an- 
te o throno dos reis, disse mostrando um renque 
de amphoras transbordantes de lagrimas: 

— Majestades, não houve crueldade que eu não 
praticasse por amor do principe, gloria da nossa ra- 
ça. Se souberdes de campos incendiados, de cidades 
arrasadas, de morticínios em massa, de loucura de 
mais, de suicídios de esposos, de desesperos de or- 
phãos, não pergunteis pelo causador de tantos males, 
que outro não foi senão quem vos fala e que tudo 
fez pela obediência que vos deve. Se eu derramasse 
o que trago em odres, que sobrecarregaram cem dro- 
medários, inundaria de lagrimas este salão e ellas 
correriam pelas escadas como se precipitam por pe- 
dras as aguas das cachoeiras. Praza aos deuses que 
tantos sofírimentos aproveitem ao principe, mais do 
que aproveitaram aos corvos, que se regalam na car- 
nificina. 

Se fossem lavas inflammadas o que continham 
as amphoras do segundo emissário — não teriam ar- 
rancado tantos e tão desesperados gritos ao enfermo 
como arrancaram. 

E o carrasco, pela segunda vez, vibrou, a duas 
mãos, o alfange, fazendo rolar no tapete a cabeça do 
enviado. 

E foi a vez do terceiro. 

Era um jovem, lindo e airoso, meigo de feições 
e simples. Quando elle se adiantou para o throno, 

6 Coelho Netto -^ J. Cidade Maravilhosa. 



78 COELHO NETTO 

O astrólogo, que assistia junto aos reis, sorriu de bôa 
sombra. E o mancebo falou : 

— Majestades, inclino-me á vossa clemência, só 
ella me poderá salvar, porque o que trago é tão 
pouco que nem sei se terá resistido ao calor escal- 
dante do deserto. E tirando do seio um pequenino 
frasco de crystal, tão pequenino que talvez não pu- 
desse conter agua bastante á sede de uma cigarra, 
disse : 

— Atravessava eu o deserto quando, no mais in- 
tenso calor do sol, abrasado em sede, avistei um 
bosque de palmeiras. Nem foi necessário estimular os 
animaes porque, ao farejo dagua, todos a uma, lan- 
çaram-se a galope. Era um fresco oásis pelo qual 
serpeava um córrego e, entre as palmeiras, á beira 
dagua sonora, uma mulher amamentava uma crian- 
ça. Um mau espirito falou dentro de mim: 

«Toma o teu kandjar e degolla o pequenito e 
as lagrimas que por elle chorar a mulher serão a 
medicina que buscas, porque as lagrimas das mais 
nascem no coração. » 

Investi á infeliz e ia a ferir o infante quando a 
coitada se me atirou aos pés, offereccndo-se-me para 
morrer pelo filho. Commoveu-me tanto a desventura 
da pobre mãi que não tive forças para desfechar o 
golpe e, lembrando-me de um filho pequenino, que 
eu deixara ao collo da minha esposa, chorei e... 
perdoei. E são as minhas lagrimas que aqui vos 
trago, tão pouco é, á vista do ^ue vos trouxeram os 
outros, que nem coragem tenho de vo-las entregar. 

— Entretanto é necessário que o faças, disse o 
astrólogo, que a tudo assistira mudo, de pé, junto 
ao throno dos reis e, tomando o pequeno frasco, 
foi-se com elle á camará. Humedecendo, então, os 
dedos, tocou, de leve, o rosto do leproso e logo, co- 
mo em relâmpago, a pelle negra e apostemada cahiu- 



A CIDADE MAKAVILHUSA 7!' 



lhe aos pés e o priíiripc leappareceii (omo dantes — • 
bello como um dens e sorrindo. 

E a rainha, lancando-se-llie aos beijos, maravi- 
lhada do que via, exclamou: 

— Como poude tão pouco pranto, pouco mais 
que três gotas, fazer o que não conseguiram tantas 
lagrimas!? 

— E' que esse pouco, senhora, disse o astrólogo, 
veiu da Piedade, do mais intimo do coração, e as 
outras lagrimas gerou-as o soffrimento, e só podiam 
aggravar o mal, como aggravaram. 

E foi assim que o mancebo, que se julgava 
perdido teve em honras e riquezas o premio da sua 
Bondade. 







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80 COELHO NETTO 



A ENFERMEIRA 

— Isto não é de cavalheiros, protestou Amynthas 
pondo-se vivamente de pé e, perlongando o salão 
a largas passadas, insistiu: Não é de cavalheiros, te- 
nham paciência. Se aqui houvesse uma mulher capaz 
de defender o Sexo com a eloquência de Portia ou com 
o argumento decisivo que deu a victoria á Phrynéa... 

— Isso querias tu! ^ 

— ...eu não me constituiria advogado ex-officio 
da accusada. Mas o que ahi ha são apenas imagens 
de mulheres, mudas, como o Moysés de Miguelan- 
gelo: umas, em telas, outras em manmore, como a 
Vénus que ali está, de cócoras; ou de bronze, e só 
em cabeça (disparate em se tratando do sexo femi- 
nino; como a arrogante Diana de Falguières. Estão 
vocês a imitar Salom.ão, Euripides e outros miso- 
gynos despeitados. Não é generoso. Nenhum de vo- 
cês, garanto, seria acolhido á tavola do Rei Arthur. 

— Ah! sim... o Rei Arthur contentava-se com 
o seu sócio — Lançarote. Bom exemplo nos trazes. 
E' verdade que a sua admirável esposa chamava-se 
Genebra e foi, talvez, pelo nome que a generosa 
tíama lhe subiu á cabeça enchendo-a de furúnculos 
escandalosos. Mas continua. Estás com a palavra. 

— Sim, estou com a palavra e com a razão. Eu 






A CIDADE MARAVILHOSA ' 81 



podia confundir- vos a todos narrando casos admiráveis 
de virtude e abnegação de mulheres. 

— Abi vens com a Poesia: Sita, Antigone, Imo- 
genia, Marina... 

— Não. Não me valerei da Poesia, que é o re- 
curso supremo. Tenho á mão prova recente, colhida 
na minha própria vida. O caso que vou referir data 
de pouco tempo, é contemporâneo da grippe, da qual 
não estou ainda de todo curado. Cyro, que se levan- 
tara para guardar os originaes do poema, cuja lei- 
tura tantos applausos provocara, fez retumbar o gon(j 
para que o criado restaurasse a cratera, onde não 
restava gota do punch, com que fora deliciosamente 
regada a hora li Iteraria. Decio, da ottomana, onde se 
espichara, a fumar, reclamou em voz languida: 

— Continua, Amynthas. Dá-nos esse caso único. 
E' possível que, ouvindo-o, eu me reconcilie com o 
sexo, do qual, ha tanto, ando divorciado. Fala-me 
da hypocrisia. O thema presta-se excellentemente para 
uma palestra intima, em noite fria e de chuva, 
como esta. 

— A mulher é o único ser que se renova na vida. 
todos os mais repetem-se. A mulher é sempre nova, 
declarou Amynthas com solemnidade emphatica. 

— Endossas a opinião de Michelet, que até de- 
clarou não haver mulheres velhas, certamente por- 
que todas lhe escondiam a certidão de idade. Mas 
vamos ao caso, emquanto não se renova o pimch. 
Precisamos de alguma coisa que nos aqueça. 

— Tenho profundo conhecimento da mulher. 

— Eu não sabia que gostavas de explorar abys- 
mos. 

— Não me interrompas, que diabo! Olha, Cyro, 
acho melhor mandares suspender o puitck. 

— Fala. Ante tal ameaça prometio ouvir em si- 
lencio, declarou Decio. 



82 COELHO NETTO 



— Em mais de mil mulheres de varias raç-as, que 
tenho conhecido e conversado, não encontrei dois 
exemplares da mesma edição. 

— Naturalmente: pais differentes. 

— Não: almas, almas differentes. Conheci heroi- 
nas da tempera de Penthesiléa, dedicações como An- 
tigone, monstros comparáveis a Clytemnestra, Athalia, 
Phedra e Fredegunda, amorosas do typo lyrico de 
Julieta e devassas do erotismo aphroditico de Mes- 
salina; mulheres mais pérfidas do que os horizontes 
dos desertos onde se reflectem as miragens e outras 
tão verdadeiras como a própria Verdade. 

— Em que poço ou cisterna as encontraste, ó 
Grão Turco? 

— Não troces. Falo serio. De tantas criaturas 
heterogéneas que me passaram diante dos olhos a 
que mais me impressionou foi certa menina e moça 
(valho-me da expressão feliz de Bernardim Ribeiro) 
que conheci em Petrópolis e com a qual me acama- 
radei ao tennis. Linda como Vénus e ágil como Ata- 
lanta. E que espirito! Que cultura! Fala seis linguas. 

— Misericórdia! Uma mulher com seis linguas... 

— Da sua elegância basta que eu diga que ella 
levantou o premio de attitude no concurso aberto 
por uma revista de arte. Mas o que nella eu mais 
admirava era a independência. 

— Uma mulher livre, como o 7 de Setembro. 

— Não respondo a tolices. Continuamos aqui a 
nossa camaradagem. 

— Dize antes: flirt. 

— Flirt, porque não? Afinal, que é o flirt? um 
pouco de aroma que se respira da flor sem desta- 
cá-la da haste. 

— Mas ás vezes dcsfolhando-a. 



A CIDADE MARAVILHOSA 83 

— Vocês não ignoram que estive ahi uns tem- 
pos mal, com febre alta, dois médicos á cabeceira. 
Pois, meus caros, uma tarde — foi isso em começos 
da minha convalescença — estava eu a ler Verlaine 
quando o criado me entrou no quarto com um pe- 
quenino cartão de visita que, pelo perfume que exha- 
lava, mais parecia uma pétala de flor. Vocês não 
podem imaginar o meu espanto quando nelle vi o 
nome da tal Senhorita. Está ahi?! perguntei ao criado. 

— Sim, senhor. 

— Com quem? 

— Só. 

— Só!? Hesitei em recebe-la. Em um hotel... 
vocês comprehendem. A Opinião Publica é o diabo... 
e tem agentes em toda a parte. Tornei ao criado: 
Não lhe disseste que estou doente, de cama? 

— Disse. Ella sabe e, justamente por isso, faz 
questão de entrar. Quer vê-lo. Mandei pôr ordem no 
quarto e... Que havia eu de fazer? Ce qui femme veut... 
Entrou. Soubera da minha enfermidade em casa do 
Durval e, desde logo, decidira-se áquella visita. O 
meu pobre quarto illuminou-se e aqueceu-se com a 
sua presença e o perfume que por elle se espalhou 
foi como o da explosão de uma primavera. 

— Não ha perigo maior do que aroma de flor 
em quarto fechado. Dá-nos exemplo disso Zola com 
a morte de Albina no Paradou. E quantos annos tem 
essa beldade? 

— Dezoito, se tanto. 

— Ainda sob a tutela do código. Perigo. 

— Perdão, essa menina é uma virtude e eu sou 
um homem de caracter. 

— Deixemo-nos de phrases. Não ha caracter que 
resista a investidas taes. O caracter é hiunano e o 
homem não é de ferro. Cyro lembrou o caso de S. 
Jacopo, citado por Bernardes. 



84 COELHO NETTO 



— O homem poderá fraquear, contestou Amyn- 
thas, a mulher, porém, quando é honesta não ha 
força que a vença. 

— Força, não digo, mas ha razões que a dobram. 

— Pois foram justamente as razões allegadas por 
essa menina que me convenceram da superioridade 
da mulher sobre o homem. Não sou timido, confesso, 
pois, meus amigos, diante delia portei-me covarde- 
mente. 

— Estavas doente, desculpou Cyro. 

— Qual doente! Foi medo do escândalo. Fiz-lhe 
ver a imprudência daquella visita compromettedora 
e, a^radecendo-lhe o conforto que me levara, o bem 
que me fizera com a sua presença, mais animadora 
que a do sol, tão esquivo ultimamente e que, na- 
quella tarde, por discreção, de certo, se recolhera 
mais cedo, pedi-lhe que se retirasse. Sabem como 
respondeu? « Retirar-me!? Por que? Que mal ha em 
que eu aqui venha e me demore um instante a seu 
lado, fazendo-lhe companhia? A Opinião Publica, já 
sei. Sorriu encolhendo superiormente os hombros. Di- 
ga-me: Na guerra, a enfermeira que presta soccorro 
aos feridos importa-se com os obuzes que passam 
uivando por cima dos hospitaes de sangue e com 
as bombas que despejam das nuvens os aviões? Não. 
Pois para mim os commentarios da Opinião Publica 
valem tanto como para as enfermeiras militares es- 
ses engenhos de morte. Se para cumprir o meu de- 
ver fôr necessário arrostá-la, arrosto-a pouco se me 
dando do que ella possa dizer. Estou aqui como en- 
fermeira e, se fôr preciso passar a noite a seu lado 
jíara dar-lhe o remédio a tempo justo, passarei. Os 
obuzes que estrondem, as bombas que expludam. O 
perigo seduz-me ». Escurecia. Voltei-me para a pa- 
rede e accendi um phosphoro. 



.M: 



A CIDADE MARAVILHOSA 85 

— Phosphoro? Para que phosphoro? Pois no teu 
hotel não ha ainda installação eléctrica? Em que es- 
pelunca te metteste? 

— Não foi para alumiar-me que accendi o phos- 
phoro. 

— Então para que foi? Para fumar? 

— Não. Para fazer subir o thermometro a mais 
de quarenta graus. 

— E ella? 

— Com febre tão alta... que havia de fazer? Ti- 
rou a peliça... 

— Ah! bem... antes assim... Eu estava com me- 
do de que fosses tu que lhe deixasses na mão a ca- 
pa da covardia, como fez o pulhissimo José com a 
mulher de Putiphar. E depois?... 

Nesse instante o criado entrou com a cratera de 
prata em que flarmnejava o punch. 



o^o 



8G COELHO NETTO 



UM SORVETE 

Começara o baile e o marechal, aproveitando-sç> 
(la alegre agitação da sala, esgueirou-se sorrateira- 
mente para gosar o havano que trazia entre os dedos 
e já o accendia, com delicia, quando uma faiscação 
piscante, como de vagalume, levou-lhe os olhos para 
a sombra que fechavam os ramos entrelaçados do 
jasmineiro, em um dos extremos do terraço. 

Olhava a fito, perquirindo, quando uma voz, gra- 
ciosa e languida, muito conhecida do seu coração, 
que a escutava de longe, de muito longe, do fundo 
dos seus sessenta e três annos, annunciou a dona, 
que outra não era senão a linda Madame Lutecia. 

— Que é isto, marechal? Aqui fora, o senhor^ 
o lieroe do dia? 

— Da noite, minha bôa amiga. O meu dia pas- 
sou. 

— Mas cheio! 

— De saudades ! Pediu licença e arrastou uma 
cadeira de vime para o canto discreto em que se 
refugiara a viuva, dizendo: Eis a única vantagem 
que tiro da idade, que se sobrecarregou hoje com o 
peso de mais nm anno. E deixem lá que não é 
pequena a vantagem. 

— Vantagem?! Ah! de sentar-se junto de mim? 

— Pois então?... E no escuro. 



A CIDADE MARAVILHOSA 87 



— Por isso não, marechal. A escuridão perdeu o 
prestigio, hoje tudo se faz ás claras, de modo posi- 
tivo. 

— Ou positivista, gracejou o velho militar. 

— As trevas dissiparam-se com o fiat do Pro- 
gresso. 

— Menos nos cinemas. 

— Ora... os cinemas... Os cinemas são escolos 
primarias ou, quando muito, escolas nocturnas para 
adultos. Mas sente-se, marechal. Sente-se. Está ver- 
dadeiramente delicioso o perfume deste jasmineiro. 

— Estou fumando. 

— Também eu. 

— Mas diga-me: Não dança? 

— Eu? Não. Prefiro fumar. O cigarro é um ex- 
cellente par. Leva-nos pelo sonho em espiras de fu- 
maça, nuvens como as que passeavam os deuses 
pelo Ether. Góso aqui muito mais do que na sala e 
forro-me ao tédio de ouvir banalidades ou descripções 
de jogos renhidos, e não sujeito os meus sapatos a 
serem pisados por pés gloriosos de celebridades pon- 
tapédistas. Não baixo o meu olhar, por isso prefiro 
os que pensam, os que têm a força no cérebro, aos 
que se impõem pelos pés. 

-- Quer, com isto, dizer que não gosta do es- 
porte ? 

— Não, gosto e pratico-o, como me preoccupo 
com o esmero do corpo, o alinho do trajo e o mais 
que diz com a vida, quer como funcção, quer como 
representação, nem por isso, entretanto, ando sem- 
pre a falar em banho, em manicuras e costureiras. 

Levou a cigarrilha á boca, deixando esfiar-se um 
filete de fumo por entre os lábios entreabertos. Por 
fim, sorrindo, perguntou maliciosamente: 

— Então quantos, marechal? 

— Sessenta e três, minha boa amiga. 



88 COELHO NETTO 



— Ninguém dirá. 

— Digo eu, e eu só digo verdades, ainda que 
me custem, como essa. Daqui por diante é o deserto. 

— O deserto é ardente e agitado... principalmen- 
te quando sopra o simun. 

— Ah! sim... Infelizmente o deserto para onde 
me encaminho não é como o Sahara, onde verdejam 
oásis; o meu é o deserto de gelo, a solidão fria, des- 
confortável, sem sol, o contrario do outro, que a,rde. 
E o calor, como sabe, é a vida. 

— A mocidade... 

— Sim, o deserto quente. São os dois que se 
extremam: no primeiro ardemos ao sol e ansiamos 
por um pouco de sombra, o abrigo de um oásis. No 
segundo, o que almejamos é... não direi um raio 
de sol, que isso não ha no pólo, mas um lume que 
nos aqueça., que nos conforte, que nos dê ao sangue 
um pouco de calor. 

— O marechal exaggera. 

— Não, não exaggero : digo o que é, o que sinto. 

— E' pena que não haja aqui um thermometro. 
A columna daria razão a quem a tivesse. O mercúrio 
não mente. 

— Sim, não mente... quando o não forçam a 
mentir. Tive na Escola um condiscípulo que conse- 
guia enganar os médicos fazendo subir o thermo- 
metro... á custa do cigarro. 

— E o marechal porque não faz o mesmo com 
o charuto? O velho militar trincou o havano e, de- 
pois de um silencio embatucado, disse pausadamente: 

— Não, minha querida amiga, taes artifícios são 
sempre perigosos, ou o thermometro sobe por si mes- 
mo ou então... paciência. 

— Nunca pensei que o marechal fosse assim 
desanimado. Isso em militar não é bonito. Um cabo 
de guerra, como o senhor, morre, mas não se rende. 



A CIDADK MARAVILHOSA 89 



Experimente o charuto... E desatou a rir, um risi- 
nho irónico, malicioso, perverso. O marechal reme- 
xia-se na cadeira, cruzava, descruzava as pernas. 
Por fim, quebrando com a unha a cinza do havano, 
disse: 

— Olhe, se eu tiv-esse de recorrer ao fogo pe- 
diria uma centelha a certos olhos que cordieço, que 
luzem no escuro, como os dos felinos. 

— Os felinos são ferozes, mareclial e para ata- 
cá-los, principalmente quando se acham enfurnados, 
é preciso ter boas armas, coragem e sangue frio. A 
coragem varia. Militares dos mais valentes tremem, 
ás vezes, ouvindo no escuro o estrépito do correr de 
um rato. Não sabe a lenda de Siegfried, o heroe que 
não conhecia o medo? Pois uma criada espavoriu-o 
atirando-lhe, em cima, no leito em que elle se acha- 
va, uma celha de agua fria com alguns peixinhos de 
tanque. 

— E acredita a minha amiga que se me ati- 
rassem em cima um peixe...? 

Um criado appareceu á porta do terraço com uma 
bandeja de sorvetes e, vendo brilhar na sombra a 
brasa do havano do marechal, adiantou-se com so- 
licitude indiscreta. O bravo militar recusou. Lutecia 
serviu-se. Ao afastar-se o criado, ella sorriu e debi- 
cando o creme: 

— Não imagina como eu gosto de gelados, prin- 
cipalmente numa noite quente como esta. 

— Que pena eu tenho de não ser sorvete! sus- 
pirou o velho militar. 

— Para que, marechal? O sorvete funde-se tão 
depressa... 



o|o 



■3 



í)0 COELHO NETTO 



NA TREVA 

A um solavanco violento, que o atirou d'encontro 
á parede da camarinha, o homem despertou em so- 
hresalto, sentando-se no leito, aturdido. Que haveria? 

O vagão oscillava desabalado e rangia em des- 
conjuntamento, rilhando' mordentemente nos trilhos. 
Por vezes um chiado longo rechinava como esfervedura 
de ferro em brasa immerso nagua. A luz das laimpa- 
das vasquejava, ora em amortecimento, quasi extin- 
guindo-se, ora accendendo-se em clarão intenso, como 
olhos que se abrissem em espanto. 

E o comboio corria vertiginosamente em veloci- 
dade de despenhamento, rebolando aos coUeios, ati- 
rando-se em voltas bruscas em rabear frenético. 

Ferragens estrepitavam entrebatidas, portas abriam- 
se como arrombadas, logo fechando-se de choque. O 
carro tremia como animal cançado. 

O homem afastou a cortina da janella e olhou 
pela vidraça abrumada a noite, negra como um tun- 
nel infindável. Espectros de arvores, entrevistos em 
relâmpagos, recuavam espavoridos como se o terror 
se communicasse á própria natureza. Luzes passavam 
rápidas. 

De repente um silvo estrangulado rompeu angus- 
tiosamente prolongando-se pelo silencio lúgubre. Dir- 
se-ia um appello afflicto, clamor de soccorro bradado 



A CIDADE MARAVILHOSA I.'l 



desesperadamente ás cidades adormecidas, das qnaes 
SC percebiam as ruas pelas parallelas de luzes; ás 
povoações encostadas ás roças, ás próprias cabanas 
e casas de turma, á beira dos caminhos. 

Estações passavam iium fulgor instantâneo; e a 
treva adensava-se mais espessa, pingada de lumes 
amarellentos. 

Havia alguma coisa de presago naquelle silvo 
que repercutia lancinantemente na escuridão. Estron- 
dos surdos, rebôos cavernosos, estrépitos metallicos 
davam impressão de que o expresso corria sobre 
cascalhada, esmagando, triturando ferros e lapedo. 
Oue haveria? 

O homem voltou-se para a frente. Duas pernas 
balançavam-se no ar como de um enforcado, escor- 
regavam, desciam e appareceu um busto arreman- 
gado. Era o passageiro do leito superior. Tocando no 
soalho foi logo commentando a fúria daquella corrida, 

— Isto é uma imprudência! Esse machinista es- 
tá louco. E, respondendo a alguém, que resmungara, 
confirmou. E'... E no estado em que está a linha, 
imagine o senhor. E' por isso que ha tantos desas- 
tres. Não se corre assim. E' demais. Ainda não con- 
segui dormir. 

— Nem eu. 

— Ninguém. Estão todos por ahi acordados. A 
locomotiva bufava. 

A Ímpetos, com os violentos empuxões d'arran- 
que, o carro chocava- se com os que o incluíam e eram 
trancos, baques nos para-choques, e um retinir tran- 
galhante de correntes. 

— E não ha aqui uma pessoa com quem se 
fale. Toca-se a campainha, é o mesmo que nada. 

— Onde estará o guarda? 

— Dormindo por ahi. 



92 COELHO NETTvO 

— E' isto. Vozes sussurravam pelo vagão adian- 
te. Passageiros deixavam os leitos e, encarando-se 
sarapantados oommentavam: 

— Onde se viu uma coisa assim! 

— Não sei que é isto! Não comprehendo. Se- 
nhoras protestavam. Crianças chocavam. Um rapa- 
zola afoito propoz-se a quebrar o vidro para dar 
signal de alarma. Alguns passageiros interpuzeram-se : 

— Não! Não! Pode ser peor. Deixe. 

— Que horas serão? perguntaram. 

— Quasi três. 

— Onde estaremos? 

— Quem sabe lá! 

— Se ainda houvesse aqui alguém que nos dis- 
sesse porque vamos assim. Deve haver alguma coisa. 

— Atrazo, com certeza. E, num momento, todos 
os passageiros, uns de pé no corredor central, outros 
dos leitos, entraram a conversar com intimidade, apro- 
ximando-se instincti vãmente. 

,E a velocidade cada vez maior. Os carros aba- 
lavam-se e, com o choque, os passageiros desequili- 
bravam-se trambolhando uns sobre outros, agarran- 
do-se á borda dos leitos superiores. 

— E' demais! A um sacalão mais rispido um 
grito retiniu no vagão alvoroçado e, como em res- 
posta, a locomotiva lançou novo silvo mais estri- 
dulo e tremulo. 

— Vão ver que é algum machinista novo. 

— Ou bêbedo. 

— Não duvido. 

— Mas não se entrega a um machinista novo um 
trem como este. Depois não querem que haja desas- 
tres. Para tudo isto ir por ahi abaixo basta que um 
dormente dê de si, e no estado em que elles estão... 

— O senhor acha? perguntou uma senhora pas- 
sando a cabeça por entre as cortinas do leito. 



A CUi.VDE MARAVILHOSA HB 

— Mamai... Mamai... vem p'ra eá. Estou com 
metio... choramigou uma criança. Tal voz fez pas- 
sar um arripiô de terror em todos como se partisse 
de um oráculo. Era a innocencia que presentia o pe- 
rigo. Calaram-se estarrecidamente e na pausa pro- 
funda ficou resoando, soturno, o rumor da corrida 
trágica. 

Um homem gordo, de óculos, lançou-se do leito 
indignado e, descalço, com os suspensórios cabidos, 
a camisa a espocar das calças, foi direito á porta. 
Abriu-a. Uma rajada de vento enfumaçado invadiu o 
carro: as luzes tremeram. O homem recuou aturdido, 
tombou d'encontro a um leito. A porta bateu d'estalo. 

— Isto é um desaforo! Um trem de passageiros, 
cheio de senhoras e crianças, entregue a um louco. 
Pois esse homem não vê que nos está levando para 
a morte?! 

Uma mocinha surgiu de um dos beliches, poz-se 
de pé entre os homens, atordoada, chorando, a ojhar 
para um, para outro, retorcendo as mãos. Do<=4eito 
superior falaram-lhe : 

— Deita-te. Não fiques de pé que podes cahir 
o machucar-te. Deita-te. Assim como assim tanto va- 
le ficares na cama como ahi. Se tiver de acontecer 
alguma coisa, que Deus tal não permitta... Deita-te. 
Ha de ser o que Deus quizer. 

— Deus é brasileiro, gracejou alguém. Eu é que 
me não levanto. Deitado estou prompto para o que 
der e vier. A viagem para o outro mundo faz-se á 
pés juntos. 

A mocinha rompeu em pranto, remergulhando no 
leito, e um dos passageiros, que se voltara para o 
beliche de onde partira o commentario trocista, ros- 
nou: 

— Tolo! Extinguiram-se, de repente, as luzes; um 
grito repercutiu: 

7 Coelho Netto — A. Cidade Maravilhosa. 



94 COELHO NETTO 



— Misericórdia! 



Sob o amontoado de carros a locomotiva ago- 
nisava esvahindo-se em esguichos de vapor e dos 
destroços do comboio, e da treva em volta partiam 
brados, gemidos, gritos lancinantes, vozes confusas e 
sombras atropellavam-se clamando espavoridas. 

O céu começava a encardir-se nas barras da. 
madrugada. 



ojo 



A CIDADE MARAVILHOSA ^)n 



A ESTRELLA 

O sol, enorme e baço, descia lentamente por 
traz das collinas bronzeadas. Remiidos os animaes 
para proseguirem na romagem, os servos iam e vi- 
nham cantando, contentes de todo um dia repousado 
naquelle oásis farto em tâmaras, veiado de córregos 
crystallinos e de tanta frescura e sombras tão agra- 
dáveis que até os dispensaram de armar as tendas, A 
estrella, parada no ceu, acima do palmar, começava a 
luzir em tremulas scintillações. 

Os três reis, já accommodados nos seus drome- 
dários, esperavam que o astro se movesse quando 
Balthazar, que o contemplava, enlevado, disse em voz 
grave e morosa: 

— Mais uma noite de esplendor. E Melchior: 

— A ultima, talvez, porque, além das collinas, 
começam as terras abençoadas. Então Gaspar, ane- 
diando maciamente a barba longa, commentou com 
irónico sorriso: 

— E trazemos comnosco seis astrólogos, dos 
mais nomeados em todo o Oriente, e nenhum delles 
nos sabe dizer o nome dessa estrella maravilhosa, 
que nos vem guiando da altura, como um pastor con- 
duziria o rebanho. 

A taes palavras de escarneo o mais velho dos 
que liam nos astros, ancião de mais de um século. 



96 COELHO NETTO 



que era levado em andas, como um idolo, falou por 
todos os chaldeus, sábios em vaticínios: 

— Como quereis que digamos o que é segredo 
do Alto? Os astros, conhecemo-los todos, não só os 
que vemos na superfície da noite, como outros mui- 
tos que só com os números vamos descobrir além 
das raias do olhar. Essa estreita, porém, sahiu do mys- 
terio, não veiu de nebulosa. 

E' um astro em missão divina, talvez destacado 
da coroa do Creador dos mundos. Comparai-a ás de- 
mais e vereis que ha nella mais brilho do que em 
qualquer das outras. ''E não imagineis, apezar da 
vossa grandeza, que ella rompeu do ceu apenas para 
guiar-vos. A muitos mais, e de todas as castas, vem 
cila trazendo no seu rastro, e não só homens como 
também animaes, e até os ventos sopram na direcção 
que ella aponta levando as offerendas dos montes e 
dos campos, das florestas e dos jardins, dos valles, 
dos lagos e dos grandes rios no perfume das flores 
que nelles nascem. Só mesmo por prestigio de um 
Deus faria um astro prodígios taes. 

E outro astrólogo, dentre as corcovas de um dro- 
medário enxairelado sumptuosamente, accrescentou : 

— E a maior das maravilhas é que até cegos 
guiam-se por ella. 

— Cegos! exclamaram a um tempo os três reis. 

— Cegos! confirmou o astrólogo. Passamos por 
muitos. Viajam sem companhia e sem arrimo algum 
e tão certos no caminhar como os que mais vêem. 
Um delles acompanha-nos, não porque precise de nós 
para orientar-se, mas porque todos o retêm e dispu- 
tam, que outro não ha que com elle compita em can- 
tares heróicos e contos maravilhosos. 

Quizeram os reis ver tal cego e logo dois homens 
o foram buscar, achando-o á beira de um córrego, a 
cantar entre guerreiros e servos. Era um homem do 



\ CIDADE MARAVILHOSA 97 



Cáucaso, alvo e louro, de porte agigantado, que tra- 
zia pendurada ao peito marmóreo uma lyra rústica de 
três cordas. 

Interrogado por Balthazar : « Como sabira da sua 
montanha remota? Como lograra chegar ás planí- 
cies fáceis e desnevadas? Quem o guiara em tão re- 
vessos caminhos?», respondeu de mãos postas, sor- 
rindo enlevadamente : 

— A estreita. 

— E tu a vês, sendo cego? 

— Se a vejo? Certo que não, mas sinto -a. A sua 
luz entra-me nalma, e guia-me. Não só a mim, como 
a muitos outros infelizes. E a enfermos que se le- 
vantaram dos catres; e a paralyticos que a seguem 
estropiadamente; a ahciãos, que mal podem com o 
bordão a que se apoiam; a crianças que andam em 
passo incerto, abrindo os braços para equilibrarem-se, 
como fazem os funambulos na corda. Quantos! To- 
dqs a iseguem : os que a vêem, os que a não vêem, sãos 
e enfermos, válidos e valetudinários. Oh! reis, essa 
estreita, que os vossos astrólogos não conhecem e di- 
zem ser nova no ceu, é a mais antiga de quantas 
enfeitam e illuminam a noite, não essa noite passa- 
geira, que dura o tempo de um somno, a noite tene- 
brosa que se eternisa nalma, mais negra na do que 
não quer ver do que a da cegueira nos cegos. Essa 
estrella, reis, antes de apparecer, já illuminava as 
almas, como o sol, ainda occulto, projecta no ceu as 
cores da alvorada. Foi ella que levou Israel do capti- 
veiro do Egypto ás terras de Chanaan. Era, então, a 
nebulosa de fogo que alumiava as noites no deserto. 

— E desde quando é estrella? perguntou Mel- 
chior. 

— Desde que o primeiro propheta annunciou á 
tristeza dos homens a vinda do Messias. 



98 COELHO NETTO 



— Tu que assim falas, com tão perfeito conhe- 
cimento, deves saber-lhe o nome. Di-lo e assim da- 
rás lição proveitosa aos sábios que nos acompanham. 
Que nome tem ella? 

O cego levantou para o ceu os olhos ennevoados 
e com um sorriso no rosto, de mãos juntas, em pre- 
ce, disse: 

— Rei, o nome dessa estrella é Fé. E' ella que 
nos vai levando a todos pelo caminho da Esperança á 
presença d'Aquelle que nos ha de remir. 

Nesse instante um som de tuba retumbou longa- 
mente, como o rugido do leão no deserto. Esvahira- 
se de todo a claridade solar e a estrella, abrindo en- 
cachiadamente a cauda luminosa, que aclarou a terra 
em luz mais alva e mais doce que a do luar,, 
poz-se em marcha em direcção ás coUinas, além das 
quaes o ceu irradiava em esplendor assignalando 
a caverna em que Jesus nascera, 

E, lentamente, a caravana immensa dos reis des- 
filou por entre as dunas, seguindo a estrella que des- 
lisava no ceu. 



olo 



A CIDADE MARAVILHOSA 99 



O GRANDE JOGO 

— E', então, verdade que viste a Morte? per- 
guntou Onofre a Serapião. O interrogado accendeu 
vagarosamente o cigarro, tirou uma lenta fumaça e 
respondeu com tranqnillidade : 

— Sim, é verdade. Tão verdade como te eu estar 
vendo aqui no meu quarto e o Corcovado ali defronte, 
o ceu, tudo que nos rodeia, emfim. 

— E como foi isso? 

— Vi-a como se vê uma imagem ao espelho, Ti- 
ve-a diante de mim, pertinho, como nos achamos e 
longe, tão longe como está de nós o ceu. Via-a, mas 
não a alcançava, não podia tocá-la porque, entre nós, 
interpunha-se uma claridade intransponível, uma trans- 
parência que nos separava como o vidro isola a ima- 
gem que reflecte. E não é assim mesmo? Que é que 
nos separa da Morte? um quasi nada. Vemo-la em 
toda a parte, em tudo; caminhamos com ella ao lado 
e não a percebemos. Sente-se, por acaso, o peso da 
sombra? Não. Ella falava e eu não a ouvia, ou antes 
— não ouvia o som das palavras. Vês, á distancia, 
uma pessoa caminhando, segues-lhe o rumo, mas não 
lhe ouves os passos, não é verdade? Pois era assim. 
Eu via-lhe o movimento dos lábios, a expressão do 
rosto, ora a sorrir, ora fechado em severidade, de 
tudo isso eu tirava a significação das palavras como 



IW COELHO NETTO 



se fosse decifrando uma escriptura symbolica. Os 
mudos não se fazem entender? Não ha os que inter- 
pretam hieroglyphos? Pois era assim. As palavras 
da Morte chegavam-me á intelligencia como folhas 
seccas que cahem em um lago e roçando-o, de leve, 
franzem-no em círculos que se vão abrindo, dilatando 
alargadamente. Eu ouvia as palavras mudas como 
na floresta, á noite, quando se attenta á escuta, ouve- 
se o mysterioso rumor do silencio. 

— È que aspecto tinha a Morte? 

— Que aspecto? 

— Sim... 

— O meu, porque era eu mesmo, ou antes: a 
minha imagem. 

— Se eras tu mesmo como dizes que era a Morte ? 

— Porque... Serapião recolheu-se um instante em 
si, a pensar; por fim, levantando a cabeça, perguntou: 

— Tu não tens presentimentos? Já te não terá 
succedido, ao caminhares, lembrares-te, de repente^ 
de alguém e encontrares, poucos passos adiante, a 
pessoa em quem pensavas? 

— Sim, acontece-me frequentemente. 

— Pois foi assim. Eu, não sei porque, pensei na 
Morte e logo vi levantar-se diante de mim esse ou- 
tro eu. 

— E não havia algum espelho onde estavas? 

— Espelho?! Eu achava-me em plena floresta, 
meu amigo, entre arvores sombrias. Que espelho po- 
dia haver em tal sitio? 

— E não tiveste medo? 

— Medo... sim, no primeiro instante senti um 
arripio gélido. Attentando, porém, no espectro, tran- 
quillisei-me reconhecendo-me, porque era eu mesmo 
que ah estava em transporte, ou desdobramento. E 
porque havia do ter medo se a Morte está em toda 
a parte, om Indo. como o ar, a luz, o fj-io, o calor, 



»^ 



A CIDADE MARAVILHOSA 101 



sendo como é a condição mesma da Vida? E' escusado 
tentar fugir-lhe. Foge-se á dor? não, porque a temos 
comnosco. Foge-se a um pensamento? Foge-se ao 
amor? Não! Assim com a Morte. Ninguém a evita. 
Caminha-se com ella, é uma companheira invisivel que 
lios guia ao nosso destino. 

— Mas não estarias com febre quando tives- 
te essa visão? 

— Queres attribui-la a delirio... Não. Não toi 
clelirio. E se tivesse sido? Que é o delirio? uma per- 
turbação ou melhor: uma revolução sensorial. E' como 
o torvelinho que se faz nagua e que, quanto mais 
rápido rodopia, mais aprofunda o funil cuja extremi-^ 
dade toca o fundo do vaso. Pois o delirio é um re- 
moinho no cérebro que, no giro vertiginoso em que 
se revolve, deixa entrever o fundo do mysterio, A 
febre é uma fogueira interior que tanto aquece como 
diffunde claridade, claridade- sinistra, como a do re- 
lâmpago, mas claridade. Se foi delirio, não sei; mas 
que vi a Morte, isso juro! 

E durou muito tempo essa visão? 

— Não sei quanto tempo durou. Conheces a len- 
da do monje que, desejando ter idéa da Eternidade, 
rogou a Deus o illuminasse com um milagre e, des- 
cendo á cerca do mosteiro, attrahido pelo canto de 
um pássaro, ficou a ouvi-lo? Quanto tempo esteve o 
religioso a deliciar-se com os gorgeios? Minutos, acre- 
ditava elle, entretanto, ao reentrar no mosteiro, tudo 
encontrou mudado, porque o tempo que lhe parecera 
ter sido de minutos fora longo de um século. Não pos- 
so dizer tanto, o certo, porém, é que não sei quanto 
durou o que attribues a delirio. Quando dei por 
mim estava a entrar na fazenda, já com a porteira 
á vista. 

— De sorte que a Morte que viste eras tu mes- 
mo...? 



102 COELHO NETTO 



— Sim, eu mesmo. E que é u, Morte, afinal, se- 
não a própria Vida? a Vida vista por traz, a Vida em 
sombra, a Noite do nosso Dia breve? Foi bom que'' 
eu a visse porque, dantes, quando eu pensava em 
morrer, tremia... hoje... Preoccupo-me tanto com a 
morte como com o somno em que hei de adormecer 
á noite. 

As arvores despojam-se das folhas uma e uma 
e continuam verdes, renovando a fronde, até que, um 
dia, minadas no cerne, qualquer vento as derruba, 
e então não são as folhas que ca.hem, é o próprio 
tronco que abate. 

Nos somnos que dormimos, á noite, vão-se os 
nossos dias, assim elles são como as folhas seccas 
que cahem da arvore da Vida, até que o vento frio, 
o vento mysterioso se levanta e a arvore, vencida, 
debate-se um momento nas raizes e, por fim, tomba. 
Quantas morrem em semente! Quantas murcham ain- 
da em broto! Quantas são violentamente desarrei- 
gadas em pleno viço! Para mim aquillo foi o que o 
povo chama « um aviso » e que os estudiosos da 
psychologia mysteriosa chamam premunição, O nome 
pouco influe. O certo é que eu vi a Morte, que a tive 
perto de mim annunciando-me... sei lá o que! Quem 
sabe o que vem dentro das horas silenciosas? são se- 
gredos do Tempo, surpresas do Destino. Nós esta- 
mos dentro da Vida como as pedras no sacco do Loto, 
ou vispora. A Morte tira uma ao acaso, canta-a e 
lá se vai o numero para o cartão. 

— Que, em caso tal, é o cemitério. 

— Taboleiro de jogo, como outro qualquer. 

— Do grande jogo. 

— No qual todos perdemos. 

— Ou ganhamos, quem sabe lá! 



A CIDADE MARAVILHOSA 103 



A VISITA 

Noite límpida. Frio de rachar. As estrellas scin- 
tillavam diamantinas, o que, para os conhecedores, era 
aviso infalUvel de geada. As luzes, que abotoavam a 
escuridão, tinham em volta um revérbero de névoa. 

O evadido caminhava de cabeça baixa, braços 
cruzados, muito encolhido em um casacão escuro. 
Para elie quanto mais frio, melhor. Assim, ainda 
que dessem por sua falta, ninguém lhe sahiria no en- 
calço, affrontando noite tão ríspida por um desgraça- 
do como elle. E que sahissem ! Matto era o que 
não faltava. E com o ouvido de caçador, que tinha, 
ao mais leve ruido trataria de pôr-se a salvo, nem 
que elles trouxessem cachorros. 

Tudo era silencio de somno. De quando em 
quando, longe, um latido. O caminho, esse conhecia-o 
elle a palmo: era capaz de ir direitinho, de olhos fe- 
chados, até a sua ca^. Mas o coração batia-lhe, sen- 
tria-se como suffocado, com medo de tudo. Também, 
quasi três annos sem ver mundo, mettido no Lepro- 
sario, a apodrecer. 

Roçando em galhos tinha impressão de que o 
agarravam e puxavam. Voltava-se assustado, arrepa- 
nhando as abas do casacão. E se o apanhassem!? 
Seriam capazes de matá-lo de raiva. 

Que o prendessem, pouco lhe importava e estava 



104 COELHO NETTO 



certo de que o haviam de prender mais dia, menos dia; 
com aquella doença não havia escapar, o que elle, 
porem, queria era ver a mulher e as crianças,-^olhar a 
casa, o seu cantinho. E caminhava estugando o pas- 
so, a tropeçar em pedras, a resvalar em covas de 
areia frouxa. A's vezes era um cupim que lhe appa- 
recia hirto, como um vulto embuçado que o esperasse. 

Atravessou a várzea deserta, faiscante de vagalu- 
mes, zunindo o guiseiro dos grillos ou grulhds in- 
tercadentes de sapos. Como respirava bem! O ar 
entrava-lhe a fôlegos pela boca^ frio como goles dagua 
bebida em fonte. 

Ganhou a estrada lisa. Logo, porém, estacou, 
surpreso, diante de um casarão com uma chaminé 
espigada no escuro. Aquillo era novo. No seu tem- 
po tudo ali era matto, um campo de « barba de bode », 
com umas palhoças de longe em longe. Devia ser a 
tal fabrica de meias. E ficou a olhar. 

Era, então, ali que a mulher trabalhava. Um ren- 
que de eucalyptus acompanhava o muro e, lá den- 
tro, grandes lâmpadas em postes espalhavam um cla- 
rão de luar. A sua casa ficava pouco adiante, logo 
depois da olaria onde, aos domingos, elle ia jogar a ma- 
lha. Casinha alegre como ella só! E a coitada da mulher 
sósinha, com o peso todo da vida, três bocas para 
sustentar. 

Da olaria, nem signal. Tudo murado, no fundo 
uma casa nova. Portão de ferro com uma taboleta 
ao alto. Que seria? Passou. De novo o vasio, e lá foi 
elle pensando, matutando. 

«Coitada! Nem sabia como a pobre se arranjava 
com dois filhos pequenos e a vida pela hora da morte, 
como estava. Homem? Qual! Isso tinha certeza de 
que não lhe entrara em casa, primeiro, porque ella 
era honesta, depois... quem havia de querer? Por ella, 
não, que era bem bonita, morena e com aquelles 



A CIDADE MARAVILHOSA 105 

cabellos que o tinham prendido, como a teia de ara- 
nha prende a mosca. Mas só quem não soubesse. Sa- 
bendo... mesmo... não vê! Mulher de leproso... Nem 
elle comprehendia como a coitada conseguira em- 
pregar-se na fabrica, com aquella praga em cima de 
si. Ah! o bom tempo! quando elle batia aquillo tudo 
alegre, brincando com um e com outro, forte, ven- 
dendo saúde; a mulher moça, bonitona, activa, a 
casa farta, os filhos crescendo entre os dois, de eól- 
io em collo, lindos! Bom tempo! Quantos castellos! 
compra d'isto, compra d'aquillo, mudança para mais 
perto da cidade, até porque, com o Leprosario a pouco 
menos de légua, deram em desconfiar de tudo, até 
da agua e do ar. Tanto morphetico... sabiam lá! Essa 
coisa pega! E pegou. 

Mas como?! Fosse lá saber. A principio elle notou 
que a cor da pelle ia mudando; depois umas manchas 
como mordidellas de bichos, inchação, até que, uma 
manhan, a mulher lhe perguntou se não sentia dor. 
Não, não sentia. Talvez fosse erysipela. Em pe- 
queno era muito sujeito. Mas não. Elle mesmo come- 
çou a desconfiar e escondia-se para examinar o cor- 
po, mirava-se ao espelho, apalpando-se. E aquillo 
deu em encalombar, em arroxear — eram os dedos, 
ora o rosto, eram os beiços, os olhos, as orelhas, a 
carne toda espocando, com uma cor exquisita de 
goiaba podre. Nem teve coragem de ir ao medico. 
Para que? E começou todo o mundo a evitá-lo, nas 
vendas, nas estradas: não lhe apertavam a mão, fa- 
lavam de longe, ariscos, com repugnância e se elle 
entrava num ajuntamento era logo a debandada; até 
a sua gente em casa — a mulher, que o repellia, os 
filhos que não lhe tomavam a benção. E foi a tanto 
que, um dia, por denuncia, de certo, o agarraram e 
deram com elle no Leprosario, como se atirassem ao 
lixo mna coisa podre. 



iOtí COliLHO NETTO 



Mas que culpa tinha elle? Se fosse um vadio, 
se dissessem que bebia, que jogava, que se mettia 
em pagodes e barulhos, que era mau marido, mau 
pai, homem de vicios, ainda bem, mas por doença...! 
Se, em vez d'elle, fosse ella que houvesse apanhado 
a moléstia, ficasse como ficasse, cahindo aos peda- 
ços, elle não a abandonaria; havia de sempre lem- 
brar-se que era sua mulher, a mãi de seus filhos. 
Ella, entretanto, nem para visitá-lo. Assim também 
não. Se a doença dá nojo também faz pena. 

Lá estava a casa. Reconheceu-a — tal qual a dei- 
xara. E outra nova, um pouco adiante. E se ella se 
houvesse mudado? Não! Mudado para onde? Ali, es- 
tava a dois passos da fabrica. Demais, a casa era 
própria: terreno comprado; construcção paga por elle. 

Chegou-se de vagarinho, parou junto á porta, 
por baixo da qual lagarteava um rastilho de luz. 
Era, com certeza, a coitada a fazer serão. Ah! bom 
tempo! E o frio cada vez mais intenso, talvez por 
estar ali perto o agasalho aquecido naquelle silen- 
cio de somno, como a sede augmenta quando se sen- 
te o fresco murmúrio dagua. Olhou, olhou longa- 
mente. Por fim bateu de leve; bateu de novo, mais 
forte, sacudindo a porta. Ouviu rumor e logo a voz 
assustada da mulher: 

— Quem é? E elle, em tom fanhoso, chegando-se 
muito á porta : 

— Eu, Adelina. 

— Eu, quem? 

— Abre, criatura. 

— Não abro sem saber quem é. Diga quem é. 

— Sou eu, Valentim. 

— Que Valentim? 

— Que Valentim ha de ser, filha de Deus. Va- 
lentim.. 



A CIDADE MARAVILHOSA 107 



— Eu SÓ conheço um Valentim, que é o meu 
marido, 

— Pois sou eu mesmo. 

, — Credo! esconjurou a mulher. 

-- Sou eu, Adelina. Você está estranhando a 
voz por causa da doença, mas sou eu. Abre só a ja- 
nella e espia, Euvme contento em ver você e olhar 
a casa e se você deixar eu v^er as crianças... Fugi. 
Fugi de saudade, mode ver vocês. Abre, abre depressa, 
queelles, com certeza, já vêm por ahi, dando em cima 
de mim. Abre. Juro que fico de longe, é só para ver. 
Depois... podem fazer de mim o que quizerem. 

Houve um ranger de ferrolho. O leproso aproxi- 
mou-se e, quando a janella se entreabria e o busto 
da mulher appareceu na claridade, elle recuou sur- 
preso. Contava vê-la como a deixara: com os gran- 
des olhos negros e luminosos, os cabellos fartos e 
luzidios, a boca verínelha e o doce sorriso em que 
ella a entreabria, com faceirice, para mostrar os den- 
tes muito brancos, e via-a avelhantada, uma ruina 
— tez amarellenta, enrugada, olhos sumidos e os ca- 
bellos ralos, repuxados, deixando-lhe descoberta a 
fronte vincada como a canivete. Ao dar com elle 
a mulher não conteve um gesto de espanto e asco: 
era uma carniça com dois fogos fátuos, os olhos. 
Bateu com a janella, em repulsa, Elle ainda gritou: 

— Adelina t 

— Não, filho de Deus. Não! Não é por mim. 
E' pelas crianças, por nossos filhos. Deus me livre! 
Vai-te embora com Deus. Vai! 

— Mas então é assim, Adelina? Você tem cora- 
gem? supplicou o misero. 

Não é por mim, já disse, é pelas crianças. Tem 
paciência. Você fez mal em vir aqui. Fez mal. Nun- 
ca pensei que você ficasse nesse estado. Deus me 
livrei Vai... Eu disse ás crianças que você morreu. Vai. 



108 COELHO NETXO 

— Que eu morri? Você disse isso? Pois então... 
Fica com Deus! Olha, abençoa os dois. 

— Mesmo por mim. Eu via você como dantes, e 
agora... P'ra quê! P'ra quê! 

Houve um baque como de corpo que rolasse e 
um choro lastimoso, soluçado. O leproso ficou um 
momento á porta, de cabeça baixa, ouvindo, e, por 
entre as pálpebras, em chagas, as lagrimas rebenta- 
ram-lhe grossas. Deu d'hombros, resignado, e, len- 
tamente, sem sentir o frio da noite, tornou por onde 
viera. A geada começava a polvilhar os campos. 



oio 



A CLDADlí MARAVILHOSA 



100 



EMIGRANTES 

Ainda que se reconheçam nesta revelação não 
me poderão accusar de indiscreto as duas gentis se- 
nhoritas que se sentaram adossadamente a mim, na 
barca Imbuhy, em que viajamos para Nictheroy. 

Se falavam tão alto não era, de certo, para que 
as suas palavras ficassem em segredo confidencial. 
Não só eu as ouvi : ouviram-nas — e com que gáu- 
dio 1 — quantos se lhes avizinhavam. E uma senhora 
gorda, de refegos desbordantes, que levava ao coUo 
um embrulho, no qual o menos atilado fiscal desco- 
briria, de pronto, contrabando, não só pelo remexi- 
mento como por um surdo cainhar, que ella assusta- 
damente abafava, por vezes, fechando a carranca, 
esmoía resmungos contra certas phrases que lhe pa- 
reciam impróprias de lábios virtuosos. 

Uma das senhoritas, loura (louro de oxy génio) 
logo ao desatracarmos, dirigiu-se a outra, typo es- 
pigado e petulante de morena, interrogando-a com in- 
teresse : 

— E' verdade que vais deixar o Banco? A inter- 
pellada voltou-se de golpe, encarando a curiosa com 
expressão de espanto, como se sentisse injuria na 
pergunta. Por fim, com um leve encolher de hombros, 
tornou á primitiva attitude. A outra insistiu: 

— Houve alguma coisa? 

S Coelho Netto — A Cidude Maravilhoici. 



110 COELHO iNETlO 



— Nada. Estou farta! desabafou com tédio. Man- 
teve-se um momento calada, busto erecto, rigida, o 
olhar ao longe, vago. De repente, como se desatasse a 
língua, voltou-se para a companheira e poz-se a falar 
com volubilidade hysterica, agitada: 

— Não nasci para isso. Pensei uma coisa e ella 
é outra. Vou deixar o Banco, sim. Vou! Torno ao que 
era, a mim, á minha casa, aos meus, contentando-imte 
com o que me puder dar meu pai. Queres que te 
diga? Não foi por ambição nem por vaidade que me 
empreguei. Não sou de luxos. Tanto me faz andar 
de seda como de cassa. Empreguei-me por mera cu- 
riosidade, para conhecer o mundo dos homens, a vida 
que levam, como trabalham, como resolvem os gran- 
des negócios, o que fazem nesses empórios de rique- 
za, os taes Bancos. Para satisfazer esse capricho 
lancei-me á aventura, deixando os meus hábitos, os 
meus livros, os meus bordados, o meu piano, as mi- 
nhas amiguinhas, como os que abandonam a Pátria 
para tentar fortuna em terra alheia. Offereceram-me 
o lugar no Banco. Aceitei-o. Antes de apresentar-me 
— porque só devia começar a trabalhar no principio 
do mez, — não imaginas os castellos que fiz...! Lem- 
bras-te do pequeno Manuel a contar a sua partida 
da terra, as grandes esperanças de enriquecer para 
voltar á sua gente carregado de ouro; e o que sonha- 
va a bordo, durante a travessia? Pobre pequeno! Pois 
o mesmo me aconteceu. Eu não pensava em outra 
coisa senão no Banco, via-o abarrotado de moedas 
de ouro, cheio de maços de cédulas... 

— Até ficaste orgulhosa, confessa. 

— Orgulhosa? Eu?! 

— Sim falavas com a gente por cima dos hom- 
bros. 

— Estás enganada. Vocês, sim. Vocês é que co- 
meçaram a cumprimentar-me por favor. Muitas até 



A CIDADE MARAVILHOSA lil 



evitavam-me, fingiam que não me viam, viravam-me, 
a cara, como se eu tivesse dado um mau passo. Eu, 
não. Orgulhosa, eu! Coitada de mim! Mas fui, tomei 
conta do lugar. O qiTe senti naquella balbúrdia foi 
o mesmo que sentiu o Manuel quando se achou 
nesta cidade tumultuosa cercada de montanhas, com 
este céu muito azul, este sol muito quente, todo este 
esplendor tropical. Que differença da sua aldeia pe- 
quenina e quieta. E o coitadinho, quando nella fala, 
arrasam-se-lhe os olhos dagua. E que faz elle? anda 
por ahi de tamancos, arrependido da aventura em 
que se metteu. 

— Ora! Acabará rico, como os outros. 

— Os outros... Os outros são poucos, minha ami- 
ga, esses mesmos... 

Ficou um momento immovel, d'olhos em êxtase. 
E continuou: Deu-se o mesmo commigo. Ouro... cé- 
dulas... Pois sim! Aquillo é como um cortiço de abe- 
lhas, cujo trabalho ninguém vê. Sabe-se lá como el- 
les ganham... O dinheiro entra e sahe, exactamente 
como as abelhas no cortiço, mas o trabalho!... O tra- 
balho é segredo dos homens. 

Que sou eu naquella balbúrdia? uma igual? não 
— uma estrangeira em terra alheia, uma mulher en- 
tre homens. Intrusa. Não te illudas. EUes aceitam-nos, 
como o fazendeiro aceita o colono para o trabalho 
da terra. E a morena suspirou balançando a ca- 
beça: Que saudade da minha Pátria! 

— Que Pátria? Pois estás no Brasil e tens sau- 
dade da Pátria? 

— Eu digo: a minha, a nossa Pátria, a Pátria 
da mulher, entendes? a nossa casa, a nossa gente, 
tudo que é nosso, o lar onde nos criamos, o acon- 
chego domestico. Nós somos de outra região e, entre 
os homens, por mais que façamos, nunca chegaremos 
ao que elles são. Entramos-lhes pelos dominios, co- 



H2 COELHO NKTTO 



mo OS colonos entram pelas terras, sempre, porem, 
havidos como emigrantes. Aproveitam-se do nosso tra- 
balho, mantendo-nos, porem, á distancia. Volto á Pá- 
tria, torno aos meus. Pobre, mas feliz. 

— Emigrantes por emigrantes elles também o 
são. Quem emigrou primeiro: a mulher ou o homem? 
E os lindos olhos azues da loura fagulharam chispas. 
Responde. — Quem emigrou primeiro? Foi elle, o ho- 
mem que invadiu o que chamas a Pátria da mulher. 
E como? Em primeiro lugar eliminando a barba, 
raspando o bigode, valendo-se dos nossos artificios 
— cosméticos, corantes, depilatorios, vernizes: fre- 
quentando manicuras, corrigindo as sobrancelhas, efe- 
minando-se, emfim. E hoje ahi o tens recorrendo, 
até, a tafularias que desprezamos, como o espartilho, 
com que se arrocha, para que llie caiam bem os ca- 
sacos cintados, e alargando tanto as calças que, em 
breve, estarão transformadas em saias. Se elle en- 
tra pelo que é nosso, se emigra para a nossa Pátria 
não tem direito de nos oppôr barreiras. 

— Pois sim... Mas a sociedade, apezar de to- 
das as propagandas feministas e libertarias, continua 
ainda aferrada aos velhos preconceitos. Uma moça 
que ande só, sujeita-se a commentarios. E a loura a 
rir: 

— Só!? Nmica andamos tão acompanhadas co- 
mo agora. 

— Sim, mas acompanhamentos que nos compro- 
mettem... 

— Se os não repellimos. 

— Repellir é provocar escândalo e no escândalo 
sempre a mulher é a prejudicada, por ser a mais 
fraca. Deus, quando separou os sexos, foi para que 
cada um tivesse o seu destino, a sua vida á parte. 

— Ora... separou!... Separou-os para que a lei 
íia attracção universal os unisse. 



A CIDADE MARAVILHOSA 113 



A gorda, do cachorro (porque o contrabando, 
como certamente perceberam, era um lulu) levantou- 
se arrebatadamente com um muchôcho de revolta, 
resmungando contra os costumes soltos de hoje em 
dia. A barca, como se também protestasse, apitou 
roufenha, resvalando aos esbarros pela amurada da 
ponte. As duas senhoritas puzeram-se de pé, sacu- 
dindo-s9 espane jadamente. Ainda pude ouvir a mo- 
rena: 

— Não, minha amiga — entre os homens, por mais 
que façamos, havemos de ser sempre tratadas como 
emigrantes. E a loura, muito espevitada: 

— Sabes que te falta? audácia. Na vida, sem au- 
dácia nada se faz. Quantos emigrantes estão hoje se- 
nhores das fazendas onde entraram como colonos... 

Nada mais pude ouvir porque, na lufa-lufa do 
desembarque, as duas desap pareceram na multidão. 



o|o 



114 COELHO NETTO 



A VIDA 

Estirando-se, de pernas cruzadas, em um dos 
amplos reclinatorios do salão egypcio, Savio accendeu 
um charuto e, sorrindo a Hortensio, disse: 

— Não leves a mal o meu vicio. Também o 
teu ibis está fumando. E' verdade que no tempo de 
Ramsés ardiam incensórios, mas não se conhecia o 
havano; a fumaça, porem, é velha, nasceu do fogo, 
quando a primeira centelha crepitou inflammando uma 
folha secca; nasceu do fogo como a sombra nasce 
da luz. Demais, se quizessemos obedecer rigorosa- 
mente a enscenação pharaonica, que este recinto es- 
tranho impõe, teríamos de recorrer aos figurinos do 
Museu de Gizeh, em vez de nos vestirmos pelos 
moldes do Rabello. 

— Não vou tão longe com as minhas exigên- 
cias. Faço questão do ambiente, isso sim, o mais... 
Nesta espécie de hypogeu isolo-me do século atra- 
vancado e ruidoso que tumultua lá fora. Aqui nem o 
próprio sol penetra — illumino-me a lâmpadas abscon- 
sas. Sou uma espécie de alchimista incluso, e como 
affirmam que o silencio é de ouro, esse é o ouro 
que busco. Quanto ao fumo do ibis, bem sei que 
te não agrada, garanto-te, porém, que é o authen- 
tico kyphi, que ardia nos defumadores e nas caçou- 
las dos templos. Achei-lhe a formula em um papyrus 



A CIDADK MARAVILHOSA 110 - -.-^0 



ll^r ^^^ 



funerário e mandei-a a Bichara, em Paris, para que 
a reduzisse a pivetes. Achas o aroma demasiado forte, 
estitico...? Que queres, meu amigo... a culpa é nossa, 
que degeneramos : na força, nas faculdades, nos sen- 
tidos, em tudo. Que criamos nós? nada, aproveita- 
mos o que nos legou o passado, como os industriaes 
aproveitam o que lhes dão lavradores, pastores, mi- 
neiros e quantos extraem da natureza a matéria 
prima. Aqui não me preoccupo com o tempo, não 
ouço as horas, como se vivesse na eternidade im- 
passível. Sonho... 

— Sonhas... Pois, meu caro, o teu sonho é o 
meu pesadelo. 

— Porque? 

— Porque mal appareço em um salão, como sa- 
bem que sou o teu amigo mais intimo, logo me cer- 
cam curiosos interrogando-me sobre a tua vida myste- 
riosa, pedindo-me informações do que fazes; se é 
verdade que habitas um subterrâneo; se o teu salão 
de trabalnb reproduz a nave de um sanctuario de 
Anmion; se tens comtigo crocodilos, escaravelhos, ser- 
pentes e deuses com cabeças de bichos. Por ahi 
já te chamam Tut-Ankh-Amon. Afinal que te custa 
attender a essa gente, satisfazendo-lhe a curiosidade? 
Porque não offereces um chá, uma libação qualquer á 
sociedade elegante, entre estes hyeroglyphos, estas 
tapeçarias fantásticas e toda a cerâmica vetusta que 
aqui tens, aproveitando esse hediondo anão Bess como 
porta charutos e cigarrilhas? Em vez de jazz-hand 
porias aqui umas tangedoras de sambuca e de néfer 
e umas duas dançarinas e seria um successo. Res- 
taurarias o passado livrando-me, ao mesmo tempo, 
dos importunos, que me não dão tréguas. 

— Estás louco! Seria uma profanação e tu sabes 
que os deuses egypcios são terrivelmente. vingativos. 



116 COELHO NETTO 



Não! Isto aqui é sagrado. Fiz um ambiente ideal para 
viver em paz. 

— Uma camará de morte...? 

— Sim. A morte é imponente e serena como a 
estatuária. Aqui tudo é ideal, tudo é sonho. Passo 
semanas nesta clausura, já passei um mez, vivendo 
como no tempo de Sesostris. 

— E que tal? 

— A vida em, si é a mesma, nós é que a modi- 
ficamos, exteriormente apenas. O tempo é invariável, 
assim a vida. Os relógios, sim, esses é que apre- 
sentam aspectos vários, tanto, porém, regula um sim- 
ples despertador de nickel como um carrilhão de bron- 
ze, com o mostrador de prata e as horas em tauxias 
de ouro. O que se deve buscar na vida é o que ella 
tem em essência — poesia. Lá fora eu viveria como 
toda a gente; aqui faço uma existência á parte, só 
minha. Sonho. Ahi onde estás deitado tive eu, ha 
dias, uma visão estranha. E já agora, como Schope- 
nhauer, não duvido das apparições. Não sei se foi 
sonho, delirio de febre, exaltação cerebral ou sugges- 
tão deste ambiente, affirmo-te, porém, que vi e, o 
que é mais, ouvi a apparição como te estou vendo e 
ouvindo a ti. Afinal, neste mundo delusorio, que é, 
em summa, a Verdade? 

O próprio Christo não a definiu e o enygma ter- 
rível ahi está no caminho da Vida, á espera de um 
Édipo que o decifre. 

A Verdade tanto pôde ser o que se nos mani- 
festa á vista, perceptível aos sentidos, como o que 
apenas se nos afigura vagamente em impressões. Toda 
a nossa vida, o que chamamos Vida, que é um equi- 
líbrio acima da Morte, o tal abysmo, cujas rampas 
alcantiladas ninguém vingou jamais, que é, em sum- 
ma? acção mechanica ou inspiração? Vive-se do exer- 
ricio da matéria, da combustão do sangue, da electri- 



A CIDADE MARAVILHOSA 117 

cidade nervosa ou... por prestigio da alma? Quem 
sabe lá! Vive-se.,.! Que dirias tu de um homem que 
tentasse estudar o espectro á meia noite, procurando 
o clarão do sol á luz de uma candeia? 

— Diria que era um louco. 

— Pois, então, meu amigo, recolhe a um hospicio 
todos os physiologistas, porque outra coisa não fazem 
elles com a sua Sciencia senão o que faria tal louco 
diogenico. Não é na morte, no cadáver, que elles 
estudam a Vida? 

As illusões equivalem-se : tanto é estudar a Vida 
na Morte como procurar, com' uma candeia, o sol á 
meia noite. Não nos illudamos, meu amigo; a Ver- 
dade ainda não foi achada e talvez nunca o seja. 
Vivemos, eis tudo. 

Quando nos sentimos acossados pela curiosidade 
e perseguidos pelo Temor na escuridão da ignorân- 
cia, batemos desesperadamente á porta de bronze do 
Mysterio, bradando por Deus. Quem nos responde? a 
nossa própria voz em rechaço, o echo reboante do 
nosso clamor ao qual chamamos supersticiosamente 
oráculo. Não é isso? Já alguém conseguiu passar 
além de tal porta? Ninguém! 

A Religião é uma bóia que fluctúa no oceêuio 
da Vida, mas como toda bóia — vasia. Imaginamos 
salvar-nos pela Fé, que é um vácuo, dentro do qual 
a eterna Esperança põe a nossa salvação em Deus. 
A bóia resiste aos mais desabridos temporaes, sem- 
pre á tona das vagas. Que é que a mantém? o vasio. 
Ponham-lhe dentro um pouco de peso, digamos: ra- 
ciocínio, e irá ao fundo immediatamente. 

— Estás sceptico, homem de Deus. 

— Não, não estou; não posso estar, porque não 
sou. Creio em alguma coisa, numa Força occulta, im- 
passível, não Deus. Deus, segundo o concebem os 
Clientes, seria justo e a Vida é indifferente — nem 



118 COELHO NETTO 



bôa, nem má, Vida' apenas, como a terra é terra, 
como o mar é mar. Deus é um polo magnético que 
nos attrahe, e eu mareio por Elle, sem me preoc- 
cupar com o que seja. Quanto a formulas religiosas, 
dogmas, revelações, evangelhos, fabula, e doutrina, em- 
íim, aceito-os como poesia de consolação, só isso. 
Elevo-me em aspiração como a planta busca o sol. 
A minha religião é um êxtase. Mas tornemos ao 
nosso caso. 

— A visão... 

— Visão... pois seja como dizes. .E que é a luz? 
Emfim... foi tudo fantasmagoria, miragem, delirio dos 
sentidos, em uma palavra: fantasia. Mas que eu vi e 
senti... garanto! 

— E que viste, afinal? 

— A Vida e a Morte, o direito e o avesso do 
Destino. 

— Viste? 

— Vil 

— E então? A Vida sei eu o que é. E a Morte? 
Que tal? Horrenda, não? como a que appareceu ao 
lenhador da fabula? 

— Não. Tudo que ha de mais simples e de mais 
physiologico. A Morte que me appareceu, a Morte 
que eu vi... era a Vida. 

— Homem, francamente... começo a achar-te ex- 
travagante. 

— Dize antes: amalucado. Pois, meu amigo, se 
te pareço doido, olha que o não são menos do que eu 
os sábios que nos andam a ensinar problemas da 
vida em cadáveres. 

Não vejo em que differem elles dos arúspices e 
outros sacerdotes de agouro, que liam os fados nas 
entranhas das victimas. Mas vamos ao assumpto. So- 
nho ou delirio, o caso é que me achei transportado 
ao vestíbulo de majestoso edifício que, pelas linhas 



% £ 



A CIDADE MARAVILHOSA 119 



architectonicas, me pareceu um templo, todo de már- 
more, cercado de columnas de capitel florido e re- 
luzente como de ouro. A poucos passos, entre arvo- 
res de ramas em filipendulas, que se espalhavam ao 
vento á guisa de cabelleiras verdes, um rio, ou me- 
lhor — um córrego de aguas transparentes, nas quaes 
se cruzavam peixes de um brilho irradiante e mollus- 
cos em forma de flores iam e vinham, abrindo e 
cerrando as corollas, defluia com accento tão har- 
monioso como se lhe resoassem harpas na corrente- 
za. E o aroma das flores era tão intenso que me 
atordoava. Illusão, dirás tu... Mas que poderosa illu- 
são seria essa que chegava a todos os • sentidos, 
impressionando -os? Assim como eu via, não só o 
que me cercava, como ainda a vista se me estendia 
dilatadamente abrangendo todo o circulo cerúleo do 
horizonte, como sentia o perfume das flores e o 
cheiro seivoso do arvoredo e das hervas, ouvia o 
tremulo som dagua, tocava sensitivamente as colum- 
nas marmóreas, tudo como na realid-ade, com a con- 
sciência limpida que não se tem no sonho e menos 
ainda em delirio. 

Desse templo vi eu sahir uma figura admirável, 
branca como se fosse talhada na mesma pedra pen- 
thelica que reluzia em todo o edifício, ao clarão do 
sol. Tomei-a por uma sacerdotisa. 

Levantei-me deslumbrado, antes, porém, que lhe 
dirigisse a palavra, ella sorriu-me, e sorrindo falou-me. 
E a sua voz ficou docemente soando aos meus ouvi- 
dos, como perdura, ondulando no ar, de leve, a tre- 
mula vibração das cordas de uma cythara: 

«Eu sou a Vida, disse-me. Pede-me o que qui- 
zeres en^íquanto me tens diante de ti, fá-lo, porem, 
depressa) porque eu não paro. » 

Tal, porem, era o meu enlevo que não pude 
pronunciar palavl"a e quando, sahindo do arroubo^ 






120 COELHO NETTO 



T 

riMih 



bradei á apparição : « Leva-me comtigo ! » as riMihas 
palavras cahiram sobre a sua sombra, que era... 

— A Morte. 

— Sim, a Morte. A Vida ia longe, muito longe! 

— Tens razão em affirmar que não foi sonho 
o que viste. Nada ha mais real do que isso que des- 
creveste. Todos nós ficamos deslumbrados diante da 
Vida e só nos lembramos de lhe pedir favores quando 
ella vai longe o a Morte, que é a sua sombra, se 
nos oppõe, funérea. Tens razão em affirmar que não 
foi sonho. Também eu estive no tal templo, e vi a 
Vida, mas quando dei por mim e lhe pedi que me 
levasse comsigo... a Vida anda tão depressa... tão 
depressa! que o meu pedido quem o ouviu foi a 
sua sombra. 

— E a todos acontece o mesmo. 

— A todos! porque todos, emquanto ella passa, 
embebidos nella, tudo esquecem e quando se lem- 
bram de lhe pedir favores... já ella vai longe, muito 
longe! e quem, por ella, attende é a sua sombra: 
a Morte. 



do 



r 



A CIDADE MARAVILHOSA 121 



O COLLECCIONADOK, 

A arca de Noé seria um modelo de ordem se a 
comparassem ao authentico casarão colonial de Me- 
roveu Barroso, descendente, conforme prova a sua 
ramalhuda arvore genealógica, de Meroveu, o famoso 
rei franco, que derrotou Attila nos Campos Cata- 
launicos. 

Para ter-se uma idéa do cháos bastaria visitar-se 
aquella barafunda heteroclyta, onde jazem enterradas 
duas fazefidas, uma de café outra de canna, seis 
prédios de solida construcção e não sei quantas apó- 
lices da divida publica e acções de bancos e 
companhias. 

Desde o jardim, em matto, até o socavão do 
forro, tudo é antigualha ou exquisitice: plantas exó- 
ticas, vasos retirados de escavações, fósseis, escassi- 
Ihos de mármore e granito, ferros velhos, animaes, 
uns vivos, outros empalhados; esqueletos de bichos 
desconformes, armas de silex, de bronze, cerâmica, 
múmias egy peias, tijolos assyrios. 

Nos corredores, nas salas amplas, em quartos 
e alcovas e até na cozinha, em armários, vitrinas, 
pelas . paredes, em pilhas ou em feixes uma arre- 
cadação multifaria de objectos os mais bizarros, des- 
de papuzes entresachados de pérolas (um delles traz 



122 COELHO NETTO 



um cartel com o nome de Rhódope), até sellins, sendo 
o mais notável o de Tamerlão, e tapeçarias, dixes. 
Ídolos, livros. 

Das paredes não se vê um palmo livre, tantos 
são nellas os exemplares de porcellanas, telas, azu- 
lejos, pelles de bichos, panóplias varias. O que, po- 
rem, ha de mais interessante e precioso nessa im- 
mensa Capharnaum é a collecção de autographos. 

Meroveu tem ali originaes de todas as grandes 
celebridades do mundo e, em armário especial, tran- 
cado a sete chaves, o recibo que Adão passou ao 
Senhor quando recebeu o Paraiso, o diário de Noé, 
durante os quarenta dias do diluvio; a harpa de 
David, alguns fios da cabelleira funesta de Absalão e 
a espada com que Judith matou Holophernes. 

Taes preciosidades bastam para provar que Me- 
roveu, em vez de viver no casarão colonial de Ca- 
tumby, onde se agitavam e disputavam chegando, 
ás vezes, a dentadas e taponas, dezoito mulheres de 
raças e typos differentes (porque elle também collec- 
cionou exemplares raros do sexo feminino), devia, 
ha muito, achar-se recolhido a uma cella do Hos- 
pício e assim a herança gorda não se lhe teria es- 
coado das mãos pródigas em acquisições de tantas 
bugigangas e o bairro de Catumby não tresandaria 
tanto a naphtalina e camphora, por amor das peças 
susceptíveis de serem atacadas pelas sevandijas roa- 
zes e elle não chegaria á miséria a que chegou. 
Mais fácil, de certo, seria andar no labyrintho de 
Creta do que mover-se alguém naquella trabusana. 

Meroveu não admittia que se esbarrasse em um 
movei, que se acotovellasse um vaso, que se pisasse 
mn tapete, que se roçasse por uma alfaia. No meio 
daquella caçaria, diante daquellas bugigangas exigia 
Meroveu que os visitantes se portassem como devotos 
num templo. Infelizmente, porem, a doença, que, ha 



A CÍUADE MARAVILHOSA l'2o 

muito, rondava o pobre liomem, atirou-o á cama, á 
cama, digo mal, a um estrame, porque, ainda qne, 
para comer ou escrever, se sentasse em uma vértebra 
da baleia que enguliu Jonas e fizesse de mesa outra 
de um plesiosaurio, não se deitaria em uma das 
suas camas, por serem todas exemplares rarissimos 
de estylos vários. 

Era num estrame que dormia e nesse estrame 
fui eu encontrá-lo jejuno, sem vintém e sem credito 
para um pão ou para uma capsula ou um compri- 
mido na pharmacia. 

Achei-o só, rebolcando-se no estrame no meio 
do seu vasto arcliaismo. 

Pobre sonhador! Misero visionário! 

A collecção feminina, mulherio sem ideal, aos 
primeiros rebates da miséria, atirou-se, de faca em 
punho, á bicharia viva, e comestível, e foi loma de- 
vastação nos aviários e em certas gaiolas. Os car- 
nívoros repugnantes entre-devoraraiA-se nas jaulas e 
o que ficou por ultimo morreu inanido, sorte que, 
igualmente, tiveram, depois de urrarem e aulirem 
dias e noites seguidas, alarmando o bairro, os her- 
bívoros. Quando não houve mais recurso a collecção 
feminina debandou, cada qual a um rumo, e Mero- 
veu ficou como Ugolino na torre. 

Felizmente cheguei a tempo porque o coitado, ao 
ver-me á sua cabeceira rasa, tomando-me as mãos 
ambas, disse-me por entre lagrimas: 

— Ah! meu amigo, se não viesses hoje não sei 
que seria de mim porque, em verdade te digo — eu 
estava a pique de commetter uma profanação. 

— Tui? 

— Eu, sim. Eu!! Sabes lá o que é ter fome. 
Hontem á noite (delirio, com certeza) comecei a ver 
tudo isto a mover-se em volta de mim, offerecendo- 



j.^;.i»?its.i:t.-jJ.."; 



124 COELHO NETTO 



se-me. Lembraste da tentação de Saiito Antão, no 
grande livro de Flaubert? Pois foi mais ou menos 
o que se passou commigo. O boi Apis, que ali está, 
desceu vagarosamente do altar e, a passo curto, veiu 
vindo, veiu vindo até que se plantou diante de mim 
e mugiu. E vi, então, que elle se desmanchava em 
petisqueiras: em ensopado, em picadinho, em almôn- 
degas e, por fim, em roast-beef. Depois foi Isis, a 
vacca divina, que me veiu offerecer o leite das suas 
tetas. Imagina tu... eu mamando o mesmo leite que 
coalha, lá em Cima, a Via Láctea. Depois... o peixe 
Oannes e, por fim, como sobremesa, um cabaz de fru- 
tos da Arvore da Sciencia, da qual tenho um galho, 
comprado a um turco, em Jerusalém. Como eu repel- 
lisse de mim todas essas comedorias, aquella múmia, 
a primeira á esquerda, na entrada, que é de uma prin- 
cesa, que morreu donzella, filha de Ousitersen 1.° 
ou de outro pharaó da mesma dynastia, desligou-se 
dos seus liames, levantou-se do sarcophago e veiu 
deitar-se conmaigo nesta esteira immunda, acarician- 
do-me, dizendo-me ternuras... 

— E tu... 

— Eu! Que julgas tu de mim? Eu respeito a 
minha collecção. Repelli-a, aconselhei-a, disse-lhe que 
tivesse juizo, que se deixasse de asneiras. E ella 
tornou ao sarcophago. E aqui estou eu, como vês, 
abandonado de todos os vivos, entre trastes velhos 
e outras burundangas, coisas interessantes para mim, 
mas que, para os outros, não valem um real. Tenho 
ali um dos crocodilos que eram adorados em Thebas. 
Mandei offerece-lo por um kilo de carne. O açou- 
gueiro recusou-o. E' assim, meu amigo. E, inclinando 
a cabeça encanecida, suspirou: E dizer-se que esban- 
jei uma fortuna nisso que ahi está, que me privei de 
todos 03 gosos da vida para cercar-me de antigualhas 
pelas quaes, estou certo, não acharei hoje a decima 



T 



A CIDADE MARAVILHOSA 125 



parte do que me custou o Diário de Noé ou o Recibo 
de Adão... 

— Mas dize com franqueza: Tu acreditas na au- 
thenticidade desses documentos? 

■ — Se queres que te diga a verdade... acreditar, 
não acredito, até porque tanto Adão como Noé eram 
analphabetos e no tempo delles não havia papel 
nem tinta. 

— E porque, então, conservas esses gatafunhos 
e o resto? Porque não vendes tudo isso em leilão. 
E' possível que appareçam americanos. 

O pobre homem encarou-me pasmado e, depois de 
um momento de espanto, estirando vagarosamente o 
braço magro, mostrou-me sobre uma commoda D. 
João V, uma imagem, diante da qual ardia, em últi- 
mos vasquejos, uma lamparina de azeite. E disse: 

— ■ Está ali uma imagem, que eu venero. E' Deus? 
Não. E' um symbolo: é ella, entretanto, que me con- 
forta a alma nos momentos de desanimo. Vender... 
Prefiro morrer á mingua com os meus objectos, olhan- 
do-os até que, de todo, se me apague a vista nos 
olhos. Foram as minhas illusões, os meus ideaes, o 
meu grande sonho, o melhor da minha vida. Que 
importa que sejam falsos se eu os amo. O próprio 
amor... 

...Pobre! Como esse, quantos colleccionadores de 
illusões morrem por ahi á mingua na opulência ima- 
ginaria que accumularami 



oio 



Coelho Netto — -4. Cidade Maravilhosa . 



126 COELHO NETTO 



PLANTAS DE VASO 

— Qual psychologia! Deixemo-nos de illusões. A 
vida é governada pelo instincto, por elle apenas, que 
é o senhor absoluto da matéria. O mais não passa 
de convencionalismo, attitudes cerimoniosas que des- 
apparecem na intimidade. 

— Dás razão a Epicuro. 

— Toda a razão. Foi justamente a tal psycho- 
logia que, por inducção, me levou a preferir Eugenia 
á Delmira, mais nova, mais bella, mais interessante 
em tudo e por tudo. Submetti as duas á demorada 
analyse e optei por Eugenia, embora com violência 
da minha inclinação, pelos motivos que te vou expor. 
Entre mim e Delmira havia a differença de nove an- 
nos e na corrida do Tempo, meu amigo, ganham 
os que vêm atraz. J^ 

— E' o « perde -ganhai 

— Sim. Mas o que, principalmente, influiu na 
minha preferencia foi a situação de Eugenia, em tudo 
igual á minha; dois annos apenas mais moça do que 
eu, ambos viúvos, cada qual com um filho. Ella tra- 
zia-me uma lembrança do primeiro matrimonio; eu 
levava commigo um legado da minha finada esposa. 
Assim, em igualdade de condições, não poderia haver 
desintelligencias entre nós — dividiríamos os nossos 
corações com as duas crianças. 



A CIDADE MARAVILHOSA 127 



— Absurdo. 

— Como absurdo? Absurdo, porque? 

— Porque? Vou responder-te valendo -me, tanto 
quanto possa, de uma analogia. A terra, symbolo 
materno, se lhe arrancares uma arvore, mostrará a 
cova em que a mesma se gerou e cresceu. O plan- 
tador, esse, meu caro, muda de um para outro ponto, 
indifferentemente, a arvore que plantou, empregando 
nisso um pouco de esforço apenas. Na terra, da qual 
foi arrancada a arvore, ficam sempre restos de rai- 
zes, que, ás vezes, repontam; o lavrador não guarda 
nas mãos mais do que um pouco de terra que lava 
no primeiro córrego ou bicame. O amor maternal é 
um sentimento egoístico, porque é o amor de si mes- 
ma, ou digamos — instincto de conservação. O amor 
paterno pouco mais é que um habito. 

— Um habito...! Dás, então, á mulher o prin- 
cipal papel na geração? 

— Sem duvida. A terra é feminina, meu caro. 
O trabalho é masculino. A terra fica; o trabalho 
passa. O lavrador pôde ter á sua conta todo um po- 
mar; a leiva dedica-se apenas á arvore que lhe nas- 
ceu. E' a^terra. que gera, que nutre, que ampara, 
que infiltrei seiva á planta até que, abrolhando, co- 
mece a receber os benefícios do ar e da Iftz. O tra- 
balho opera exteriormente; a terra deixa-se rasgar 
nas entranhas para que as raizes se dilatem, dando-se 
generosamente em força, em seiva, em humidade, em 
calor á arvore para que floreça, frutifique e se opu- 
lente cada vez mais. O trabalho exerce-se num ins- 
tante e caminha; a terra fica. A mesma cova não aga- 
salha mais de uma arvore e se nella puzeres duas 
vingará a mais forte, a que tiver raizes mais fundas. 
E' natural. 

— Achas, então, natural que Eugenia maltrate 
minha filha? 



t 



128 COELHO NETTO 



— Que a maltrate, não; mas que a estime como 
ao* filho... tem paciência. Se encarares o caso á luz 
da lei natural, que é a lei do instincto, chegarás a 
cojivicção de que até lhe assiste o direito de repulsa. 

— - E a reciproca? Se eu, por minha vez... 

— Não lia aqui reciproca. Tu és homem, lavra- 
dor; podes cuidar de muitas arv^ores; ella, não. Ella 
é mãi. Se tivesse perdido o filho e tu lhe appare- 
cesses com a tua pequena, estou certo de que ella 
a adoptaria contente. Alice encontraria um coração 
aberto para recebe-la, com a seiva á flux drenada 
pelo amor e tomaria a si, aproveitando-a, toda a 
ternura que era dada ao que morrera, como uma 
planta posta em cova de onde houvesse sido arran- 
cada outra, viveria da força, de todo o vigor do solo 
orfanado. 

Dou-te exemplo melhor, tomado da própria ma- 
ternidade. 

Foi o caso com uma parenta minha. 

Criava ella o seu primeiro filho, robusto e lindo 
menino, que deveria ser meu afilhado, quando, aos 
cinco mezes, em uma imprudente viagem a Petrópo- 
lis, em manhan de chuva, apezar de todos os agasa- 
lhos, o pequeno resfriou-se. Manifestou-se rápida e 
violenta pneumonia, contra a qual tudo foi baldado, 
e em. dois dias, sem tempo de perder a robustez e 
as cores desappareceu o enlevo do feliz casal. Não 
podes imaginar o que foi esse desastre para a pobre 
mãi. Dentro, porém, do desespero, em que esteve 
a pique de enlouquecer, a natureza impassível, com 
as suas abelhas mysteriosas, continuou a encher os 
dois favos de mel, o mel vital em que entra muito 
da alma suave das mais. Se as lagrimas lhe corriam 
em fios dos olhos, o leite entumecia-lhe apojadamente 
os peitos, extravasando como de dois vasos quebra- 
dos, e fazendo-a soffrer, não só porque recordava o 



A CIDADE MARAVILHOSA 129 



que se fora, como ainda por lhe provocar dores incom- 
portáveis e inflammação com ameaça de erysipela. 

A familia recorreu á sucção artificial, essa, po- 
rém, não deu resultado, aggravando, ainda mais, o 
soffrimento. Foi, então, que alguém se lembrou de 
que na vizinhança, em certa estalagem, havia uma 
pobre mulher, enferma, cujo filho ia perecendo á 
mingua, tão desnutrido por miséria que, com qua- 
tro mezes, não chegava a pesar três kilos, em ossos 
e pellancas. 

Ao receber a criança — tal era o seu aspecto 
langanhento, tal era o mau trato que se lhe notava, 
não só nas vestes como no próprio corpo molle e 
lívido — a minha parenta teve asco de achegá-la ao 
coUo e dar-lhe o seio á boca. Se o fez não foi j)or 
piedade do inanido, mas como se applicasse um re- 
médio repugnante para allivio das dores que a tor- 
turavam. 

Passando da miséria de um collo estanque á 
fartura de dois peitou transbordantes tal foi a trans- 
figuração que em uma semana se operou na criança 
que a mãi, ao vê-la, acreditou em um milagre, não 
podendo attribuir tal viço a forças do leite humano. 

E a minha parenta começava a afeiçoar-se ao 
pequenito, que se tornava lindo, quando, um mez ou 
pouco mais depois de o haver tomado, sentiu que o 
amor entranhadamente se lhe transmudava em vida, 
começando, desde logo, o pequeno a soffrer a influen- 
cia do outro, do que se gerava, e tal foi ella que, 
se o não desmamassem, aquillo mesmo que o resus- 
citara te-lo-ia matado. Em tal caso não foi o ciúme 
da mulher, não foi a alma materna que se insurgiu 
contra o intruso, foi o próprio corpo que se negou 
a dar a outrem o que pertencia unicamente ao novo 
ser que nelle se gerava. Foi a natureza a envenena- 



130 ^ COELHO NETTO 



dora, foi ella que, em beneficio próprio, transmudou 
o elixir de vida em philtro de morte. 

Se assim procede instinctivamente a Natureza, 
como queres tu que a Mulher tenha outro procedi- 
mento? A mãi é a defensora do filho, contra tudo e 
contra todos. Madrastas e amas, ainda as melhores, 
são, para enteados e crias o que são as tinas para 
plantas. Tiradas do viveiro onde nasceram e postas 
em vasos as plantas não medram, tudo têm por me- 
dida: desde o ambiente, onde não se podem desen- 
volver, até os elementos que lhe dão viço — o ar, o 
sol, a chuva, dos quaes apenas gosam quando algu'? 
mão bemfaseja as tira da sombra em que se estiolam. 

Queres o meu conselho? cuida, tu mesmo, da 
tua planta orfan, fazendo do teu coração o vaso em 
que ella viva. Quanto ao mais... tu o disseste: a 
vida é governada pelo instincto. Se assim é, meu 
amigo, resignemo-nos, nada de attentarmos contra go- 
vernos, como fazem os revolucionários. 



do 



A CIDADE MARAVILHOSA 131 



UM CASO DE LOUCURA 

— Quer o amigo a minha opinião? O Dr. Cla- 
rimundo está doido. 

— Doido varrido, senhor vigário. Varridissimo ! 
Digo-lhe mais: doidos estão todos: elle, a menina, 
os pais da menina... Todos! Onde se viu uma coisa 
Assim? Um homem quasi septuagenário (porque o 
Clarimundo é mais velho do que eu uns oito ou dez 
annos. Eu ainda estudava preparatórios quando eile 
se bacharelou em S.Paulo, e eu já estou comcincoenta 
e seis feitos) casar-se com^ uma menina de dezoito 
amios? Só de doido. 

— Ou amor, quem sabe lá. Dizem os poetas que 
o coração não envelhece. Que é assim como uma 
bóia, que fluctua no Tempo, que é o oceano da vida. 

— Qual bóia, senhor vigário. Deixemo-nos de 
poesia. A velhice, quando chega, entra-nos por todo 
o corpo, nada lhe escapa. Isso de bóia pôde ser 
muito bonito em versos, na realidade é uma historia. 
O que elle está é caduco, sem tento na bola, isto 
sim. Vossa Reverendíssima não imagina como eu fico 
quando o vejo ao lado da tal menina. Porque, babão, 
como está, o coitado deu em andar com ella, levando-a 
a toda a parte: a chás dançantes, cinemas, theatros, 
clubes de foothall e até ao Copacabana... Esteve lá 
com ella, em um baile carnavalesco, fantasiado de 



> ■-■ <"• 



132 COELHO NETTO 



urso. De urso! senhor vigário. Faz pena vê-lo trôpego, 
arrastando os pés^ a acompanhar os passos ágeis 
daquella mocidade trefega. E o que se murmura 
quando elles passam, os commentarios que fazem! 
Eu sei que esse casamento é um arranjo, porque Clari- 
mundo tem alguma coisa, isso tem. Mas com que 
cara se apresentará na sociedade esse infeliz ao 
lado da mulher? Então esse homem não vê o ridi- 
culo a que se vai expor e o abysmo em que vai 
cahir? Vai ser um escândalo. Eu já recebi a parti- 
cipação do contracto nupcial. Não respondi, nem res- 
pondo. Não posso felicitar um homem que me com- 
munica a sua desgraça. Seria o mesmo dar parabéns 
a alguém que me mandasse aviso da sua resolução 
de suicídio. E é o que vai ser esse casamento — um 
suicídio, escreva o que lhe estou dizendo. Um sui- 
cídio ridículo. 

— Quem sabe lá! 

— O que, senhor vigário ! ? Vossa Reverendís- 
sima ainda tem duvidas? Gallo velho não canta, e, 
fazendo força, rebenta, estoura. E' o que vai acon- 
tecer. Vossa Reverendíssima ha de ver. 

— Gallo velho não canta... mas dá bôa canja, 
affírmou o vigário sorrindo maliciosamente. 

— Ali! sim, isso dará, canja gorda: uns quantos 
prédios, apohces, o monte-pio e outras achegas. Quan- 
to a isso não ha duvida. Mas, aqui entre nós, V. Re- 
v^erendissima não acha que é um^ pouca vergonha? 
O juiz até não devia consentir em tal casamento 
quanto mais em faze-lo. Vai-se dar com o Clarimundo 
o caso da panella de barro. V. Reverendíssima conhece, 
com certeza, a fabula das duas panellas, uma de 
ferro, outra de barro. Tendo de descer um rio propoz 
a panella de ferro á de barro ajuntarem-se, porque, 
unidas, resistiriam mais a correnteza. Aceita a pro- 
posta lá se foram as duas aguas abaixo; no primeiro 



A CIDADE MARAVILHOSA 133 

rebojo, porérri) foi a panella de ferro sobre a outra e 
com o choque desfez -se a de barro em cacos, cacos 
que foram logo ao fundo. E' o caso que se vai dar 
com o Clarimundo, que é uma panella de barro, ve- 
lha e rachada. 

— Mas o caso a que me refiro é outro. Não é 
pelo casamento que eu o tenho por doido, é por 
outra coisa, explicou o vigário. 

— Por outra coisa?! Pois ainda ha outra coisa? 

— Sim, ha. Ficou-se o vigário mn tempo, de 
olhos baixos, pensando; por fim falou: Olhe, eu lhe 
vou contar, porque não é segredo. Não foi no confis- 
sionario que o ouvi, mas na sacristia, em presença 
do coadjutor, do sacristão e de umas senhoras que 
iá estavam, e para senhoras, o amigo sabe, não ha 
segredos. 

— E que foi? 

— Foi o seguinte. Depois de fungar gostosa- 
mente uma pitada e de passar e repassar pelo nariz 
o vastissimo alcobaça, espalmando as mãos nos joe- 
lhos e inclinando-se para o Lauriano, disse pausada- 
mente o vigário: Procurou-me o Dr. Clarimundo e, 
na sacristia, emquanto eu me pariímentava, eiicom- 
mendou-me seis missas, das quaes duas seriam nu 
altar mor. Naturalmente perguntei em intenção de 
quem ou de que queria elle rezadas taes missas, e 
elle sahiu-se com esta que, se não fosse delle, que 
é um homem serio, eu teria tomado por troça de 
gaiato. 

« Senhor vigário, a vida está se tornando cada 
vez mais difficil. Por mais que um homem se es- 
force não consegue fazer sequer para a boca. Tudo 
augmenta á medida que diminue : as casas de hoje 
são verdadeiros cochicholos e custam os olhos da 
cara; o pão não dá para o buraco de um dente e 
vende-se a peso de ouro; a roupa é de má fazenda 



134 COELHO NETTO 



e justa, ou curta, se é de senhora. Um costume 
dá-nos paunos para mangas; de um vestido que 
não chega com a barra aos joelhos isso, então, não 
se fala. Para attender á crise, os patrões augmenta- 
ram o salário do operariado, o commercio melhorou 
os vencimentos dos empregados e o governo de- 
cretou a tabeliã Lyra em beneficio do funccionalismo. 
Até aqui muito bem, mas... e o resto? Tempo é 
dinheiro, como dizem os ingleses, que, nisso de di- 
nheiro, falam de cadeira. Pois bem, esse dinheiro 
que corre em toda a parte e que não se falsifica, 
não teve augmento algum, nem de um segundo. Por- 
que? porque, para augmentá-lo, não têm poder os 
homens, ainda que adiantem os relógios, como fa- 
zem patrões e o governo, porque todos esses augmen- 
tos concorrem tanto para melhorar a vida como o 
adiantamento dos relógios para dar mais extensão 
ao Tempo. 

— Eis um raciocínio que não parece de louco. 

— Sim, não parece. Mas continuando: «Para au- 
gmentar o Tempo só Deus. E' isto que eu venho pe- 
dir a y. Reverendissima que faça nas seis missas 
({lie encommendei. 

— Issu, que? indaguei. 

— r)ue V. Pveverendissinia requeira a Nosso Se- 
nhor o augmento de alguns minutos nas horas do 
dia e da noite. Sessenta minutos não bastam. Que 
Elle augmente mis trinta por cento ao menos e 
ficaremos com mais algumas horas jjara o l]a])a- 
iho e etc. 

Encarei o pobre homem verdadeiramente penali- 
sado. Notando, porém, que elle tirava a carteira 
para pagar-me adiantadamente as missas, oppuz-me 
ao gesto : « Olhe, meu caro Dr. Clarimundo, se quer 
que lhe diga, acho que Nosso Senhor não attenderá 
ao seu pedido. 



A CIDADE MARAVILHOSA 135 



— E se as missas forem com órgão e uma de 
Libera me..J 

— Nem assim. O senhor comprehende que esse 
augmento de horas vem atrapalhar a vida do planeta 
sem resultado pratico para os homens, porque, como 
as novas horas trarão mais tempo para trabalhos, 
esse mesmo tempo acarretará despezas novas e fi- 
cará uma coisa por outra, se não ficar a emenda 
peior do que o soneto, como nos está acontecendo 
com as melhorias alvitradas, que são como lenha lan- 
çada a uma fogueira, porque quanto mais se augmen- 
tam os vencimentos, mais se aggrava a crise. Deixe- 
mos o Tempo como está, senhor doutor. Deus sabe o 
que faz e dirige o mundo com mais tino do que os 
homens governam a Republica. Tabeliãs são pannos 
quentes que não resolvem difficuldades. Assim lhe 
lespondi, como me cabia. 

— E elle? 

— Insistiu pelas missas. 

— E V. Reverendíssima? 

— Eu? Que fazer? Vou rezá-las. Com malucos 
não se discute e que elle está doido... não ha riu vida. 

— -Varrido, senhor vigário. Varridissimo! 



oio 



136 COELHO NETTO 



A A 31 ANTE 

Ao sahirem da Bralima, onde haviam jantado, 
um lento e conversado jantar cortado a risos, quando 
lhes occorria alguma recordação do tempo alegre da 
vida em commum: Álvaro, na Faculdade de Medicina; 
Lúcio, no jornalismo, postaram-se os dois á uma 
das portas, de charuto á boca, olhando os bondes que 
chegavam e partiam num movimento continuo de al- 
catruzes despejando e logo encliendo-se de gente. 

Mulheres trefegas, muito encalamistradas, desciam 
lestas, sacudindo-se rebolidamente ; ficavam um mo- 
mento a olhar, como á procura de alguém, ajuntavam- 
se ás duas e ás três, risonhas, e tomavam pela Avenida 
abaixo, á caça, acotovellando transeuntes, ás olha- 
dellas cúpidas. Garotos apregoavam jornaes. Os autos, 
de lanternas fulguras, estacionados em filas ou ro- 
dando vagarosam.ente, espreitavam freguezes. Os ci- 
nemas, com as fachadas accesas, pareciam arder. 

Álvaro hesitava entre um delles e um theatro 
qualquer, pretexto apenóis para passarem mais al- 
gumas horas juntos. 

— Homem, queres que te diga? nem uma coisa 
nem outra. A noite está quente. Se déssemos um giro 
por ahi? 

— Vamos a Copacabana. Não imaginas a saudade 
que tenho do mar... 



.\ 



A CIDADE MARAVILHOSA 131 



— Pois vamos. Mas com uma condição: Nada 
de nos mettermos no har. Aquillo é hediondo! Irri- 
t.a-me. Eu, Prefeito, acabava com aquelle mafuá. E' 
urna profanação. Aquella gente que arriba da cidade 
para refrescar-se por dentro e por fora, chalrando aos 
berros, esgargalhando-se escandalosamente; aquelles 
caixeiros pilherudos; aquella musica enfadonha... Hor- 
rivel! Copacabana devia ser reservada para a contem- 
plação, um sitio de repouso, de êxtase — largo, sereno, 
com o infinito do oceano e do ceu para folga da 
imaginação... e é aquillo: a balbúrdia. Quando me 
dá na cabeça lá ir sabes que faço? subo a Avenida 
Niemeyer,^ metto-me num palhiço que ha na barranca e 
ali fico horas e horas com um copo de cerveja, fu- 
mando, a olhar o oceano, onde a esteira do luar pa- 
rece um grande peixe adormecido á tona das aguas. 
Tenho horror á multidão. Na praia, com aquelle ir e 
vir de povaréu, com aquelles automóveis apinhoados 
de gente, como em corso carnavalesco, com os idyl- 
lios no areal e todo aquelle casario pretencioso, de 
janellas abertas sobre salões muito illuminados como 
vitrinas... Não sei... Sou homem da quietação, do re- 
manso, da solitude, como diria um poeta. 

— Falas assim porque vives aqui. Dois aimos 
de provincia curavam-te de tal phobia. Podes lá 
imaginar o que é um homem viver em uma cidade- 
zinha do interior, assediado pelo silencio, sem dis- 
tracção a não serem, de quando em quando, um 
baile, um circo, mua festa collegial com discursos e 
recitativos ou o joguinho morrinhento no club? E' 
de arrasar, meu amigo. A's oito da noite a vida 
estanca. Cabe pesadamente o silencio e os «noctur- 
nos» de Rostand tomam conta da scena: são as co- 
rujas, são os morcegos e os sapos rezando gargare- 
jadamente nos aguaçaes. Aqui, não. Aqui é isto. 
Com esta illuminação maravilhosa a noite aqui, dá- 



138 COELHO NETTO 



me a impressão de um dia trocado em miúdos. Em 
vez da claridade solar, uma nota miica, essa profu- 
são de lâmpadas, como moedas espalhadas num ta- 
pete escuro. E o movimento prosegue, a vida continua. 
Eu sinto necessidade disto: deste rumor, desta lufa- 
lufa. A provincia enerva. Não imaginas como me ata- 
ranto nas ruas. Estou como um homem que se hou- 
vesse levantado de uma paralysia e recomeçasse a 
andar e, demais a mais, tonto, acanhado, canhestro: 
um verdadeiro matuto. Vexo-me de tudo. Se entro 
em um hotel, em um café julgo estar sendo notadlo, 
observado por todos, commentado, analysado dos pés 
á cabeça e enfio, perco até o geito de andar. Decidida- 
mente acabo mudando-me para cá. 

— Fazes mal. A vida aqui está se tornando im- 
possivel, cada vez mais apertada. Médicos, ha-os por 
ahi ás centenas, rondando Ministérios á cata de em- 
prego... E todos os amios são novas fornadas. Lá, 
tens a tua clinica e ainda attendes a chamados de 
fora porque, segundo me disseram, és o cirurgião 
preferido na zona. Sempre tivestes geito para cor- 
tar. Quando estudante eras a primeira tesoura da 
Faculdade, é natural que, como operador, sejas lun 
bisturi perito. Vocação de talho. 

Nada de fantasias, meu caro. Deixa-te estar onde 
estás. Trata tle enriquecer, casa-te com uma herdeira 
de cafesaes e quando tiveres fortuna vem, então, 
tentar o êxito, mas escorado por um capital. Eu sei 
que isto seduz, não digo o contrario, mas seduz 
como amante, entendes? Para vida de familia, deixa 
lá! não ha como uma cidadezinha provinciana: quie- 
ta, modesta, sem vícios. Arranja-te primeiro, depois... 
faze lá o que te der na cabeça. Pobre, meu velho, 
não te aconselho. O Rio só com muito dinheiro. 

— De accordo. Tens razão. Lá fora nada me 



A CIDADE MARAVILHOSA 139 



falta, mas... que diabo 1 não é só trabalhar. Preciso 
gosar um pouco. 

— Eu, é como vês... Labuto de sol a sol, como 
um mouro e nauo passo da cepa torta. Aqui não se 
economisa. Com amantes, como esta cidade, não ha 
meio de se ajuntar um vintém. Vai-se tudo e ainda 
se fica a dever. E' um inferno! Viver aqui sem di- 
nheiro é supplicio igual ao de Tântalo, a menos 
que se não queira fazer vida de gigolô, á custa de 
expedientes. 

— Eis o mal da cidade, o vicio que nella se 
adquire. 

— Qual? 

— O de querer enriquecer, seja lá como fôr. 
Todos aqui só me falam em dinheiro. E' a febre do 
arrivismo, a corrida aos milhões. 

— Um esporte como outro qualquer. 

— Eu, felizmente, nunca fui ambicioso: conten- 
to-me com o necessário. 

— Ah! não és ambicioso? 

— Não. A felicidade para mim, consiste em ter 
a gente o bastante; o excesso incommóda, traz pre- 
occupações. Os ricos não conhecem a felicidade. Exem- 
plo disto dá-nos a fabula do argentario e o sapateiro, 
de La Fontaine. O desejo é que faz' a ventuía. 

— Pois sim! 

— E' como te digo. Os que vivem na monta- 
nha não gosam o panorama e os quadros que ella 
offerece, estão fartos de os ver e passam por elles 
com indifferença. Os que lá vão a passeio, com uma 
matalotagem de pique-nique, esses é que lhe apreciam 
as bellezas, penetram sitios recônditos, correm a flo- 
resta, abeiram-se dos abysmos no fundo dos quaes 
escachôam riachos, param diante de uma aguazinha 
que se despenha de rochas, enlevam-se em uma cla- 
reira e, descobrindo, ao longe, a cidade por uma 



140 COELHO NETTO 

aberta do arvoredo, rompem em exclamações de en- 
thusiasmo. E o montanhez? o montanhez acha-os 
até ridículos. Assim os ricos: têm tudo, menos o 
principal, que é o desejo. 

— Preferes a pobreza? 

— Sem duvida. 

— Influencia de Aristophanes ou de Jesus. Pois, 
meu amigo, eu quizera-me com os milhares de Ford, 
e se ainda pudesse dobrá-los, melhor seria. 

— Ford, Rockfeller, Carnegie, todos esses açam- 
barcadores de ouro, que têm elles mais do que nós? 

— Dinheiro. 

— E' pouco. 

— Achas? 

— Não têm uma cellula mais do que o mais 
vil mendigo. 

— Ahi vens tu comi a anatomia. , 

— E' verdade. Vivem encerrados em mJnas de 
ouro. Presos. Nós, não. Nós temos o desejo, que é 
um horizonte largo. 

— Horizonte de praia. Elles têm a ambição, que 
é o horizonte no oceano. 

— Compra o pobre ao rico. O pobre planta 
uma arvore no seu quintalejo, trata-a desveladamente, 
não deixa nella um parasito, rega-a, aduba-a, acom- 
panha-lhe o crescimento e no dia em que nella des- 
cobre a primeira flor... isso é uma festa! Vem por 
fim o fruto pequenino, sazona, amadurece e o ho- 
mem colhe-o cantando. E esse fruto sabe-lhe como 
nenhum outro, por ser bem seu, da arvore que 
elle plantou e que tanto lhe custou pôr a medrar. 
E o rico? O rico olha do seu automóvel os frutos 
expostos em pilhas á porta de um armazém. Desce, 
paga-os, entrega-os ao chauffeur e, á mesa, come-os 



A CIDADE MARAVILHOSA 141 

dissaboridameiíte, sem saber de onde vieram, que 
arvore os produziu, que mãos os colheu. Riqueza 
é coisa que não me preoccupa. Contento-me com a 
vida que me deu o Senhor. Ninguém vive um mille- 
simo de segundo mais dentro de uma hora, não é 
verdade? Para que milhões? 

Lúcio acenou alegremente a um rapaz de branco 
que estacara no passeio, além da arcada, movendo 
a cabeça em gesto interrogativo. 

— Nada, por emquanto, bradou-lhe. E a Álvaro: 
Um instantinho... Espera... 

Um bonde aproximava-se. Rápido, num salto, 
elle atravessou os trilhos ao encontro do homem, 
que o esperava. 

Álvaro elevou o olhar, como a seguir um pensa- 
mento e estava assim distrahido, a assobiar baixi- 
nho, quando um velhote, renteando vagarosamente 
o edifício, parou diante delle, com um sussurro hu- 
milde, a offerecer-lhe cem contos. Recusou: o bi- 
lheteiro insistiu citando números de palpite. O me- 
dico cedeu por fim e justamente o velhote recolhia 
o dinheiro, com agradecimento : « Deus lhe dê a sorte, 
senhor doutor. Bôa noite», quando Lúcio tornou á 
porta. Encararam-se os dois, sorrindo: 

— Cem contos hein? Bôa propaganda da po- 
breza, não ha duvida. 

— Pensas que comprei pela sorte? Comprei de 
pena do pobre velho. 

— Bem sei. Caridade pratica, com probabilida- 
des de fortuna. Emprestas a Deus com juros de 
avaro. Não te condenmo, porque eu também jogo 
na loteria, com mna differença apenas — é que eu o 
faço pelo dinheiro e tu pela piedade. Modos de ver. 
No fim dá certo. E batendo-lhe no hombro: Está ali 
um taxi decente. Vamos tomá-lo. Começas a viciar-te, 

10 Coelho Netto — A Cidade Maravilliona . 



142 COELHO NETTO 



meu caro. Se te demoras mais uns dias aqui acabas 
jogando no bicho e tomando cocaina. São as amantes 
que nos viciam e esta cidade é uma amante peri- 
gosa, perigosissima! Cuidado com ella e se a qui- 
zeres ter por tua faze o que lago aconselhava: «Mette 
dinheiro no bolso, muito dinheiro. Vamos tomar o 
taxi. 



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A CIDADE MARAVILHOSA 143 



UM EXCÊNTRICO 

De Carmelo Vampa não se poderá dizer que 
tenha sido estragado pela « van philosophia », por- 
que, detestando os philosophos, nunca os leu. 

Carmero nasceu sceptico, como urn fruto nasce 
azedo. E' um homem impassivel; nunca chorou nem 
riu, sorri apenas, pretexto para mostrar os dentes. 
Tanto se lhe dá que o dia amanheça luminoso como 
que venha nublado ou desfeito em aguaceiro. Encara 
todos e tudo\com indifferença. A bell-eza não o attrahe, 
a hediondez não lhe repugna; a alegria não o excita, 
a dor não o commove. Passa por um heroe com 
a mesma despreoccupação com que acotovella um 
bandido. 

«*Não faz por viver, diz elle, deixa-se ir na vida. » 
E explica: 

« A vida é um rio, não' é verdade? Para que nadar, 
fatigar-me, se a correnteza me leva? Deito-me, cruzo 
os braços e, boiando, vou indo, de olhos no ceu, 
até a cachoeira que me ha de despenhar no abysmo, 
a mim, a todos e a tudo. Os nadiadores acreditam 
que vencem, a braçadas, a força das aguas. Can- 
çam-se, apenas, esfalfam-se em vãx) porque, quando 
entram no rebojo trágico, na inevitável attracção, 
por mais que lutem nada os salvará. Eu, não. Dei- 
xo-me ir. 



■■■*s 






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144 COELHO NETTO 



Se valesse a pena viver, emfim, é possível que 
eu tentasse agarrar-me a alguma raiz, alcançar uma 
barranca, tomar pé em algum ponto, mas francamen- 
te... isto não me seduz. Estou farto. 

Que fazemos nós senão marcar passo, afundando, 
com os pés, a c-ova em que nos havemos de enterrar? 
O que vejo hoje vi hontemi e verei amanhan e sempre. 
A monotonia aborrece. Felizes são os ephemeros, 
esses, sim: gosam intensamente. Lembro-me de haver 
lido em uma selecta francesa a historia de certos 
insectos das margens de um rio da Ásia que vivem 
apenas um dia. Eis uma vida, vida solar, contada 
a horas. Em um dia vive-se, meu amigo, o miais é 
repiso, mesmice, remoalho. Não vale a pena, fran- 
camente. 

Tenho a minha mesa cheia de cartões de «bons 
annos». Anno novo... Que é isso? A eternidade é 
immutavel. O symbolo da vida é a pêndula: idas e 
vindas no mesmo andito. E ha coisa que mais abor- 
reça do que esse movimento iterativo, com o tic-tac 
invariável dos segundos que cahem? A vida, para 
mim, é isto, esta casa onde moro ha vinte e cinco 
annos. Conheço-a toda, desde o extremo da chá- 
cara até o portão da frente e, no prédio, canto por 
canto — salas, quartos, corredores, escadas, socavãos. 
Nella passo os dias e as noites, abrindo e fechando 
portas e janellas, recorrendo a moveis, deitandio-me 
na cama para dormir, sentando-me á mesa para comer, 
executando automaticamente todos os actos dessa es- 
pécie de sentença a que chamam vida, actos que 
hei de executar até que me deite para dormir o bom 
somno. 

Depois o rumor, meu amigo, o rumor...! Como 
pôde um homem concentrar-se, sentir-se em si com 
essa atroada das ruas, assedio tremendo de ruidos, 
desde o pregão dos ambulantes até as detonadoras 



;'i.:^„-.ísm 



A CIDADE MARAVILHOSA 145 



descargas e as azoinantes buzinas dos automóveis e 
ainda, lá por cima, a trepidação dos aeroplanos; sem 
falar nas varias vozes de homens e de animaes, nos 
estrondos das pedreiras, nos retumbos dos caminhões 
que passam abalando os prédios, nas vociferações 
dessas bocarras de lata que berram das sacadas dos 
prédios, do fundo das lojas e até dps telhados. E' 
horrível ! ^ 

— Horrível...! Tudo é questão de habito. Ima- 
gina que, apezar do teu apego felino a este casarão, 
que tresanda a séculos, resolvesses mudar-te. Logo 
ao entrares em tua nova residência não te assenta- 
rias tranquillamente á mesa de trabalho, nem te 
espicharias, com volúpia, no teu divan ou na tua 
cama. Antes, terias de pôr os moveis em ordem, de 
arranjar convenientemente o teu interior, peça a peça, 
desde o salão até a cozinha. Só no teu escriptorio, 
com o que tens em moveis, livros, objectos de arte, 
gastarias nunca menos de uma semana, isso mesmo 
com auxilio de armadores hábeis para o alfaiamento 
e de criados destros para o mais. 

E o resto da casa? Durante dias andarias em 
verdadeiro atravancamento aos esbarros aqui, ali, 
transferindo objectos de um para outro compartimento, 
estudando disposições de moveis, de quadros, e mais 
isto, e mais aquillo. E terias de supportar estrondos 
de martelladas, rilhar de limas, arrastar de escadas, 
tinir de louça, ranger de portas e janellas perras, e 
passos, vozerio de trabalhadores indo e vindo, e 
até que se estabelecesse o silencio, para reentrares 
nos teus hábitos de tranquillidade, muita agua havia 
de correr para o mar. Pois o que se daria se te 
mudasses de casa está se dando com todos nós no 
mundo. 

A Guerra mudou-nos de um tempo moroso para 
uma éra infrene de grandes iniciativas. Se tanto 



146 COELHO NETTO 



custa pôr em ordem uma casa, calcula o que deve 
custar fazer o mesmo ao mundo. 

O rumor de que te queixas é natural: rumor de 
mudança. Quando tudo estiver em seus lugares, então, 
meu amigo, a vida será uma delicia. Por emquanto não 
ha remédio. Temos de sujeitar-nos ao atropello, ao 
atabalhoo, ao barulho, á desordem, emfim. Mas não 
tardam os dias serenos, com uma vida melhor, mais 
confortável e ouso dizer — mais bella. 

— As tuas razões não colhem. Em primeiro lu- 
gar porque, antes da mudança a que te referes, já 
eu me não sentia bem neste rame-ram, que achas 
adorável. Quando aqui se falou — (até sábios do Ob- 
servatório entraram no coro) — na possibilidade de 
nos communicarmos com Marte, vencendo a minha 
antipathia a tudo que cheira a militarismo, fui logo 
tratando de arranjar as coisas de modo a poder 
partir no primeiro transporte, fosse elle qual fosse. 

Em segundo lugar, meu amigo, porque nunca me 
mudei, ou melhor: nunca me occupei com mudanças. 
Moro, ha vinte e cinco annos, nesta casa, que achas 
hedionda, por não obedecer ao estylo colonial. Quando 
para aqui vim, enfarado de roça, encarreguei uma 
empreza de fazer-me a mudança. Emquanto arran- 
javam a casa, segundo as minhas determinações, li 
todo o Rocambole no Hotel das Paineiras. Só desci 
quando me levaram a conta da empreitada, entre- 
gando-me a casa prompta, com a despensa sortida e 
todos os criados em serviço. Não sei o que seja mu- 
dança e essa a que te referiste, que modificou fun- 
damentalmente a vida, a mim não causou o menor 
abalo. Sou um homem deslocado, e, por isto mesmo, 
revoltado. Não me sinto bem em parte alguma. 

— Mas, afinal, que queres tu? 

— Sei lá! Quero viver onde se viva, avançando, 
onde se caminhe para diante e não se ande em cir- 



A CIDADE MARAVILHOSA 147 

culo como ponteiro de relógio. Um dos «Pequenos 
poemas em prosa» de Baudelaire tem este titulo 
estranho : 

«Any where out of the worid» ou «Seja onde 
fôr, com tanto que seja fora do mundo ». Nesse 
poema o poeta interroga a própria alma entediada 
sobre o sitio na terra em que ella prefere viv^er. 
Tenho aqui o livro á mão. Ouve lá. Começa assim: 

«Esta vida é um hospital onde cada doente 
só tem um pensamento: mudar de cama. Este deseja 
que o ponham junto ao fogão; entende aquelle que 
se o levarem para junto da janella logo se resta- 
belecerá. 

Eu creio que só ficarei á minha vontade no lugar 
onde não estiver e esta questão de mudança é uma 
das que eu mais discuto com minh'alma. » 

E que responde a alma ào poeta a todas as pro- 
postas de mudança que lhe elle faz? Responde-lhe 
com o titulo do poema: 

«Seja onde fôr! Seja onde fôr! comtanto que seja 
fora do mundo ! » 

Pois, meu amigo, assim respondo eu. Estou farto 
— farto de tudo ! de tudo ! 

Disse, com amuo de asco, e foi dar corda á vi- 
trola para ouvir um tango. 



olo 



148 COELHO NETTO 



U3fA SANTA 

Desde a porta da rua, sempre sórdida, casca- 
bulhada de rebutalhos hortenses: talos e folhas mur- 
chas de legumes, escoagem de balaios de peixeiros 
(porque a cozinheira, uma negraça anafada e falas- 
trona, fazia as compras no corredor, de cócoras, com 
uma peneira ao collo, resingando enfesadamente), 
sentia-se no húmido bafio que vinha do interior o 
cheiro morno de incenso. 

A casa, pela insistência das defumações, que a 
abrumavam, rescendia como uma capella. O aroma, 
porém, contrastava com o desleixo. O soalho negro 
cascarrava-se em placas de sujeira; as paredes, es- 
calavradas, abriam-se em frinchas e tinham laivos 
de humidade; quadros reles pendiam d'esguelha, des- 
aprumados; os moveis branquejavam de pó; louça 
servida, avoejada de moscas, que enxameavam em 
restos de comida e cascas de fruta, espalhava-se 
na mesa e nos aparadores. E papeis amarfanhados 
pelo chão, pannos tisnados sobre as cadeiras. 

No lustre azinhavrado marinhavam aranhas ur- 
dindo teias; outras corriam espernegadamente pelo 
tecto de angulo a angulo, porque D. Justina nilo con- 
sentia que as espanassem, certa, como affirmava, de 
que taes insectos davam felicidade. Demais, que lhe 
importavam os bichos, se não a incommodavam ? 
Eram criaturas de Deus. Que vivessem 1 



A CIDADE MARAVILHOSA 149 

Em toda a pequena rua, pobre e quieta, rua em 
que andavam gallinhas soltas, mariscando nas sar- 
getas, ciscando em montoeiras de lixo, commentava-se, 
com veneração, a vida da piedosa senhora. « Aquella 
está com o ceu garantido, diziam. Uma santa!» 

Posto que ainda conservasse no rosto alvo, de 
pallidez ascética, uma triste belleza, sem uma ruga, 
sem um fio de cabello branco e os olhos admiráveis, 
grandes, negros, languidamente adormentados á som- 
bra de cilios longos, não cuidava de si, alheada do 
mundo, certa de que a mais leve concessão que 
fizesse á moda compromette-la-ia perante Deus. 

Não deixava o trajo negro — vestido escorrido, 
mal descobrindo os pequeninos pés que ella, propo- 
sitadamente, calçava em sapatos rasos, de salto baixo; 
á cabeça uma capota, ao braço uma bolsa ancha onde 
mettia atafulhadamente coisas de devoção e dadivas 
esmoleres. Nada que lhe pudesse realçar as linhas 
do corpo, revelar-lhe as formas: tudo simples, se- 
vero, humilde. 

Na rua era sempre de olhos baixos, com as Horas 
aconchegadas ao collo, em defesa do coração, e bal- 
buciando rezas. 

Ao passar de leve, como uma sombra, crianças 
sahiam-lhe ao encontro tomando-lhe a mão para bei- 
jarem; os vizinhos cumprimentavam-na respeitosos 
e ficavam entredizendo-se : «Lá vai ella, coitada! 
Não pára!» Só o taverneiro da esquina, typo suino, 
de pança ao léu, bufando fervores d'alcool, resmun- 
gava, inchando o papo rubro, quando a avistava: 

« Lá vai a barata de sacristia, a sonsa. Fiem-se 
nella! Aquillo, mais hoje, mais amanhan está ahi co- 
madre de algum padréca. Conheço-as pela pinta! 
Oh! se as conheço! Para cá vêm de carrinho. E dei- 
xem lá que não é nenhuma cróia. Isso não^é. Qui- 
zesse ella vestir-se... Eu, cá por mim, digo\— se me 



150 COELHO NETTO 



dessem a escolher entre ella e a filha, ficava-me 
comella, deixando a lambisgóia para quem quizesse. » 

Rezas sabia-as como um livro, empara tudo: desde 
ladainhas até orações contra doenças e males de 
olhos — sezões, erysipela, quebranto; e para ajudar a 
morrer, e para alliviar parturientes em casos atra- 
vessados, até para conjurar raios, nas tempestades, 
accendendo, com a mesma intenção, um coto de 
vela do Santo Sepulcro e queimando palma benta, 
do que tinha sempre farta reserva a um canto do 
quarto. 

Levantava-se ainda com o escuro para a missa 
das seis. Ao bater da meia noite de quinta feira, 
houvesse o que houvesse, ninguém lhe arrancava pa- 
lavra. Concentrava-se para varrer a consciência, ajun- 
tando tudo que lhe parecesse sujeira da alma para 
despejar no confissionario, limpando-se escrupulosa- 
mente afim de receber, na communhão, o corpo do 
Salvador. 

Em c-asa era sempre a repassar rosários — e 
quantos eram elles ! — de Jerusalém, de Lourdes, da 
Apparecida, do Senhor do Bomfim — e só tomava 
café (isso nos dias que nãxD eram de preceito, nos 
quaes observava rigoroso jejum) — depois de uma 
enfiada de jaculatórias rezadas de joelhos diante do 
oratório, dia e noite alumiado por uma lamparina 
de azeite ou a velas de cera em certos onomásticos 
de grandes santos. 

Volta e meia era alguém a j)rocurá-la em afflicção 
para uma prece a Deus, a Nossa Senhora ou a algui^ 
santo milagroso, por isto ou por aquillo. E ella, 
piedosamente : 

«Vá, vá com Deus! Vou fazer o que pede. Tenha 
fé». E suspirava compadecida, quando não recorria 
á bolsa, escolhendo, entre medalhinhas e bentinhos, 
o que mais conviesse ao caso, ajuntando, ás vezes. 




A CIDADE MARAVILHOSA lõl 



uma moeda para o pobre de Christo, dizendo em 
si mesma : « Deus não me ha de faltar com a sua 
graça. Assim como agora faço por um que precisa, 
assim Elle fará por mim em caso de necessidade ». 
A's vezes, noite alta, a campainha da porta retinia. 
Era gente a chamá-la para alguém que se achava 
nas ultimas, e lá lhe recordava a oração dos agoni- 
santes, ou para uma pobre coitada em apertos de 
maternidade. E fizesse o tempo que fizesse não se 
recusava ao sacrifício e ficava de guarda ao morto 
ou regressava cançada, tresandando a remédios, « em- 
pestando a casa com porcarias que trazia dos caf undós 
e bibocas onde se mettia», como resmungava a filha 
com amuos de nojo. 

O marido levantava-se da cama irritado, accen- 
dia um cigarro e, perlongando o quarto, descalço, 
desabafava : 

« Isto não tem geito. Afinal de contas você não 
é irman da caridade. Não sei que parece andar uma se- 
nhora a estas horas da noite por ahi em estalagens e 
casas de commodos. Não é direito. » 

De cabeça baixa, calada, ella continuava a ves- 
tir-se e sahia com a pessoa que a procurara. 

Só em contribuições de caridade esgotava-se-lhe 
a maior parte do dinheiro que lhe dava o marido 
para as despezas domesticas e ahi pelos vinte do 
mez começavam os recursos do expediente — era o 
caderno do armazém, eram notas para o açougue, 
assentamentos da quitanda e da padaria, compras 
a prazo aos ambulantes e, por abuso da filha, que se 
aproveitava do jubileu do « credito », também en- 
commendas no armarinho da turca — tecidos, rendas, 
miudezas, vidros de cheiro. E os cobradores faziam 
má cara quando os despachavam á porta, emprazan- 
do-os para o principio do mez. Era a desordem. To- 
mando-lhe as praticas religiosas o melhor das horas 






152 COELHO NETTO 



não lhe sobrava tempo para cuidar da casa, que an- 
dava á matroca. 

As criadas — a cozinheira e a arrumadeira, ne- 
grinha sapeca, que gostava muito de bailes — viviam 
em desmandada calaçaria na cozinha, rindo ás ca- 
chinadas, ao recontarem-se scenas das sociedades de 
dança que frequentavam, escândalos relamborios da 
malandragem da zona. 

A filha — dezoito annos viçosos e muito livres 
— era todo o santo dia a pensar em divertimentos. 
Na cama, abraçada com o travesseiro fofo, rebolcan- 
do-se voluptuosamente nos lençóes mornos, recapi- 
tulava, em enlevo, as noitadas de cinema e baile. 
Tomava o café, lia os jornaes — apenas as secções 
mundanas e os programmas de films; fazendo pro- 
jectos para a tarde e a noite. Conhecia todos os 
artistas de cinema, sabia-lhes a chronica; tinha os 
seus Ídolos entre homens e mulheres, suspirando por 
uns e invejando outras. Cortava-lhes os retratos de re- 
vistas, collocando-os em álbuns, que constituiam a sua 
bibliotheca. 

Levantava-se amollecidamente ahi por volta das 
onze, descia para o banho, ainda preguiçando, boce- 
jando e, emquanto se enchia o banheiro, sentada em 
um dos bancos da cozinha, ficava de prosa com as 
criadas, coscovilhando escândalos: casos de namoro e 
outras malicias do bairro. 

Ao sahir dagua almoçava ás pressas, dissaborida- 
mente e ia-se metter no quarto e, em camisola, pi- 
sando, a pés nús, os tapetes, com volúpia felina, 
cantarolava coisas de jazz, fazendo os arrebiques fa- 
ceiros — lubrificação da pelle com electuarios e cos- 
méticos, trato das unhas, raspagem de pubescencias, 
afinamento em curva das sobrancelhas, côr ás faces, 
rcmge aos lábios, negror aos cilios, sombra ás olhei- 
ras, mirando-se, remirando-se horas e horas até que 



"^ - J 



A. CIDADE MARAVILHOSA. 153 



a chamavam para o luiich, se o não levavam ao 
quarto. 

Depois era a lenta, trabalhosa escolha da toi- 
lette para o passeio á praia ou um pulo á cidade 
a compras de ninharias, pretexto apenas para bater 
a Avenida, mostrar-se, ser citada na lista das elegan- 
tes, photographada num instantâneo. A' noite, in- 
fallivelmente (salvo se tinha convite para alguma 
festaj era o cinema no bairro ou na cidade com amigas 
e adherencias do outro sexo. 

O homem esbofava-se no trabalho, topando' a tudo. 
Para elle não havia domingos nem dias santos — era, 
da manhan á tarde e depois, em casa, pela noite a 
dentro, ás vezes até a madrugada, a escrever, a 
sommar parcellas, a corrigir contas, fumando cigar- 
ros sobre cigarros. 

Além do que tinha como guarda livros da firma 
Mendonça, Aroeira & Cia., ainda tomava escriptas 
para fazer em casa, encarregava- se de balanços, de 
exame de livros e dava uma aula de escripturação 
mercantil em um curso nocturno. Nem assiimi conseguia 
equilibrar «a balança económica». O peso da casa 
augmentava sempre, dando-lhe frenesi^ pondo-o de 
mau humor, embezerrado á mesa. E augurava sombrio : 

— Se eu caio de cama não sei que será desta casa. 
Porque é preciso que saibam: eu vivo do que faço, 
e só. Não pensem que tenho dinheiro junto. E' de- 
mais! Eu fico doido! 

Uma noite, ao entrar do curso, com os pés en- 
charcados da chuva, a cabeça a estalar de enxa- 
queca, achou sobre a mesa de cabeceira um enveloppe 
atochado de contas. Examinou-as uma a uma, arrega- 
lando os olhos, retrincando 'os beiços, fulo de raiva. 
De repente, amarfanhando a papelada, desceu a escada 
e, na sala de jantar, encontrando a mulher a cabecear 
de somno, na cadeira de balanço, com o rosário entre 



íi^i^i£ÁL^^ÍíáSLiààÍíCitr-w\ . 



154 COELHO NETTO 



i as mãos e a _ íilha amuada a um canto, resmungando 
contra o mau tempo, «sempre aquella chuva, abor- 
recida, que a não deixava sahir», explodiu: 

— Que contas são essas ? A mulher levantou man- 
samente os olhos estremunhados, encarou-o um ins- 
tante e baixou de novo a cabeça, remoendo o terço. 
Mas que faz você do dinheiro que eu dou para as des- 
pezas? Pois então.... e engasgou colérico, escarapel- 
lando-se agatafunhadamente, a andar pela sala a 
duras passadas, de mãos ás costas, engrolando res- 
mungos. 

— Não! Isto não está direito! Assim não é pos- 
sível! Não ha quem aguente uma coisa assim. Vol- 
tou-se de golpe para a filha, interpellando-a com 
aspereza: 

— E você? Porque não toma você conta da casa? 
A moçoila franziu o rosto em rictus escarninho, es- 
pocou um muchôcho, a súbitas, porém, aprumemdo o 
busto, encarou-o como a desafiá-lo: 

— Ah! agora é cormnigo?! Eu é que hei de to- 
mar conta da casa? Quem sabe! 

— E porque não? Não é só cuidar de pinturas, 
de cinemas e de bailes por a,hi. Que faz você aqui 
dentro ? 

— Que faço...? Se sou de mais, se lhe peso, po- 
nha-me na rua, respondeu com indifferença, cruh 
zando a perna, a sacudir o pé, nervosa. É sorria 
balançando a cabeça, d'olhos no lustre. Elle mastigou 
em secco, contendo uma resposta atrevida. E a filha, 
no mesmo tom desprezível: 

— Olhe, entenda-se com mamai. Se, em vez de 
andar pelas igrejas, mettida com padres e beatas e 
ahi por esses cortiços a cheirar ^defuntos, cuidasse das 
suas obrigações, ninguém teria razão de queixa. Mas 
é o que se vê. O dinheiro...! Quern sabe se o senhor 
pensa que o gasto oommigo? Não tenho um vestido 



.#•: ^' 



A CIDADE MARAVILHOSA 155 



que preste, uso uns chapéus que até me fazem ver- 
gonha, sapatos... e estendeu o pé, mostrando-o. O 
dinheiro vai-se todo em esmolas por ahi. E com 
ironia ferina: Fale com a santa! Commigo, não. 

D. Justina olhou para a filha, balançando a ca- 
beça, sentida da mordacidade; depois, levantando o 
olhar, como se buscasse o ceu, murmurou: 

— Deus que me julgue! Sou culpada... pois sim. 
O homem relanceava de uma a outra olhares aira- 
dos. Por fim, abrandando-se, com pena da mulher, 
cujos olhos lindo começavam a marejar-se, concluiu: 

— Eu só digo que não sou de ferro. Abusem... 
abusem e depois não se queixem. Se eu estourar, 
minhas amigas..., curvou-se e, estalando a ,unha do 
poUegar nos dentes, concluiu: acabou-se! 

Arrepanhou as contas e foi-se escada acima, ba- 
tendo os pés; despiu-se e, de pyjama e chinellas, 
metteu-se no quarto desarranjado, onde trabalhava 
numa barafunda de roupas, pilhas de jornaes e re- 
vistas, caixas de chapéus e duas cadeiras desconjun- 
tadas, com a palha rota, espipada. 

A mulher seguiu-o em passos surdos, achegou- 
se-lhe humilde e, muito branda, roçando por elle, 
pediu: 

— Não sejas assim áspero com tua filha. E' moça, 
está na idade. 

Elle voltou-se enfuriado: 

— Ahi vens com os pannos quentes. E' por es- 
sas e outras que ella está assim. Moça...! Está na 
idade...! Idade de que? Outras ha, mais moças do 
que ella, que vivem por si, do seu trabalho. E ella? 
Nem para te ajudar no governo da casa. E' dormindo 
até ás tantasj é por ahi em bailes, em cinemas, 
desmoralisando-se. Pensas que o mundo é cego? E é 
assim que ella espera achar marido? Ha de achá-lo! 
Um homem de juizo não quer saber dessas «pintu- 



166 COELHO NETTO 



rinhas» que batem calçada e assignam ponto em 
cinemas ; quer mulher que entenda do governo de uma 
casa, que saiba economisar o que é seu. Tu também 
foste moça, e bonita... Um relâmpago na memoria 
illuminou o passado e elle quedou, como deslum- 
brado, de olhos fitos no rosto pallido da mulher. 
E ella, com a sua doce voz acariciante: 

— Sim, mas no meu tempo, os costumes eram 
outros... 

— Eram outros, eram... 

— Mas não te amofines, e encostando-se-lhe ao 
hombro, alisando-lhe os cabellos de leve, de vaga- 
rinho: Falas em doenças... Deus é grande! Foi como 
se o houvessem espetado. Poz-se de pé, repellindo 
a cadeira e desabriu: 

— Deus é grande! Deus é grande! E' com o que 
lhe dás! Deus é grande! Mas quem se vê nos aper- 
tos sou eu, entendes? Eu é que me mato ao traba- 
lho para não andar com a cara de rasto, perse- 
guido pelos credores. Deus é grande, mas o burro 
de carga é que faz tudo. Estou farto dessa cantilena. 
Não ha ainda um mez que tirei o relógio do penhor 
e estou vendo que tenho de o levar de novo e com 
mais alguma coisa para pagar tudo isto, e, com um 
gesto largado, mostrou as contas sobre a mesa. Deus 
é grande!... Pode ser que seja para outros, para 
mim... D. Jesuiria levou as mãos aos ouvidos para 
poupá-los áquellas heresias. 

— Não fales assim, criatura. Isso brada aos céus! 
Não exponhas tua alma, que o demónio anda em 
volta de nós e é por palavras como essas que nos 
arrasta ao inferno. 

— Demónios...! Demónios bem sei eu quaes são! 
Os demónios do meu inferno... e atalhou a phrase 
com um encolher de hombros. Cruzou violentamente 
os braços: E, aqui entre nós, achas direito isso de 



A. CIDADE MARAVILHOSA 157 



deixares as tuas obrigações para andar não sei por 
onde? Achas que o ser caridosa é uma mãi de famí- 
lia desbaratar o pouco que tem, sacrificar a casa, 
tirar de si, do marido, da filha para espalhar por 
ahi á toa? 

— A' toa! Como á tòa? São infelizes que pre- 
cisam de nós... 

— Ah! precisam de nós?! E a mim? quem ó 
que me soccorre nas minhas necessidades? 

— Tu tens a graça de Deus. 

— A graça de Deus... A graça de Deus está 
aqui! e mostrou as mãos engelhadas em grifas. E' o 
que eu desimho no armazém, no curso e aqui até 
sei lá quando! Graças de Deus...l A boa caridade co- 
meça por casa, entendes? Como queres tu que haja 
ordem se deixas tudo entregue ás criadas (porque a 
filha é o que vês) e só cuidas em rezas, em confes- 
sar-te, commungar, ouvir sermões e novenaí», fazer 
quartas a defuntos, e não sei que mais^..? 

— Faço o que devo pela salvação de minh'alma. 

■ — Pois, minha amiga, devias fazer também al- 
guma coisa em beneficio do corpo. Eu não me casei 
para ter oratório: casei-me para ter casa. Não bus- 
quei uma santa, mas uma mulher. 

— E eu não faço o que devo? 

— Tu?! Encararam-se e elle surriou um risinho 
sarcástico. Sc queres que te diga... não chego a en- 
tender a tua religião. 

— Por que? 

— Porque... porque só vejo nella egoismo. por- 
que só cuidas de ti, unicamente de ti. Tratas de 
ganhar o ceu como um naufrago que, embora veja 
outros em volta de si, lutando com as vagas, pensa 
apenas em salvar-se, pouco se lhe dando àon mais. 
Se Deus vê no fundo dos corações, minha amiga, 
acho que não te receberá de boa sombra quando lhe 

11 Coelho Netto — A Cidade Marurilhosa . 



Ihi^ COELHO NETTO 



fores prestar contas, porque, com toda a tua beaticc, 
não fizeste oulra coisa senão airajijar um lugar para 
tua alma iio Paraíso. Não praticas a Religião desin- 
t^eressadamente, por fé, nem a caridade por amor ao 
próximo, senão por interesse de lucro, como o usu- 
rário que empresta dinheiro a premio. 

— Muito obrigada pelo juizo (|ue fazes de mim... 

— Sou franco, digo o que penso. Como dona 
de casa... Olha para isto, e girou com o braço em 
volta mostrando a desordem do quarto. E tudo mais 
c assim. 

— Estás arrependido de te haveres casado com- 
migo, não é? Mas dize: Não tenho sabido respeitar 
o teu nome? Já te constou alguma coisa a meu res- 
peito? Fala! Encararam-se fito a fito e foi elle que 
desviou o olhar, dizendo com aborrecimento: 

— Ahi vens com a eterna historia! Para vocês, 
mulheres, a virtude consiste apenas nisso. Não! Isso 
é tanto como um capital confiado a um depositário, 
presumidamente honesto. Se o desbarata, torna-se cri- 
minoso cx)mo o estellionatario ; se o applica com intel- 
ligencia, em bons negócios, enriquece. E tu, que fi- 
zeste? (Ella mirava-o pallida, d'olhos apertados, mor- 
dicando os lábios). Escondeste-o, como o avaro enterra 
o seu thesouro. Não o esbanjaste, é verdade, mas 
também não o aproveitaste. 

— Que queres dizer com isso? Palavra que não 
te entendo... 

— Não me entendes? Pois, minha amiga, eu não 
estou falando grego. A mulher que sabe viver pôde 
auxiliar o marido sem prejuízo da honra. As notas 
sujam-se, rasgam-se, as libras esterlinas, que cir- 
culam mais do (jue ellas, porque têm curso em todo 
o mundo, valera o que pesam em ouro e, por mais 
que girem, passando de mãos de príncipes a mãoís 
de carvoeiros, não se maream. Assim a virtvide. E 



A CIDADK MARAVILHOSA 159 

tu? Que fizeste? Abafaste a tua mocidade, murchaste 
ao calor dos cirlos e só cousegtiiste com isso ganhar 
fama de santa, santa milagrosa, mas só para os d^ 
fora, porque aqui em casa os teus milagres custam-me 
os olhos da cara. Para ganhares o ceu fazes-me viver 
num inferiuj. E' verdade que o adagio diz que «santo 
de casa não faz milagre... ». Estás com o adagio... 
Sabes que é isso? Vaidade. 

— Vaidade?! 

— Pois entrvo? Cada ([ual tem a sua: umas, isto; 
outras, aquillo. A tua é a de ser santa. Ella teve 
um gesto manso de resignaçcão: 

— Está bem. Vejo que errei votando-me a Deus. 
Devia ter ficado entre os homens. Agora é tarde 
para reparar o meu erro. Estou velha. Uma coisa, 
porem, posso assegurar-te : é que se te não enriqueci 
também não te dei prejuízo, porque o capital... está 
intacto. E quantas, meu amigo, virtuosas como as 
taes moedas, por se metterem em operações atre- 
vidas começaram perdendo e, com esperança de re- 
sarcir o perdido, tudo desbarataram! Não me falta- 
ram propostas de negócios vantajosos, recusei-as sem- 
pre, para não tocar no dote que te trouxe e que era 
o nosso capital. Fui tola, confesso, mas agora... 

Baixou a cabeça e, vagarosamente, curvada, sa- 
cudida a soluços, foi-se do quarto deixando o ma- 
rido petrificado em arrependimento, evocando-a do 
passado, revendo-a nos dias da mocidade, linda, cheia 
de graça, cercada de adoradores, sorrindo a todos, 
como a luz brilha dentro de uma lâmpada de ala- 
bastro em volta da qual esvoaçam em enxames ne- 
gros besouros attrahidos pela claridade, queimando-se, 
porem, se lhe chegam á chamma. 

ojo 



■ --v^nws 



índice 



A cidade raaravilliosa 

Aproximação . 

Notas recolhidas. 

O monumento 

Os sentidos , 

O potro e o sendeiro 

Homens e relógios . 

Coração de ouro. 

Conspiração . 

A hora do radio. 

O principe leproso . 

A enfermeira. 

Um sorvete . 

Na treva .... 

A estrella. 

O grande jogn 

A visita .... 

Emigrantes 

A vida .... 

O colleccionador. 

Plantas de vaso . 

l'm caso de loucura 

A amante. 

Um excêntrico. 

Uma santa 



29 

33 

38 

43 

48 

53 

ÕS 

fi4 

69 

74 

80 

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90 

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103 

109 

114 

121 

126 

131 

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143 

148 



C.i MELHORAMENTOS DE S. PAULO 

(WEISZPLOG IRMAOS INCORPORADA) 

Matriz: SAO PAULO ^ Filial: RIO DE OANEIRO 

Rua Libero Badaró, 30-30 D JLJ Rua Buenos Aires, 40-42 
Caixa Postal, 2941 & Caixa Postal, 1617 



EDIÇÕES DA CASA 

COELHO NETTO 

A Cidade Maravilhosa 6|000 

PEDRO CALMON 

O Thezouro de Belchior 6|000 

LUIZ DO AMARAL 

A mais linda viagem ÕfOOO 

GUSTAVO BARROSO 

Atravez dos Foik-lores 6|000 

FONTOURA COSTA 

Caipiradas 4|000 

ARTHUR NEIVA 

Daqui e de longe 8^000 

HENRIQUE COELHO 

Chrestomathia Brasileira . 7f000 

MARQUES DA CRUZ í -^^^^í 

Historia da Literatura 



• • 



ANTÓNIO VIEIRA 

Arte de Furtar 5$000 

GUSTAVO KUflLMANN 

Bondade e Pátria 5|000 

LEOPOLDO PEREIRA 

Poetas e Prosadores Latinos 7^000